Aliança entre João Campos e Marília Arraes entra em crise antes da posse dela no Senado
João defende a federação entre PSB e PDT. Marília votou contra a proposta apenas 23 dias depois de os primos disputarem a eleição na mesma chapa
GAZETA PERNAMBUCANA
No dia 4 de outubro, o pernambucano que votou em João Campos para governador e em Marília Arraes para senadora fez exatamente o que os dois lhe pediram. Vinte e três dias depois, antes que Marília pudesse subir pela primeira vez à tribuna do Senado na condição de titular do mandato, os primos já estavam em lados opostos de uma decisão que interessa diretamente ao futuro político de ambos. João, presidente nacional do PSB, trabalha por uma federação com o PDT de Carlos Lupi. Marília, eleita pelo PDT com 2.325.127 votos, manifestou-se contra. Para quem se lembra de que os dois disputaram o segundo turno pela Prefeitura do Recife em 2020, a divergência tem algo de familiar. O que chama a atenção, desta vez, é o pouco tempo que a unidade de 2026 levou para encontrar o seu limite.
A eleição distribuiu de maneira desigual o poder dentro daquela chapa. Marília conquistou um mandato de oito anos, com início em 1º de fevereiro de 2027. João perdeu a disputa pelo governo para Raquel Lyra, mas conservou, na presidência nacional do PSB, a autoridade para negociar com outros partidos. Para o PSB, uma federação com o PDT poderia ampliar o alcance político da legenda depois da derrota em Pernambuco. Para Marília, a mesma operação levanta uma questão que o palanque permitiu adiar. Até onde iria a autonomia da senadora se o partido pelo qual conquistou o mandato passasse a decidir suas candidaturas em conjunto com o partido do primo?
Foi o ministro da Previdência Social, Wolney Queiroz, quem deu à divergência sua expressão mais reveladora. Durante anos, ele defendeu uma federação com o PSB. Na reunião nacional do PDT de 27 de outubro, no Rio de Janeiro, votou contra e explicou por quê. Tinha trabalhado para levar Marília ao partido, participara da construção de sua candidatura e reconhecia na senadora eleita a legitimidade para orientar a posição dos pedetistas pernambucanos. “Eu lutei muito por essa federação com o PSB, mas, hoje, eu me submeto à decisão de Marília”, declarou, segundo o Diario de Pernambuco. Enquanto Lupi negociava o futuro nacional da sigla, Wolney punha na mesa o peso da liderança que o próprio PDT acabara de ajudar a eleger.
O PDT autorizou sua Executiva Nacional a prosseguir nas negociações com outras legendas, e Lupi apontou a federação com o PSB como o caminho de sua preferência. A proposta ainda depende de acordo. Se prosperar, os dois partidos conservarão seus nomes e seus filiados, mas terão de atuar eleitoralmente como uma única agremiação, em todo o país, por pelo menos quatro anos. No Recife, a consequência é concreta. A escolha de quem a federação apoiaria para a Prefeitura em 2028 passaria por uma decisão comum. João, eleito prefeito em 2020 e reeleito em 2024, está impedido de disputar um terceiro mandato consecutivo, mesmo tendo renunciado durante o segundo. Como presidente do PSB, poderá influir na escolha. Marília, caso deseje concorrer e permaneça no PDT, teria de conquistar apoio dentro dessa mesma federação.
Em 2 de novembro, o Blog Dellas, do Jornal do Commercio, informou, com base no relato de uma pessoa que conversou com Marília, que a senadora eleita deixaria o PDT caso a federação fosse aprovada. Sua oposição à proposta já foi registrada na reunião de outubro. A possível saída da legenda permanece no terreno do relato de bastidor, condicionada a uma decisão que os partidos ainda terão de tomar.
João tem razões partidárias para defender a federação. Marília tem legitimidade para preservar sua autonomia política. O eleitor, porém, também tem suas razões para cobrar dos dois uma explicação sobre o que ficou daquela campanha. João pôde apresentar a Pernambuco uma frente que incluía a prima com quem disputara a Prefeitura do Recife. Marília pôde concorrer ao Senado numa chapa com presença em todo o estado. O benefício que cada um buscou naquela aliança é visível. Falta saber qual compromisso com Pernambuco os dois aceitam sustentar agora que isso pode custar a cada um uma parcela de poder.
A ruptura entre os primos continua em aberto. A cobrança política já cabe. Quem atendeu ao pedido de João e Marília e depositou nas urnas os dois votos que eles solicitaram tem o direito de lhes fazer uma pergunta simples, antes mesmo da posse da senadora. Quando deram as mãos, até onde pretendiam caminhar juntos depois da eleição?
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