Vídeo: A implosão do STF que abala a sua história.
“O Supremo não consegue mais se corrigir, porque ele se dividiu de uma maneira insolúvel.” A frase, dita ao vivo na Central das Eleições da Globo News, sintetiza a semana em que a Corte trocou acusações internas, afastou o diretor-geral da Polícia Federal em dois dias e pautou a si mesma para investigar seus próprios ministros.
Em plena reta final da campanha presidencial, o Supremo Tribunal Federal chegou à mais aguda crise de sua história, e foi o próprio tribunal que a fabricou. A avaliação é de um dos analistas da Central das Eleições da Globo News, em participação que circula nas redes sociais e retrata, com rara dureza, o desfecho de uma divisão que vinha sendo anunciada há anos entre os ministros da Corte.
“Não, Joel. Acabou”, respondeu o comentarista, em referência ao também analista Joel Pinheiro da Fonseca, que tentava enxergar uma saída institucional para o impasse. “O Supremo não consegue mais se corrigir, porque ele se dividiu de uma maneira insolúvel. O Supremo chegou ao precipício que ele procurou ao longo dos últimos anos. Acabou. E isso é uma tragédia.”
“É uma tragédia porque a implosão do Supremo mancha o principal processo que foi julgado pelo Supremo histórico nesses anos, que é o processo da camarilha golpista. Mancha, porque é o mesmo Supremo que implodiu que condenou os golpistas. Essa mancha ainda é leve.”
“E, em segundo lugar, é uma tragédia porque confere verossimilhança ao discurso da extrema direita de que as instituições apodreceram e devem ser destruídas. Confere verossimilhança a esse discurso.”
“Então nós estamos conversando sobre uma tragédia que o Supremo produziu e que atinge o país inteiro.”
Ao fim, uma única fresta de esperança: “Tem uma pontinha de esperança de que dê para construir uma maioria ali que leve adiante, mas quem sabe”, completou o analista, cedendo a palavra ao também comentarista Demétrio Magnoli.
O mesmo Supremo que condenou o golpe
O diagnóstico é devastador justamente porque foi o mesmo tribunal, batizado pelo analista de “Supremo histórico”, que protagonizou, nos últimos anos, o maior esforço de responsabilização já conduzido contra uma trama golpista no Brasil. Foi com base no suposto plano para manter Jair Bolsonaro no poder após a derrota de 2022 que a Primeira Turma da Corte condenou o ex-presidente e parte de seus aliados, em setembro de 2025, em processo relatado por Alexandre de Moraes. O ex-presidente cumpre hoje prisão domiciliar. Seguiam-se, até o início de 2026, 29 réus condenados pela trama golpista, 23 deles presos , e mais de 1.400 envolvidos nos ataques de 8 de janeiro de 2023, segundo dados da própria Corte.
Em junho de 2026, o STF condenou Eduardo Bolsonaro por coação no curso do processo sobre a tentativa de golpe. Cerca de 346 ações relacionadas ao 8 de Janeiro seguiam em julgamento no início deste ano. Foi esse acervo, que transformou a Corte em alvo preferencial da radicalização política, que transformou cada racha interno em munição imediata para os adversários das instituições.
A semana que rachou a Corte
A crise aberta na primeira semana de setembro, em meio à disputa presidencial, escancarou ao vivo um conflito que os ministros vinham administrando em gabinete. Os episódios se sucederam em ritmo de roteiro:
Reações em cadeia
O presidente do STF falou em “inconciliável conflito de posições judiciais” e classificou como “grave” o cenário em que decisões de ministros passam a ser “desafiadas horizontalmente”. O procurador-geral da República, Paulo Gonet, também citado nas mensagens, sustentou que é nula a investigação ordenada por um ministro contra outro e que “ao juiz não cabe acusar”.
No Senado, chegam a 54 os pedidos de impeachment contra Alexandre de Moraes; o presidente do Congresso, Davi Alcolumbre, vinha mantendo a prática de arquivar todos. Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo publicaram editoriais defendendo a renúncia do ministro. Na imprensa internacional, a crise foi descrita como a “pior desde a redemocratização”: a agência Bloomberg noticiou que Fachin tomou, na semana, as medidas “mais agressivas até o momento” para retomar o controle da Corte, que hoje é o único dos três Poderes cujo presidente interfere em tudo, menos nos próprios ministros.
Para a cientista política Grazielle Albuquerque, ouvida pela BBC Brasil, “aos olhos da sociedade, o tribunal parece estar implodindo”. O Datafolha dá a dimensão do estrago: em março de 2026, 43% dos brasileiros não confiavam no STF, recorde, contra 32% em 2012. No julgamento da crise, os ex-ministros aposentados foram implacáveis: “O STF é maior do que todos e cada um de seus ministros e não pode ser convertido em escudo protetor de desvios individuais”, disse Celso de Mello.
Munição para os dois lados, em plena campanha
A bomba de Mendonça explodiu no mesmo dia em que a revista piauí revelava que o candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, o “filho 01” de Jair, teria recebido repasses de Daniel Vorcaro ao filme “Dark Horse” dois meses antes da prisão do banqueiro, desmentindo suas declarações públicas. Para o analista da Globo News, o efeito simbólico é o pior possível: a crise “confere verossimilhança ao discurso da extrema direita de que as instituições apodreceram e devem ser destruídas”. O jurista Lênio Streck, ouvido pela Folha, concorda: os que já atacavam o tribunal pelos processos do 8 de Janeiro “encontram novos argumentos e elevam o tom”.
E o outro lado da disputa não escapou do mesmo palco: os inquéritos que miram Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do Lula, tramitam no STF igualmente sob relatoria de André Mendonça, por suspeitas de tráfico de influência, corrupção e irregularidades ligadas aos descontos do INSS e à comercialização de cannabis medicinal, segundo o Globo. Em março, a movimentação de R$ 19,5 milhões atribuída ao filho de Lula dominou as redes do pré-candidato do PL; em agosto, a PF pediu um terceiro inquérito contra Lulinha, sorteado para o ministro Flávio Dino, e a defesa acionou a Justiça e o STF alegando “uso político-eleitoral” das apurações. Analistas apontam, porém, um efeito colateral da crise atual: ao virar o foco para a briga interna da Corte, o racha no Supremo ajudou a esfriar a pressão sobre o caso Lulinha, a crise de Moraes passou a “colar” mais em Lula do que o escândalo do filho, escreveu o Estadão.
O que vem agora
Nesta sexta-feira (11), o tribunal vive expectativa por desdobramentos: o ministro Moraes tem até 14 de setembro para se manifestar sobre o relatório da PF; Mendonça, até dia 21. No dia 15, o plenário decide se autoriza a investigação de Moraes , e a primeira sessão ordinária disponível para os demais passos da crise cai em 22 de setembro, a poucos dias do primeiro turno das eleições. Fachin terá de decidir, ainda, o destino dos dois inquéritos que viraram o palco do confronto, o das fake news e o do Banco Master, e se os levará ao plenário.
Independentemente do resultado da votação de terça-feira, o recado do vídeo que circula pelas redes é definitivo: para uma parcela influente dos analistas que acompanham a Corte, o Supremo que sai desta crise não volta a ser o mesmo que julgou a tentativa de golpe. A mancha, dizem, “ainda é leve”, mas a página, para usar as palavras do comentarista da Globo News, talvez já tenha sido virada.
VÍDEO:
Nota metodológica: as falas do analista foram extraídas e transcritas do vídeo (publicado originalmente no Instagram da Central das Eleições/Globo News) e podem conter pequenas imprecisões de transcrição automática de áudio, especialmente nos nomes próprios.
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