Carpina aos 98: liberta no hino, governada de fora. Por Flávio Chaves
Por Flávio Chaves, jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/MinC – Carpina acende hoje a nonagésima oitava vela de sua emancipação política, declarada pela Lei Estadual nº 1.931, de 11 de setembro de 1928, quando a antiga Chã do Carpina, já então chamada Floresta dos Leões, rompeu o cordão que a prendia a Paudalho e a Nazaré da Mata e passou a decidir, com as próprias mãos, o que fazer do próprio destino. Essa ruptura não caiu do céu nem coube em um único gesto de caneta. Já em 1923 o deputado Armando Gayoso havia levado à Assembleia a primeira tentativa de fazê-la, cinco anos antes de vencer as resistências que a atrasaram. Foi ele quem, na tribuna, converteu em lei o desejo de uma terra cansada de pedir licença a outros municípios para cuidar de si mesma, e a ele se somam, na memória que a cidade guarda em nome de rua, Odair Santana e Antônio Bezerra de Menezes, e o jornalista Francisco José Chateaubriand Bandeira de Melo, que anos antes já havia dado àquele povoado um nome e um símbolo próprios, o leão, antes mesmo de a política lhe dar um governo próprio. A esses homens Carpina deve não uma data no calendário, mas o direito de ser sujeito da sua própria história. E é exatamente esse direito que hoje, quase um século depois, parece devolvido a quem a cidade um dia teve a coragem de deixar para trás.
Não por decreto, porque nenhuma lei revogou a de 1928, e é preciso dizer isso com todas as letras para que ninguém confunda fato com leitura. Mas por um caminho mais silencioso e, por isso mesmo, mais difícil de combater: o de uma cidade que, aos poucos, deixou de produzir a força política capaz de sustentar sozinha o que conquistou, e viu esse vazio ser ocupado por uma linhagem inteira, construída a três gerações de distância, na prefeitura vizinha. Foi em Paudalho que um avô governou nos anos sessenta, que um filho dele governou nos anos noventa, que um neto governou por quase uma década inteira até presidir o partido que hoje comanda também Carpina, e que outro neto, irmão do prefeito, subiu à Secretaria de Obras daquela cidade antes de se eleger deputado estadual e se casar com a mulher que hoje ocupa a cadeira mais alta do poder carpinense. Essa mulher nasceu em Recife, viveu em Recife, e só transferiu seu domicílio eleitoral para Carpina às vésperas de disputar o cargo que ocupa, em uma cidade cujo hino ela talvez ainda não soubesse cantar de cor. Tão estranha à terra que governa que a própria Câmara Municipal precisou aprovar lei concedendo a ela o título de cidadã carpinense, reconhecimento que só faz sentido para quem, por nascimento, não o é. E o marido dela mesmo já disse, em praça pública, que o projeto de seu grupo era vencer tanto em Paudalho quanto em Carpina, como quem anuncia, sem constrangimento, a extensão de um território.
O hino de Carpina, escrito para ser cantado com o peito estufado, soa agora como uma pergunta que ninguém quer fazer em voz alta. Longo tempo vivi dominada, e afinal os grilhões rebentei, diz um de seus versos mais antigos, e logo depois, ainda mais direto: ontem escrava embora, hoje liberta sou. Toda criança que desfila, todo ano, pela avenida Joaquim Nabuco vai cantar essas palavras sem saber que talvez esteja, sem querer, fazendo uma pergunta em vez de uma afirmação. Livre de quem, se quem hoje decide seu orçamento, suas secretarias, seus cargos, aprendeu a fazer política em outra cidade, com outro sotaque de poder, e enxerga Carpina menos como pátria do que como território conquistado? A ironia não é minha invenção. Está na letra que a própria cidade escolheu para se apresentar ao mundo, e uma ironia que a história escreve sozinha vale mais do que qualquer adjetivo que eu pudesse acrescentar a ela.
Vale perguntar, sem melodrama e sem certeza de resposta, o que sentiriam hoje Armando Gayoso, Odair Santana, Antônio Bezerra de Menezes, se soubessem que a cadeira que levaram cinco anos e uma lei inteira para conquistar está hoje ocupada por quem chegou de fora, votando no marido para deputado estadual esteja onde estiver dentro do estado, porque o sistema eleitoral não exige raiz nenhuma para esse voto valer. Talvez sentissem que a luta deles não foi traída por uma lei revogada, mas por um silêncio consentido, o silêncio de uma cidade que parou de formar, dentro de si mesma, gente disposta a brigar pelo próprio governo com a mesma obstinação com que seus avós brigaram pela própria existência.
Porque Carpina não é só lei, prefeitura e brasão. É a Rua da Igreja ao entardecer, é a marmita de alumínio descendo apressada da Estação, é o domingo do Clube dos Lenhadores, Espanadores e Colonial, é a arquibancada do Estádio Oswaldo Freire gritando por um gol, é o frevo entalado na garganta dos foliões nas noites de carnaval, é a missa cantada na Matriz de São José, é a feira do centro, é o banco da praça Joaquim Nabuco onde três gerações se sentaram para namorar antes de casar. É Dona Tila, é Seu Pirulito, é mestre Solon com seu mamulengo, é seu Marcolino com seu fandango, é doutor Gentil, gente que nunca teve mandato nenhum e mesmo assim governou o cotidiano desta terra com mais ternura do que qualquer gabinete. Essa Carpina profunda segue viva, mas hoje ela observa de longe um poder que não sabe seu nome nem carrega, na fala, o barro de que ela foi feita.
Ainda há tempo, e é esse o ponto em que a memória deixa de ser saudade e vira tarefa. Que este 11 de setembro não seja apenas fanfarra e vela soprada, mas o momento em que os filhos desta terra se lembrem de que liberdade não é herança automática, é coisa que se cuida todos os dias, com o mesmo brio e a mesma altivez que levaram um punhado de carpinenses a desafiar duas prefeituras vizinhas para dar a Carpina o direito de decidir por si mesma. Que a Floresta dos Leões, ainda que hoje pareça silenciada, continue viva em quem entende Carpina não como território a administrar, mas como sangue, chão e memória. Porque nenhum hino, nenhuma data e nenhum governo resistem, para sempre, ao dia em que um povo decide, mais uma vez, não ser conduzido por quem nunca aprendeu a amá-lo.
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