Dólar estável: a régua do pregão ou a régua da vida? Por Flávio Cha

Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/MinC     –     A frase cabe numa manchete. A vida de quem recebe salário não cabe em lugar nenhum tão pequeno.

No vocabulário financeiro, dizer que o dólar está estável significa apenas que ele variou pouco em relação ao pregão anterior, uma informação técnica, objetiva, envolta numa aparência de neutralidade que a linguagem econômica cultiva como se fosse uma virtude. Mas nenhuma palavra que atravessa a porta das casas chega inteiramente neutra até a mesa da cozinha. Estabilidade, para quem vive contando moedas e adiando necessidades, não é uma cotação que oscilou alguns centavos. É conseguir respirar sem o medo do fim do mês instalado no peito desde o início dele. É abrir a geladeira sem descobrir, antes da hora, que a comida vai faltar. É comprar um remédio sem precisar sacrificar em troca alguma outra urgência da casa. É viver sem a sensação permanente de que o dinheiro se esvai mais depressa do que o suor gasto para ganhá-lo.

A questão, por isso, não está apenas no valor do dólar. Está na distância entre a palavra que o mercado usa e a realidade que carrega quem nunca foi convidado para dentro desse mercado.

Existe uma diferença profunda entre a régua do pregão e a régua da vida. A primeira mede centavos, volatilidade, expectativa, fluxo de capitais, e pode registrar estabilidade em poucas horas. A segunda mede comida, aluguel, transporte, saúde, dignidade, medo e esperança, e revela quase sempre uma instabilidade que vem sendo construída, silenciosa e lenta, ao longo de anos. É possível que o dólar esteja estável às onze da manhã e que uma família inteira já esteja em desequilíbrio desde o primeiro dia do mês. É possível que os mercados atravessem uma manhã tranquila enquanto, na mesma hora, alguém retira produtos do carrinho porque o dinheiro não vai chegar ao fim da lista. É possível que a inflação desacelere no papel e que o peso da vida continue exatamente onde estava, sobre os ombros de quem menos tem como sustentá-lo.

Nada disso é impressão. É a textura concreta do cotidiano de milhões de pessoas.

Existe uma espécie de violência silenciosa quando a linguagem da economia se distancia demais daquilo que se propõe a explicar. Não porque os números sejam falsos, mas porque números sem rosto humano produzem uma verdade incompleta, e uma verdade incompleta, repetida muitas vezes até virar hábito de manchete, acaba criando uma aparência de normalidade exatamente ali onde existe sofrimento. O problema não é dizer que o dólar está estável. O problema é calar o essencial: estável para quem, e em relação a quê.

Para o mercado, a estabilidade pode nascer e morrer entre o fechamento de ontem e a abertura de hoje. Para uma mãe que compra alimentos, estabilidade seria poder levar para casa, com o mesmo salário, aquilo que levava meses atrás. Para um aposentado, seria não sentir o remédio avançando devagar sobre a renda inteira. Para um trabalhador, seria não ver o pagamento desaparecer em poucos dias, como água que escorre por entre os dedos fechados. Essa régua da vida, feita de mães, aposentados e trabalhadores, nunca aparece no painel eletrônico, porque não foi feita para ser cotada, e sim para ser vivida.

A dor econômica raramente chega com o nome que recebe nos relatórios. Ela entra em casa disfarçada de pequenas renúncias, uma marca mais cara que se corta, um produto que se troca por outro mais simples, uma quantidade que diminui no prato sem que ninguém precise dizer em voz alta o motivo, uma consulta que se adia, uma conta que se empurra para o mês seguinte, um empréstimo pequeno que se pede por vergonha, o mínimo do cartão que se paga só para não afundar mais fundo, até que a pessoa se acostume, aos poucos, a viver sem aquilo que antes lhe parecia simplesmente básico. É assim, nesse gotejar quase invisível, que a perda de poder de compra se transforma em perda de liberdade. A pobreza não começa apenas quando falta comida. Muitas vezes começa antes, no instante exato em que desaparece a capacidade de escolher, e a pessoa passa a decidir não mais o que comprar, mas apenas o que excluir.

Quando alguém trabalha o mês inteiro e precisa escolher entre alimentação e medicamento, não há estabilidade. Quando uma família não consegue planejar a semana seguinte porque um gasto imprevisto pode derrubar todo o orçamento, não há estabilidade. Quando um jovem trabalha sem conseguir imaginar como pagará algum dia uma moradia própria, não há estabilidade. Quando um idoso olha primeiro para o preço do remédio e só depois para a receita médica, não há estabilidade. Quando uma mãe reduz a própria alimentação para preservar a dos filhos, não há estabilidade alguma, por mais tranquila que esteja a cotação do dia. Nenhum pregão sereno tem poder de apagar isso.

É por isso que a economia não deveria ser tratada apenas como ciência de mercados. Economia é, antes de qualquer fórmula, a administração da sobrevivência humana em sociedade. Ela começa onde alguém planta, produz, trabalha, vende, compra, paga, cuida, cria filhos, envelhece e tenta, com o pouco que tem, construir algum futuro. O mercado é parte da economia. As pessoas não são parte do mercado. Essa diferença precisa ser lembrada sempre que a palavra estabilidade for pronunciada como se fosse suficiente.

Quando o risco de um país aumenta aos olhos de quem movimenta capital, esse risco não fica preso ali, entre planilhas e telas. Ele desce até o cidadão comum na forma de crédito mais caro, financiamento inacessível, empresa que deixa de contratar, preço que sobe na prateleira, imposto que aumenta, serviço público que piora. O mercado calcula o risco. A população vive a consequência. E talvez esteja aí uma das desigualdades mais profundas da economia moderna: quem possui patrimônio pode diversificar diante da tempestade, pode se proteger, pode esperar. Quem vive apenas de salário só pode apertar o cinto e suportar. A diferença entre uns e outros não está apenas na quantidade de dinheiro que possuem, mas na quantidade de escolhas que a vida ainda lhes permite fazer.

Por isso, quando se fala em estabilidade, é preciso ter a coragem de perguntar qual estabilidade interessa de fato a uma sociedade. Aquela que tranquiliza os mercados por algumas horas, ou aquela que permite ao cidadão comum atravessar a vida sem o medo permanente de perder o pouco que conquistou. O câmbio, a inflação, os juros, o investimento, nenhum desses números vale nada sozinho, e nenhum deveria ser apresentado como um fim em si mesmo. Eles só merecem ser ditos porque aliviam ou agravam a vida concreta das pessoas. Uma política que reduz a inflação importa porque protege o poder de compra de quem ganha pouco. Uma moeda que se fortalece importa porque pode aliviar a pressão sobre os preços da feira e do armazém. Juros que caem importam porque famílias inteiras podem, finalmente, respirar melhor à noite.

Talvez a linguagem econômica precise recuperar uma palavra que anda esquecida nos relatórios: consequência. Toda decisão econômica carrega uma consequência. Toda alta de juros, toda desvalorização cambial, toda política fiscal, toda crise de confiança, tudo isso produz efeitos que raramente se distribuem de forma igual. Há quem perca rentabilidade. Há quem perca patrimônio. E há quem perca comida. Essas perdas não são equivalentes, e uma sociedade que se pretenda moralmente consciente precisa aprender, com urgência, a distingui-las. Não se pode tratar com a mesma frieza uma oscilação de mercado e a insegurança alimentar de uma família. Não se pode transformar o sofrimento humano em nota de rodapé de relatório. Não se pode falar em estabilidade econômica fingindo não ver quem vive, dia após dia, em estado permanente de incerteza.

Talvez a grande questão não seja saber se cinco reais e catorze centavos representam um valor alto ou baixo para o dólar. Talvez a questão verdadeira seja saber que tipo de país aceita chamar de estabilidade uma situação em que a moeda quase não se move por algumas horas, enquanto a vida de milhões de pessoas continua sem chão. O problema da manchete não está exatamente no dado. Está na escala humana que desaparece dentro dele, engolida pela frieza dos números.

Quando se diz que o dólar está estável, seria preciso lembrar que a estabilidade verdadeira não se mede apenas pela ausência de movimento de uma moeda. Mede-se pela possibilidade de uma família conservar aquilo que possui. Mede-se pela capacidade de uma pessoa trabalhar sem empobrecer. Mede-se pela segurança de quem envelhece e pelo futuro que um jovem ainda consegue imaginar para si. Mede-se, sobretudo, pela comida que permanece na mesa e pela dignidade que não precisa ser negociada a cada mês que passa.

A régua do pregão pode dizer que está tudo tranquilo. A régua da vida, essa que ninguém cota em painel nenhum, pode estar dizendo, ao mesmo tempo e na mesma cidade, exatamente o contrário.

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