Despreparo e violência política: a rudeza primitiva do vereador Maurílio Cavalcante ao ofender Raquel Lyra, em Angelim.
GAZETA PERNAMBUCANA – A pedra bruta não conhece o cinzel. Ela existe como fragmento da natureza, sem forma, sem função, sem consciência do lugar que poderia ocupar em uma construção maior. O episódio protagonizado pelo vereador Maurílio Cavalcante, na Câmara Municipal de Angelim, expõe com clareza o que acontece quando uma dessas pedras é lançada no meio do edifício político sem ter passado pelo mínimo trabalho de lapidação. Ao chamar a governadora Raquel Lyra de louca, ao profetizar sua saída do cargo com um tom de ameaça velada, o parlamentar não apenas desferiu um golpe contra uma mulher no exercício do poder. Ele revelou, antes de tudo, a própria rudeza de sua formação política e a absoluta incompatibilidade entre seu comportamento e a função que o povo de Angelim lhe confiou.
O mandato popular é, por definição, um instrumento de representação. Quem o recebe assume o compromisso de traduzir interesses coletivos em ações e discursos que elevem o debate público. No entanto, o que se viu nas falas do vereador foi o exato oposto: a redução do confronto político a um ataque pessoal, a substituição do argumento pela injúria e a transformação da tribuna legislativa em palco de intimidação. Essa conduta não é um deslize isolado, mas um sintoma de um fenômeno mais profundo que assola a política brasileira, especialmente em municípios menores, onde a proximidade entre eleitor e candidato muitas vezes dispensa a avaliação de competência ou preparo. Acredita-se que o carisma, a origem comunitária ou a força de vontade bastam para ocupar uma cadeira que exige, na verdade, conhecimento, equilíbrio emocional e respeito à divergência.
A análise sociológica desse caso impõe a imagem da pedra bruta como metáfora do político não polido. A pedra bruta é dura, resistente, mas suas arestas cortam quem a toca. Ela não se ajusta a nenhum projeto arquitetônico porque desconhece as linhas e os ângulos que dão sustentação ao todo. Da mesma forma, o vereador que recorre ao xingamento e à insinuação de violência demonstra ignorar as regras não escritas da civilidade democrática. Ele age por impulso, movido por paixões imediatas, sem a mediação do pensamento crítico que qualquer representante deve cultivar. A fala agressiva não é apenas um erro tático; é a confissão de que não houve preparação intelectual nem ética para o exercício do mandato. O povo que votou nele depositou sua confiança em um símbolo, mas recebeu em troca um emissário do atraso político, alguém que confunde o embate de ideias com a guerra de baixarias.
Não se trata de exigir que todos os políticos nasçam eruditos ou que se submetam a provas formais de capacidade. A democracia, em sua essência, permite que qualquer cidadão concorra a um cargo público. Mas a liberdade de concorrer não elimina a responsabilidade de se preparar, de estudar, de ouvir e de refletir antes de falar em nome de uma coletividade. O vereador Maurílio Cavalcante, ao proferir aquelas palavras, mostrou que sua trajetória política não incluiu o necessário processo de amaciamento das arestas. Ele permaneceu como saiu da jazida: áspero, desproporcional, incapaz de reconhecer a alteridade que o cargo exige. A governadora Raquel Lyra é, para ele, um alvo, não uma interlocutora. Sua condição feminina agrava a violência simbólica, pois o termo louca carrega séculos de desqualificação das mulheres que ousam ocupar espaços de poder. Mas mesmo que o ataque fosse contra um homem, a grosseria permaneceria como prova cabal de que a pedra nunca foi tocada pelo cinzel da formação política.
As manifestações de solidariedade à governadora, oriundas de diversas lideranças, entre elas a prefeita de Sertânia, cumprem o papel de demarcar o repúdio ao comportamento inaceitável. Contudo, essas vozes não podem se limitar a condenar o fato isolado. É necessário que a sociedade e o sistema político enxerguem o episódio como um alerta sobre o critério de seleção de nossos representantes. O voto, no Brasil, ainda é guiado por afinidades pessoais, por promessas vagas e por reconhecimento de nomes, em detrimento de um exame mínimo das qualificações do candidato. O resultado é a proliferação de pedras brutas nas assembleias e câmaras municipais, indivíduos que ocupam lugares de decisão sem ter a menor noção do peso de suas palavras e atos. Eles agem como se o mandato fosse uma extensão de sua personalidade privada, quando na verdade é uma função pública que exige contenção, ponderação e senso de responsabilidade histórica.
O despreparo do vereador de Angelim não é, portanto, uma anomalia. É a consequência previsível de um sistema que premia a exposição e a agressividade em vez do conhecimento e da serenidade. A política, reduzida a espetáculo, atrai figuras que brilham pelo estardalhaço, mas que se apagam diante da necessidade de construir consensos ou de formular políticas públicas consistentes. Maurílio Cavalcante talvez sequer tenha percebido a gravidade do que disse, pois sua formação interior não o capacitou a distinguir a crítica da ofensa, a divergência da hostilidade. Ele é uma pedra bruta em meio a um parlamento que deveria ser o lugar do diálogo refinado, da negociação paciente e da defesa do bem comum. A seu modo, ele presta um serviço involuntário: revela a todos o abismo entre o ideal republicano e a prática cotidiana da política local.
Ao final, o que fica é a certeza de que o polimento das pedras políticas é tarefa urgente e coletiva. Não basta repudiar o ato; é preciso repudiar a lógica que o torna possível. A escola, a imprensa, os partidos e a própria Justiça Eleitoral têm papéis a desempenhar nesse processo de lapidação, exigindo transparência, fiscalizando condutas e estimulando a qualificação dos candidatos. Enquanto isso não ocorrer, casos como o de Angelim se repetirão, e a democracia seguirá convivendo com representantes que desonram o mandato que receberam. A pedra bruta, quando lançada ao edifício político, não o reforça; ela o racha, o enfraquece e o desfigura. O povo de Angelim, ao votar em Maurílio Cavalcante, não imaginou que sua escolha produziria tamanho estrago. Mas a realidade agora se impõe: a confiança depositada foi traída por alguém que jamais aprendeu a ser político, porque nunca compreendeu que a política é, antes de tudo, a arte de lidar com o outro com respeito e inteligência.
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