A cicatriz que ainda pulsa. Por Flávio Chaves
Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/MinC – Um cansaço que não nasce do corpo tem um jeito de anunciar-se sem hora marcada: não vem das pernas que atravessaram o dia, dos olhos que enfrentaram telas, estradas, notícias e despedidas, mas de um lugar mais fundo, quase clandestino, onde a esperança insiste em trabalhar quando todo o resto já pediu demissão, e talvez seja exatamente ali que more a dor de sonhar o mesmo sonho todos os dias, porque sonhar uma vez pode ser encantamento, sonhar duas vezes pode ser pressentimento, mas carregar durante anos a mesma imagem dentro do peito, acordar com ela sentada à beira da cama como uma visita que nunca vai embora, é aprender que até a esperança, quando não encontra porta aberta, começa a pesar como uma mala cheia de pedras.
O mesmo sonho pode ser uma pessoa, uma casa, uma cidade, um abraço que ainda não aconteceu, uma vida que parecia tão possível quando foi imaginada e que, com o passar dos anos, foi se afastando como aquelas luzes que vemos do outro lado do rio e que parecem próximas enquanto estamos parados, mas se tornam impossivelmente distantes quando finalmente tentamos alcançá-las, e o mais cruel não é exatamente a distância, mas o fato de continuarmos reconhecendo cada detalhe daquilo que desejamos, como quem guarda na memória a planta de uma casa onde jamais conseguiu morar.
Dói porque o sonho envelhece conosco, e enquanto nós mudamos de endereço, de certezas, de amigos, de roupas, de opinião e até de maneira de olhar para o mundo, ele permanece com o mesmo rosto, esperando no mesmo lugar, preservado por alguma teimosia da alma que se recusa a aceitar que certas coisas também conhecem o tempo da partida, e então começamos a viver uma espécie de fidelidade silenciosa a algo que talvez nunca tenha prometido ficar, mas que nós, por necessidade ou amor, transformamos em destino.
Nas manhãs em que esse sonho parece perto, tão perto que quase podemos tocar sua superfície, ele costuma se sentar na mesma cadeira da varanda, naquele canto onde a luz chega primeiro, e caminhamos então com uma alegria secreta, acreditando que talvez o universo finalmente tenha encontrado nosso endereço, que alguma engrenagem invisível tenha girado durante a madrugada e colocado as coisas no lugar; mas existem também as manhãs em que ele se apresenta como ausência, a cadeira vazia, o café esfriando sozinho na mesa, e é justamente aí que percebemos o tamanho do espaço que reservamos dentro de nós para aquilo que ainda não chegou.
Talvez seja essa a parte mais dolorosa, porque enquanto esperamos o sonho acontecer, a vida continua acontecendo ao redor: as pessoas passam, as estações trocam de roupa, os aniversários acumulam números, algumas amizades desaparecem pelas frestas do cotidiano, novas rugas chegam sem pedir licença, a casa muda de arrumação sem que ninguém perceba exatamente quando, e nós permanecemos negociando com o futuro como quem escreve cartas para um endereço que nunca respondeu, alimentando a esperança de que alguma delas tenha sido lida.
Mas existe também uma grandeza nessa insistência, porque somente quem ainda sonha é capaz de sentir esse tipo de dor, somente quem guarda dentro de si uma imagem de futuro consegue perceber a distância entre aquilo que vive e aquilo que deseja viver, e talvez por isso os sonhos sejam tão parecidos com estrelas, não porque sejam inalcançáveis, como repetem os pessimistas, mas porque mesmo quando estão longe continuam iluminando o caminho de quem decidiu caminhar em sua direção.
O perigo está em transformar o sonho numa prisão, em acreditar que a vida somente começará quando aquilo acontecer, quando aquela pessoa chegar, quando aquela porta abrir, quando aquele reconhecimento vier, quando aquele amor finalmente compreender, porque a espera pode ser uma casa confortável demais, e há quem passe décadas olhando pela janela aguardando uma paisagem que talvez estivesse atrás da própria cadeira.
Sonhar o mesmo sonho todos os dias dói porque, no fundo, cada manhã nos obriga a admitir que ainda não chegamos lá, mas talvez amadurecer seja compreender que a vida não é apenas o lugar onde os sonhos se realizam, é também o caminho onde aprendemos quem somos enquanto eles não acontecem.
E talvez um dia, quando menos esperarmos, descubramos que o sonho que perseguimos durante tanto tempo não era exatamente um destino, mas uma espécie de farol, colocado na distância apenas para impedir que navegássemos sem direção, porque algumas coisas que desejamos existem para serem alcançadas, enquanto outras existem simplesmente para nos fazer continuar.
No fim, talvez a maior coragem não seja abandonar o sonho nem insistir cegamente nele, mas aprender a carregá-lo sem deixar que seu peso destrua a beleza dos dias que ainda temos, porque há sonhos que chegam, há sonhos que mudam, há sonhos que desaparecem, e existem aqueles que permanecem conosco para sempre, não como feridas abertas nem como memórias adormecidas, mas como cicatrizes que ainda pulsam de leve quando tocadas, lembrando-nos, sem nos ferir de novo, de tudo aquilo que um dia fomos capazes de desejar.
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