Dima Diab: a escritora que a guerra matou, mas não conseguiu calar. Por Flávio Chaves
Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/MinC – Quando uma bomba mata uma escritora, o mundo inteiro perde uma biblioteca
Um ano cabe inteiro numa folha de calendário, mas certas mortes recusam a disciplina dos dias e permanecem conosco como uma janela que o tempo não consegue fechar. Neste 12 de agosto, o nome de Dima Diab volta à minha memória com a mesma inquietação de quando soube de sua morte, embora agora a dor tenha adquirido outra espessura. Já não é apenas o choque da notícia que chega coberta pela poeira dos escombros, mas uma tristeza amadurecida pela consciência de que, durante todos esses meses, o mundo continuou girando enquanto aquela mulher, aquela escritora e tudo o que ainda poderia ter escrito ficaram interrompidos numa tarde que nunca terminou para os que se lembram dela.
Dima Diab morreu com sua família no sul de Gaza, depois de atravessar a experiência brutal do deslocamento, essa forma contemporânea de exílio em que uma pessoa é obrigada a abandonar a própria casa sem saber se um dia tornará a vê-la. Fugir de uma guerra não significa apenas mudar de endereço. Significa arrancar a vida de suas raízes, fechar uma porta sem saber se ela ainda estará de pé no retorno, escolher às pressas aquilo que as mãos podem carregar enquanto uma existência inteira permanece para trás. Numa mala cabem roupas, documentos, talvez algumas fotografias. Não cabem o cheiro da casa, a luz que atravessava determinada janela ao fim da tarde, o lugar de cada livro na estante, as vozes que ficaram impregnadas nos cômodos, a intimidade silenciosa dos objetos que durante anos aprenderam a reconhecer seus moradores.
Pouco antes de morrer, Dima havia mostrado em vídeo a casa que deixara para trás. Sempre que penso nessas imagens, encontro nelas algo muito maior do que um simples registro doméstico. Vejo uma mulher tentando salvar pela memória aquilo que a realidade começava a lhe roubar. A câmera percorria os espaços como se acariciasse paredes, portas e janelas, transformando cada detalhe numa espécie de inventário afetivo contra o desaparecimento. Talvez Dima não soubesse, naquele momento, que estava construindo com imagens a última ponte entre si mesma e o lugar a que desejava voltar. Talvez acreditasse, como tantos deslocados precisam acreditar para continuar andando, que tudo aquilo era provisório e que um dia colocaria novamente a chave na fechadura, abriria a porta e reencontraria a vida esperando por ela.
A guerra, porém, possui uma gramática cruel e quase sempre escreve seus verbos no passado. A casa deixa de ser casa e passa a ser ruína. A rua deixa de conduzir a algum lugar e termina numa cratera. O quarto de uma criança passa a existir somente na lembrança de quem conhecia a posição da cama. Aquilo que para os mapas militares pode ser reduzido a coordenadas, para quem viveu ali é uma geografia sentimental construída ao longo de anos. Nenhuma fotografia aérea é capaz de registrar o peso de uma mesa onde uma família se reunia, nem existe satélite que consiga localizar o ponto exato em que uma mãe beijava o filho antes de dormir.
Talvez por isso a morte de uma escritora carregue uma violência ainda mais profunda. Todo escritor é uma casa povoada. Dentro dele convivem lembranças, personagens, paisagens, vozes, medos e histórias ainda sem forma, esperando o momento de encontrar linguagem. Quando um escritor morre antes do tempo, não desaparece somente aquilo que ele escreveu. Perde-se também aquilo que estava a caminho da escrita, a biblioteca invisível que ainda não havia chegado às estantes do mundo. Em Dima, penso sobretudo nessa literatura que não conheceremos, nessas páginas que permaneceram suspensas antes mesmo de receberem a primeira palavra.
Quantos relatos teriam nascido de sua experiência em Gaza? Quantas personagens poderiam ter surgido das mulheres que encontrou durante a fuga, das crianças que atravessaram estradas sem compreender por que precisavam abandonar suas casas, dos idosos que carregavam na memória uma Palestina anterior a tantas perdas? Talvez Dima transformasse um dia aquele vídeo de sua casa num conto, numa crônica ou numa narrativa sobre o desejo de retorno. Talvez descrevesse a luz entrando pela janela e dissesse que nenhuma guerra fora capaz de alterar a direção do sol. Tudo isso pertence agora ao território das possibilidades interrompidas, e poucas coisas são tão dolorosas quanto aquilo que poderia ter existido e não existirá.
A morte retira o corpo do mundo, mas o esquecimento tenta realizar um trabalho ainda mais completo, apagando também os rastros da passagem de alguém pela vida. É justamente nesse ponto que a literatura se levanta como uma forma de resistência. Não possui tanques, exércitos ou fronteiras, mas conserva nomes. Quando escreve sobre quem partiu, ela impede que a ausência seja transformada em vazio absoluto. A palavra não devolve a vida, não recompõe os corpos nem reconstrói fisicamente as casas destruídas, mas realiza um gesto que talvez seja uma das mais antigas formas humanas de enfrentar a morte: lembrar.
Um ano depois, compreendo melhor por que a história de Dima continua me perseguindo. Vivemos cercados por números que cresceram de tal maneira que corremos o risco de perder a capacidade de enxergar aquilo que existe dentro deles. Mortos, feridos, deslocados, órfãos e casas destruídas aparecem diariamente em estatísticas cuja dimensão deveria nos despertar, mas que muitas vezes termina produzindo o efeito contrário. Quando o sofrimento se torna grande demais, o número começa a funcionar como uma cortina. Por trás dele, desaparecem os rostos.
Dima tinha um rosto, uma casa, uma história e uma voz. Antes de ser vítima de uma guerra, foi mulher, escritora, alguém que amou, que leu, que observou o mundo e procurou transformá-lo em palavras. Reduzi-la ao instante de sua morte seria permitir que a própria violência definisse sua biografia. Prefiro lembrá-la diante daquela casa filmada, reconhecendo cada espaço, guardando dentro de si os detalhes que uma bomba jamais conseguiria compreender. Nesse gesto existe algo que pertence profundamente à literatura, porque escrever também é recolher do mundo aquilo que parece pequeno e torná-lo indestrutível pela memória.
Toda casa possui uma arquitetura visível e outra secreta. A primeira é feita de cimento, madeira, portas e telhados. A segunda se constrói com lembranças, vozes, afetos, ausências e histórias. A primeira pode ser demolida em segundos. A outra, quando encontra quem a conte, atravessa gerações. Talvez seja essa a casa que Dima habita agora, não como uma imagem consoladora, mas como a consequência natural de toda vida que deixou palavras suficientes para não desaparecer completamente.
Por isso escrevo seu nome novamente neste 12 de agosto. Não como quem grava uma inscrição sobre uma pedra funerária, mas como quem abre uma janela numa casa que ainda precisa de luz. Dima Diab. O nome retorna à página e, ao retornar, recupera por alguns instantes tudo aquilo que a estatística não consegue dizer. A mulher, a escritora, a família, a casa, o medo, o desejo de voltar, os livros escritos e aqueles que permaneceram para sempre dentro dela.
Existe uma dimensão da guerra que acontece depois das explosões, quando começa a disputa entre aquilo que será lembrado e aquilo que poderá ser esquecido. É nesse território que a palavra encontra sua responsabilidade. Quem escreve recolhe os fragmentos que a violência espalhou, devolve rosto aos números e restitui aos mortos a condição de seres humanos que tiveram sonhos, casas e futuros. Talvez nenhuma literatura seja capaz de impedir uma bomba de cair, mas pode impedir que, depois dela, caia também o silêncio.
Um ano passou desde a morte de Dima Diab, mas seu nome continua atravessando o calendário como uma pequena chama protegida pelas mãos da memória. A casa para a qual ela desejava voltar talvez já não exista como existia em seus olhos, porém outra foi sendo erguida desde então, lentamente, por todos os que ainda contam sua história. Não possui endereço em Gaza nem pode ser localizada por qualquer mapa. Suas paredes são feitas daquilo que lembramos, seu teto é sustentado pelas palavras que se recusaram a morrer, e suas janelas permanecem abertas para que o mundo não possa dizer, amanhã, que não viu.
É nessa casa que Dima permanece.
E nenhuma guerra dispõe de explosivos suficientes para demolir completamente aquilo que a memória aprendeu a construir.
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