O TEMPO PASSOU E VOCÊ CONTINUA EM MIM. Por Flávio Chaves

Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc  –  Há uma estranheza silenciosa que acomete o ser humano quando ele se descobre amando algo que o tempo já declarou ausente, como se o coração tivesse recusado a assinar o documento da perda e continuasse guardando, com a teimosia dos antigos, uma presença que os calendários insistem em negar. Não se trata de loucura, nem de fraqueza, nem daquela nostalgia piegas que os mais práticos costumam desprezar com um sorriso de superioridade. Trata-se, antes, de algo muito mais sério e muito mais vivo, que é a capacidade que certas pessoas têm de habitar em nós não como memória, mas como arquitetura, como a viga que sustenta o teto da casa que somos, invisível aos olhos mas insubstituível à estrutura.

O tempo passou. Isso é inegável como o sol e igualmente indiferente. Ele passou com a naturalidade brutal de quem não pede licença, levando consigo rostos, vozes, cheiros de tarde, conversas que nunca chegaram ao fim porque a vida interrompeu no meio de uma frase e deixou o ponto final suspenso para sempre no ar. Mas há pessoas que o tempo carrega sem de fato remover, como se tivessem finqado raízes tão fundas no interior de quem as amou que nem a grande máquina impessoal dos dias seria capaz de arrancá-las. Essas pessoas são raras, e quem as encontra sabe disso, mesmo que demore anos para admitir.

Existe uma filosofia antiga, cultivada muito antes de os gregos a sistematizarem em tratados, que reconhece no amor uma forma de conhecimento, talvez a mais honesta de todas. Conhecer alguém de verdade é deixá-lo entrar na camada mais profunda de si, naquele lugar que fica abaixo das opiniões e das vaidades, abaixo do nome que carregamos e dos papéis que representamos, naquele fundo escuro e quente onde residem apenas as coisas que realmente importam. Quando isso acontece, quando alguém atravessa todas essas camadas e chega até lá, ele não vai mais embora. Pode partir, pode ser levado, pode simplesmente desaparecer num desses desaparecimentos que a vida impõe sem piedade, e ainda assim continuará habitando esse lugar que não tem endereço mas tem uma presença mais real do que qualquer coisa tangível.

A cidade às vezes colabora com essa permanência, porque a cidade guarda os nossos rastros com uma fidelidade que nós mesmos não temos. Aquela esquina ainda existe. Aquele bar onde a conversa durou mais do que deveria ainda serve o mesmo café. A praça ainda recebe a mesma luz de fim de tarde que dourava o rosto que eu procuro agora sem perceber, como quem procura um óculos que está em cima da cabeça. E há algo profundamente político nisso, porque a memória afetiva também é uma forma de resistência, é a recusa de ser apenas o presente, a negativa de apagar o que foi vivido para dar lugar a uma leveza que não é leveza mas vazio disfarçado de praticidade.

Numa época que valoriza o esquecimento como higiene mental, que aconselha seguir em frente como se o passado fosse sujeira e o futuro fosse sempre mais limpo, guardar alguém dentro de si é um ato quase subversivo. Significa dizer que nem tudo que passou perdeu valor, que o tempo não é um tribunal que condena o sentimento à inutilidade só porque ele não pode mais ser exercido. Significa admitir que somos feitos também daquilo que amamos, e que cada pessoa verdadeiramente amada nos deixa uma camada nova de humanidade, uma capacidade ampliada de enxergar o mundo com olhos que antes não tínhamos.

Você continua em mim não como fantasma, não como peso, não como aquela melancolia que paralisa e não serve a nada. Você continua em mim como continua a luz de uma estrela que talvez já tenha se apagado, mas ainda atravessa o espaço imenso do tempo e chega até os meus olhos com a fidelidade de quem não sabe ser outra coisa senão luz. E enquanto essa luz chegar, eu não chamarei isso de perda, não chamarei isso de ilusão, chamarei pelo nome mais honesto que conheço, que é o nome mais simples e o mais difícil de pronunciar sem que a voz trema um pouco no meio do caminho.

O tempo passou, sim. Mas você ficou, e há uma diferença enorme entre o que o tempo carrega e o que o amor decide guardar. Porque existe uma crueldade doce e inexplicável nessa condição humana de lembrar com tanta precisão o rosto de quem partiu e esquecer, nos momentos mais distraídos, o próprio nome que carregamos, como se o coração tivesse feito uma escolha silenciosa de prioridades e decidido, sem consultar a razão, que havia coisas mais importantes do que nós mesmos para preservar. E o pior, ou o mais bonito, a depender de como a vida nos ensinou a olhar para essas coisas, é que nem pedimos para ser assim. Simplesmente somos. E há noites em que a única coisa que o peito consegue formular com clareza não é um desejo grande, não é uma súplica dramática, é apenas isso, pequeno e imenso ao mesmo tempo: que ela esteja bem, que a vida a trate com a delicadeza que ela merece, que de algum lugar do mundo onde agora ela vive sem mim, chegue pelo menos uma notícia, um sinal, qualquer coisa que me diga que ela ainda existe e que o mundo, portanto, ainda faz algum sentido.

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