Quando Chove no Recife, o Povo Chora. Por Flávio Chaves
Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc – Existe uma velha cumplicidade entre o céu e o sofrimento do povo recifense, uma aliança tácita, não escolhida, forjada não pela natureza, mas pela negligência daqueles que deveriam protegê-lo. Porque a chuva, em si, não é inimiga. A chuva é vida, é alívio, é o cheiro de terra molhada que qualquer nordestino carrega no fundo da memória como uma herança sagrada. O problema não está nas nuvens, está naquilo que ficou por fazer enquanto as nuvens se formavam.
Quando a chuva cai sobre o Recife, e ela cai com a fúria e a generosidade que só o Nordeste conhece, ela não encontra ruas preparadas, canais limpos ou bueiros dignos do nome. Ela encontra, em vez disso, décadas de promessas não cumpridas represadas nos esgotos entupidos, e então vira tudo caos, lama, grito e silêncio, o silêncio pesado de quem já aprendeu, com dor, que esperar por socorro é quase o mesmo que não esperar por nada. As famílias sobem os móveis, as mães erguem as crianças no colo, os velhos ficam parados na porta olhando a rua virar rio com aquela resignação que parte o coração de quem vê, mas que ninguém que deveria agir parece sequer notar.
A água que alaga o Recife não é apenas água. É a materialização visível de anos de descaso, de orçamentos desviados, de obras prometidas em palanque e esquecidas antes que o microfone esfriasse. É o testemunho mudo das drenagens que nunca vieram, das encostas que nunca foram contidas, das comunidades que cresceram empurradas para cima dos morros, para longe das vistas, para perto do perigo, porque a cidade dos outros ficou cara demais e ninguém fez nada para mudar isso. Cada centímetro que a enchente sobe é uma linha a mais num documento de omissão que já tem páginas demais e assinaturas de menos.
E o mais cruel é que isso se repete. Todo ano. Com a exata pontualidade que falta às obras. A chuva chega, o povo sofre, as câmeras aparecem, os rostos de preocupação surgem nas telas, os pronunciamentos lamentam as “fortes precipitações” como se a culpa fosse do tempo e não do poder, e então passa, seca, e o assunto morre junto com a lama que o sol de poucas semanas depois vai secar nas calçadas. Até a próxima chuva. Até o próximo choro.
O Recife chove. O povo chora. E em algum gabinete com ar-condicionado gelado, alguém assina uma nota de pesar, como se a natureza fosse a culpada, como se a indiferença não tivesse nome, cargo e endereço certo. Mas o povo que enfrenta a enxurrada na cintura sabe a diferença entre destino e negligência. Sabe que a chuva é de Deus, mas o alagamento é de gente.
Share this content:




Publicar comentário