O que a chuva leva e a infância guarda para sempre. Por Flávio Chaves

Uma história de Canápolis, de Recife, e de todas as crianças que o poder público esqueceu

Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc  –  Na Rua Bernardo Vieira de Melo, no bairro do Padroeiro, em Canápolis, havia uma casa pequena. Pequena como só podem ser as casas que guardam uma dor grande. Era a casa de um menino órfão de pai, daquela falta, que às vezes dói mais porque a ausência não tem data nem sepultura onde a gente possa chorar direito.

Certo dia alguém lhe deu um gato. Não era um presente grandioso, não veio embrulhado nem com laço. Era um bicho miúdo, de pelos cor de cinza mesclada com algum dourado, a cor exata das coisas que não têm nome bonito mas que a gente ama de um jeito feroz. O menino chamou o gato de Fifi. Ninguém perguntou por que Fifi. E ele não sabia explicar. Às vezes os nomes mais verdadeiros chegam assim, sem razão, como chega o amor.

Fifi dormia no pé da cama quando tinha frio. Nos dias de calor, estirava no chão de cimento, de barriga pra cima, como se o mundo fosse um lugar seguro. O menino olhava e sentia uma coisa que não sabia nomear, mas que nós, que já crescemos, reconhecemos como a sensação de não estar só. Havia entre os dois uma linguagem que dispensava palavras. Um miado, e o menino entendia que Fifi estava com fome. Um chamado baixinho do menino, e Fifi vinha. Quando a mãe estava cansada e o silêncio da casa pesava como laje, Fifi pulava no colo e ficava. Só ficava. E era o suficiente.

A dor de não ter pai, essa dor que ninguém ensina a carregar, ia sendo acomodada assim, devagar, no calor do pelo do gato. O menino não sabia disso com palavras. Sabia apenas que quando abraçava Fifi respirava mais fundo.

Foi numa madrugada de inverno que a vida mostrou o que é capaz de fazer. A chuva começou comum, aquele tamborilar no telhado de telha canal que quase embalava o sono, mas foi crescendo até virar um barulho de rio. A água acumulou-se no pátio, escorreu pelas paredes, entrou pelas frinchas. O telhado da cozinha, feito de caibros e ripas já cansadas pelo tempo, começou a gemer. A cozinha era o coração da casa. Ali ficava o fogão de carvão, o tanque onde o carvão era guardado para o café da manhã, para o almoço, para a ceia. Ali a mãe cozinhava as refeições simples que sustentavam o menino e sustentavam também a dignidade daquela casa sem regalias.

A parede não aguentou. Cedeu de uma vez, com um estrondo que o menino ouviria nos sonhos pelo resto da vida. E debaixo dos escombros, debaixo dos pedaços de reboco e de barro molhado, estava Fifi.

Ele não morreu. Fifi não morreu. E talvez isso tornasse tudo mais complicado, porque a morte tem um rito, tem um fim. Mas Fifi ficou vivo, ferido, uma pata que não dobrava mais como antes, um andar mancando que doía de ver. O menino ficou no chão ao lado do gato. Não se sabe quanto tempo. Provavelmente muito. Chorou do jeito que as crianças choram quando a dor é grande demais para caber no peito, com o corpo inteiro, com soluço, com a face enterrada no pelo do bicho ferido. E Fifi ficou quieto, suportando, como se soubesse que naquele momento era ele quem precisava consolar.

Aquele choro não era só pelo gato. Era pelo pai que não estava. Pela parede que caiu. Pela infância que não tinha como ser diferente. Era o choro de uma criança diante da primeira vez que o mundo mostrou que não tem pena.

Naquela madrugada, a Rua Bernardo Vieira de Melo acordou tumultuada. A casa do menino não foi a única. Outras paredes cederam, outros telhados não aguentaram. O barulho era ensurdecedor, o estrondo das estruturas caindo, a chuva que não parava, e as vozes, muitas vozes de vizinhos que saíam para ver, para ajudar, para lamentar. E junto com o lamento subia uma raiva antiga. Porque aquelas casas não caíram só pela chuva. Caíram também pelo abandono. Pelas promessas não cumpridas, pelos bueiros sem vazão, pelas ruas sem drenagem, pelas obras que apareciam só em época de eleição. Os moradores falavam dos vereadores. Falavam do prefeito. E a palavra que mais se ouvia, dita com amargura, com cansaço, com uma raiva de muitos anos, era indiferença.

O prefeito anunciou pela rádio local que o governador havia ligado e prometido ajuda. Que secretários viriam à cidade ver de perto a dor de cada família. Mas o prefeito, eleito para estar presente, para governar, para resolver, havia deixado a prefeitura nas mãos de funcionários. E falava em solidariedade de longe. Solidariedade não é o secretário que vem ver de perto. Solidariedade seria o prefeito que, nos dias comuns, nos meses de planejamento, nos orçamentos, tivesse cuidado da cidade antes que a cidade precisasse de socorro. O menino não entendia de política. Mas cresceu ouvindo. E foi aprendendo, com a carne, que certas falências não são da natureza. São de quem governa.

Fifi viveu mais anos. Mancou, mas viveu. Continuou dormindo no pé da cama no frio, continuou esticado no chão no calor. A pata que não dobrava mais era uma marca, como são as marcas que a vida dá sem pedir licença. O menino cresceu. A vida seguiu com sua crueldade e sua beleza embaralhadas. E um dia Fifi simplesmente não acordou mais. Estava quieto, com a leveza de quem apenas foi dormir, e com a paz de quem cumpriu o que veio fazer.

O menino, já não tão menino, cavou um buraco no fundo do quintal. Um buraco pequeno, com o tamanho exato de uma ausência. E colocou Fifi lá, com o cuidado de quem enterra alguém que amou de verdade. Aquela cena doeu. Foi triste do jeito que só a despedida real consegue ser triste. E ficou. Ficou gravada naquele lugar onde ficam as coisas que nos formam, não na memória, mas no corpo, no jeito de ser, na forma como aquela criança, que cresceu, ainda sente um aperto quando vê uma criança chorando por um bicho.

A chuva caiu sobre Recife. Caiu pesada, grossa, a mesma chuva que cai toda vez que a cidade não foi preparada para recebê-la. As ruas viraram rios. As casas simples, sempre as casas simples, nunca os condomínios fechados, abriram fendas, perderam paredes, perderam tetos. E junto com as paredes, caíram os Fifis. Quantos gatos, quantos cachorros, quantos animais que eram o único calor de crianças que já tinham pouco calor no mundo. Quantas crianças ficaram no chão ao lado do bicho ferido, chorando aquele choro sem consolo.

As propagandas diziam que os bueiros estavam limpos. Que as canaletas tinham sido ampliadas. Que a cidade estava preparada. A cidade não estava. A cidade nunca estava. Porque preparar a cidade de verdade não dá voto, não aparece no jornal, não gera foto para a rede social do vereador. O que aparece é o secretário visitando os desabrigados. O que aparece é a promessa do governador. O que aparece é a palavra solidariedade, usada como anestesia para adormecer a raiva de quem perdeu tudo.

As feridas das crianças que perdem seus animais nessas calamidades não aparecem nas estatísticas dos desastres. Não têm coluna no relatório da Defesa Civil. Mas estão lá, silenciosas, profundas, formadoras. São as crianças que crescerão desconfiando das promessas. Que aprenderão cedo que quem governa nem sempre está do seu lado. E talvez isso seja o mais cruel: não a pata que manca, não a parede que caiu, não mesmo a despedida no fundo do quintal, mas a descoberta precoce de que existem pessoas eleitas para cuidar que preferiram, sempre, a fotografia ao cuidado.

Aquela criança de Canápolis cresceu. Mora talvez em Recife, talvez em outro lugar. Mas ainda carrega o buraco no fundo do quintal. Ainda sente o pelo de Fifi nas mãos quando vê uma criança em meio às enchentes, segurando um bicho molhado, com aquela cara de quem entende que o mundo é injusto antes de ter idade para saber o que é injustiça.

Quantos Fifis se feriram hoje? Quantas crianças crescerão com essa dor guardada no corpo,sem sequer ter tido uma palavra de quem deveria ter impedido que a parede caísse?
*Para Fifi, que mancou mas ficou.
Para todas as crianças que a chuva de hoje está formando, com dor, para sempre.

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