JARDIM QUE AINDA ACOLHE O CANTO. Por Flávio Chaves

Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc  –   Alguma coisa, às vezes, nos chama sem voz, como se a vida, cansada de nos ver distraídos entre tarefas, notícias e pressas, colocasse diante dos nossos olhos uma imagem simples para nos devolver ao espanto. Não se trata de uma revelação grandiosa, nem de um acontecimento raro, desses que chegam cercados de solenidade. Quase sempre é o contrário. A verdade costuma aparecer humildemente, vestida de detalhe, escondida numa cena comum, esperando que a alma pare por um instante e reconheça aquilo que a inteligência apressada não alcança. No jardim, uma árvore atravessava sua estação de nudez. Não havia nela o verde abundante das manhãs felizes, nem a sombra larga que convida ao descanso, nem o rumor das folhas conversando com o vento. Restavam os galhos abertos para o céu, braços finos, expostos, quase suplicantes, como se a natureza tivesse retirado dela todos os adornos para revelar somente a sua essência. E, no entanto, aquela árvore não parecia vencida. Permanecia plantada na terra com a dignidade silenciosa de quem sabe que perder folhas não é o mesmo que perder destino. Aproximei o olhar e descobri o que mais me comoveu. Os pássaros continuavam ali. Vinham, pousavam, cantavam, desapareciam por alguns minutos e logo retornavam, como se reconhecessem naquela árvore despida alguma morada que não dependia da aparência. Não buscavam apenas a sombra, porque sombra já não havia. Não buscavam o esplendor, porque o esplendor havia recolhido suas vestes. Talvez buscassem algo mais antigo e mais profundo, a segurança invisível de uma presença que, mesmo atravessando a aridez, continuava oferecendo lugar. A árvore sem folhas ensinava mais do que muitas criaturas cheias de discurso. Ensinava que a vida possui estações em que tudo parece retirado de nós, o brilho, o entusiasmo, certas companhias, algumas certezas, uma alegria que antes nos cobria como folhagem. Também nós ficamos, em determinados períodos, reduzidos ao essencial, com os galhos da alma à mostra, vulneráveis ao vento das perdas, às mudanças do tempo, ao julgamento de quem só acredita na beleza quando ela está florida. Mas o essencial, quando verdadeiro, permanece respirando por baixo da secura. Os pássaros, pequenos intérpretes do mistério, pareciam compreender isso sem esforço. Voavam porque tinham asas, mas voltavam porque havia sentido naquele retorno. O voo não os tornava ingratos ao pouso. A liberdade não os impedia de reconhecer abrigo. E a árvore, mesmo despojada de sua antiga exuberância, continuava cumprindo uma missão quase sagrada, oferecer repouso, sustentar o canto, guardar a delicadeza possível no meio do deserto. Pensei então nas pessoas que atravessam fases semelhantes. Mulheres e homens que perderam alguma primavera íntima, que já não exibem o mesmo viço, que viram partir amores, filhos, amigos, saúde, sonhos, mas ainda guardam dentro de si uma força discreta, uma raiz que não aparece, uma seiva que trabalha em silêncio. Quantas almas julgamos secas apenas porque não conhecemos a profundidade de suas raízes. Quantas vidas parecem vazias apenas porque sua renovação ainda acontece por dentro, longe dos olhos impacientes do mundo. A cena do jardim se tornou maior do que o jardim. A árvore já não era apenas árvore, e os pássaros já não eram apenas pássaros. Havia ali uma parábola viva sobre permanência, acolhimento e esperança. A natureza não explicava nada, porque as grandes lições não precisam gritar. Apenas mostrava. Uma árvore em sua estação mais pobre ainda podia receber canto. Uma vida em sua fase mais difícil ainda podia ser morada de alguma beleza. Um coração ferido ainda podia oferecer repouso a outro coração cansado. Talvez seja essa uma das verdades mais esquecidas do nosso tempo, não devemos medir ninguém pela estação em que o encontramos. Existem pessoas no inverno que carregam sementes invisíveis. Existem silêncios que estão preparando flores. Existem perdas que ainda não disseram sua última palavra. A aparência seca de uma alma pode esconder uma raiz trabalhando, insistindo, buscando água em regiões que ninguém vê. Olhei novamente para a árvore. O vento passava por seus galhos sem encontrar folhas, mas encontrava música. E compreendi que nem toda ausência é fim. Às vezes, a ausência é apenas uma pausa da vida antes de recomeçar sua escritura verde. Enquanto houver um galho capaz de receber um pássaro, enquanto houver um canto pousando sobre aquilo que parecia deserto, enquanto houver alguma forma de beleza resistindo à nudez das estações, nenhuma árvore estará completamente só. E talvez nenhum de nós também esteja.

Share this content:

Publicar comentário