Quando o mundo fazia barulho com alma. Por Flávio Chaves
Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc – Existe um barulho novo no mundo, e o mais estranho, talvez o mais trágico, é que ele quase não faz som. Não nasce dos sinos que outrora repartiam as horas com solenidade, nem das feiras antigas onde o povo negociava frutas, tecidos e esperanças com a mesma naturalidade com que respirava, nem das janelas entreabertas de ruas estreitas onde as famílias ainda se reconheciam pelo nome, pelo passo, pelo modo de tossir, pelo jeito de fechar a porta ao anoitecer. Esse barulho moderno vem das telas acesas na insônia dos quartos, do brilho artificial que substituiu a lua no rosto dos homens, dos dedos inquietos que deslizam sem cessar como quem procura alguma coisa que não sabe nomear, das notificações que interrompem até o nascimento de um pensamento e o deixam morrer prematuro, ainda informe, ainda menino. É um ruído sem timbre e sem piedade. Senta-se à mesa conosco, deita-se ao nosso lado, desperta antes da aurora e já nos encontra fatigados, como se a alma houvesse trabalhado a noite inteira em algum porão secreto.
Nunca se falou tanto, e raramente se disse algo que mereça permanecer. Nunca se produziu tamanha multidão de frases, e tão poucas delas suportariam o peso de um silêncio verdadeiro. As redes sociais transformaram o mundo numa praça sem árvores e sem bancos, uma praça de cimento quente onde todos discursam de pé, ofegantes, ansiosos por serem vistos, e quase ninguém permanece tempo suficiente para ouvir a tristeza alheia. Multiplicaram-se as opiniões instantâneas, as convicções nascidas sem parto, as indignações de vitrine, os afetos ensaiados diante do espelho, as alegrias filtradas por máquinas que alisam a pele e endurecem a sensibilidade. Cada um exibe a moldura dourada, enquanto esconde a parede rachada. Cada um oferece fogos de artifício, enquanto recolhe às pressas as cinzas da própria noite.
E, no entanto, houve um tempo em que o barulho possuía coração, e o som parecia ter aprendido a rezar.
Nas cidades do interior, quando ainda existia madrugada e não apenas horários, os galos cantavam no escuro mais espesso da noite como antigos sacerdotes emplumados convocando o sol para sua obrigação diária. Havia grandeza naquele canto rude e insistente. O galo não sabia de astronomia, não conhecia a rotação da Terra, nada lera sobre o movimento dos astros, e ainda assim chamava a manhã com uma fé que muitos homens perderam. Seu canto rasgava a treva como uma navalha de esperança. E nós, meninos ou velhos, ouvíamos aquilo de dentro das casas e sabíamos, sem precisar pensar, que o mundo continuava funcionando.
Depois vinham as bandas de música nos feriados, às cinco horas, quando a névoa ainda cochilava sobre as calçadas e o café mal começava a perfumar as cozinhas. Desfilavam pelas ruas como se carregassem a aurora nos ombros. O tambor acordava primeiro os cães, depois as crianças, depois as lembranças mais antigas da cidade. O clarim atravessava a neblina fina e entrava pelas frestas das portas como um mensageiro de metais, anunciando que a vida, apesar das dívidas, das perdas, das enfermidades e dos desencantos, ainda se julgava digna de festa. Janelas se abriam lentamente, como pálpebras vencendo o sono. Portas rangiam com elegância de quem envelheceu servindo. Senhoras ajeitavam os cabelos, homens pigarreavam sua compostura, meninos corriam descalços atrás da fanfarra como se perseguissem o próprio futuro.
Aquilo também era barulho. Mas era barulho humano, tecido de presença, vizinhança e pertencimento. Não nos roubava de nós mesmos, devolvia-nos.
E havia as serestas, essas liturgias noturnas do sentimento, quando alguns homens afinavam primeiro a coragem e só depois o violão. Reuniam-se sob janelas iluminadas por lâmpadas tímidas, e cantavam para uma mulher, para uma saudade, para um amor que ainda não sabia se ficava ou partia. A rua inteira escutava, e ninguém chamava aquilo de invasão. Chamava-se vida. Não existia botão de curtir, existia risco. Não havia mensagens descartáveis, havia espera. Não se enviavam corações prontos por aplicativos, entregava-se o coração inteiro, tremendo, desafinado, vulnerável, exposto ao frio da madrugada e ao juízo da vizinhança. Quem cantava podia ser recusado. Quem insistia podia ganhar um olhar capaz de justificar anos inteiros.
Hoje trocamos presença por acesso, companhia por conexão, conversa por comentário, intimidade por atualização de status. Sabemos o que desconhecidos almoçaram e ignoramos o que entristece quem divide a mesa conosco. Visitamos perfis e desertamos pessoas. Colecionamos contatos como quem junta chaves enferrujadas de portas que jamais ousará abrir. Há casas em que cada morador habita uma tela diferente, enquanto o silêncio verdadeiro, aquele que pede encontro e coragem, permanece sentado no centro da sala como um parente esquecido que ninguém mais sabe nomear.
Talvez temamos o silêncio porque ele não mente. Quando cessam os avisos do telefone e as vozes do mundo se recolhem aos seus esconderijos, escutamos passos antigos dentro de nós. A culpa atravessa o corredor sem fazer cerimônia. A saudade senta-se na cama e exige conversa. O amor negligenciado pede contas. Os erros, que durante o dia se disfarçam de agenda cheia, aparecem à noite com o rosto limpo. O tempo perdido acende uma lâmpada no fundo da memória. E então corremos novamente para o ruído, como quem foge de um espelho honesto.
Mas a alma, felizmente, é mais antiga do que a tecnologia e mais paciente do que a pressa. Ela ainda sabe regressar.
Reaparece quando desligamos um aparelho para ouvir alguém de verdade. Quando sustentamos uma conversa sem consultar a tela a cada minuto. Quando permanecemos numa mesa depois do café acabar. Quando escutamos um idoso repetir histórias e percebemos que cada repetição é um pedido de permanência. Quando uma criança nos chama e respondemos com o corpo inteiro. Quando lembramos dos galos chamando o sol no escuro, das bandas atravessando ruas sonolentas, das serenatas imprudentes que arriscavam a dignidade por um sentimento sincero.
Sinto falta daquele tempo em que certos sons não invadiam, anunciavam. Não vendiam, celebravam. Não distraíam, reuniam. O barulho de hoje nos dispersa como folhas ao vento. O de ontem nos juntava como mãos em oração.
Há muito ruído no ar. E pouca madrugada dentro das pessoas.
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