A crônica domingueira. Por Magno Martins

Por Magno Martins – Jornalista, poeta e escritor – Na última segunda-feira, véspera do meu embarque para Brasília, ganhei um livro espetacular da minha amiga jornalista Wanessa Campos, agora conterrânea de Triunfo, a última cidade das 78 que me adotaram, retratando a história do Theatro Cinema Guatany, a arquitetura mais bela de Triunfo, no coração da cidade.
É a que exibe mais charme e suntuosidade. A obra foi lançada em 2023, um ano após o centenário do cinema-teatro. Tido como uma das relíquias arquitetônicas do interior de Pernambuco, o icônico e secular Theatro Cinema Guarany se perpetua num pequeno, mas emocionante e informativo texto de Wanessa. No trajeto Recife-Brasilia, li com um fôlego só. Adorei!

Além da veia de pesquisadora, Wanessa tem um motivo afetivo para investigar a trajetória do Guarany. É que o prédio foi construído pelo seu tio avô, Carolino de Arruda Campos, sendo inaugurado em 1922 após três anos de construção. Para ele, erguer o equipamento cultural seria um motivo para “segurar” os sertanejos na região, durante uma grande seca, quando levas de lavradores deixavam a caatinga, tangidos pela fome.

Carolino era então um próspero homem de negócios, e encomendou o projeto a um arquiteto francês. “A planta do edifício veio de Paris, porém não sabemos o autor, porque ela desapareceu”, conta a jornalista, que nasceu em Triunfo, onde costumava observar a imponência do edifício, no qual um detalhe sempre lhe chamou a atenção, quando criança.

“Eu olhava para o alto e não entendia porque lá havia a figura da cabeça de um índio e ficava pensando o que aquele índio fazia ali”, diz Wanessa. O motivo ela saberia depois. O índio representa um guarani, e foi uma homenagem ao maestro Antônio Carlos Gomes (1836-1896).

Carolino gostava tanto da ópera que trabalhava cantarolando a mais famosa composição do maestro, que foi inspirada no livro homônimo do escritor cearense José de Alencar (1829-1877). Habituada à pesquisa e a revolver documentos históricos – é autora de “A dona de Lampião” (sobre a cangaceira Maria Bonita) – Wanessa apresenta detalhes da construção do imóvel e do seu processo de tombamento pela Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe).

Segundo a autora, o prédio começou a ser levantado em 1919, ano em que se registrou a terceira grande seca do século 20 na região Nordeste. A decisão dos comerciantes e primos Manoel de Siqueira Campos e Carolino de Arruda Campos em apostar no projeto foi para evitar o êxodo dos trabalhadores rurais para outros estados, devido à terceira grande seca do século 20.

Ao seu ver, a ideia “deu certo”. O prédio abriu as portas no dia 17 de fevereiro de 1922. Na verdade, o edifício foi construído com recursos de Carolino. Da inauguração até 1988, o edifício de características arquitetônicas ecléticas teve tempos de glória e depois passou por diferentes proprietários, chegando a fechar em 1985. O ponto de virada, aponta o livro, começou no ano anterior, em 1984, quando o prefeito da cidade solicita o tombamento estadual do monumento.

Quatro anos depois, em julho de 1988, o título de bem tombado foi concedido pelo então governador Miguel Arraes ao Theatro Cinema Guarany. No mesmo ano, em setembro, o Estado comprou o imóvel à Província Franciscana de Santo Antônio do Norte do Brasil.

Em 2022, o Guarany foi reinaugurado em grande estilo, com a abertura do CineFestival de Triunfo. Iluminado, o prédio virou um esplendor. O Guarany é o segundo teatro a ganhar um livro em sua homenagem, nos últimos dois anos em Pernambuco.

Em janeiro de 2021, o Teatro do Parque teve sua história contada pela também jornalista Sílvia Bessa. O livro foi encomendado pela Prefeitura, mas ninguém sabe onde foram parar os exemplares. Em 2023, a Cepe lançou um outro livro sobre teatro pernambucano, no qual é relatada a fascinante história das óperas no Recife.

“Uma pesquisa exaustiva e não menos enfadonha, mas consegui. Revirei documentos de cartórios, afinal, não se escreve história sem documentos”, diz Wanessa. Para ela, o cine-teatro, cujo nome foi inspirado na ópera “O Guarany”, de Antônio Carlos Gomes, é um sobrevivente, enfrentou sérias dificuldades, crises, superação, passou por vários donos.

Wanessa está de parabéns. O Theatro Cinema Guarany, inaugurado em 1922, é um centenário símbolo de resistência cultural e um dos cinemas de rua mais bonitos do Brasil. Com arquitetura neoclássica, o espaço é o coração social da cidade, funcionando como ponto turístico, palco de festivais de cinema e guardião da identidade sertaneja.

O Theatro Cinema Guarany, com mais de um século de história, é um dos cinemas mais bonitos do Brasil e o orgulho de Triunfo. O Guarany não é apenas um prédio, é um ponto de resistência cultural e audiovisual no sertão de Pernambuco. Mais que um centenário, o Guarany é um ponto turístico que ilumina a história e a identidade triunfense.

Um palco que atravessou gerações, unindo a imponência da arquitetura neoclássica à magia do cinema. O Theatro Cinema Guarany representa a força da cultura e das manifestações artísticas do sertão do Pajeú. Visitar o Guarany é fazer uma imersão na memória e na arte pernambucana.

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