Não pagarei o resgate com o esquecimento. Por Flávio Chaves
Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc – Existe quem diga que a vida só reencontra seu eixo quando a memória aprende a perder peso, quando o coração consente em deixar para trás aquilo que já não volta e aceita, como quem se curva diante de uma lei antiga, que seguir adiante exige uma certa desocupação da alma, uma limpeza dos vestígios, uma retirada dos móveis íntimos onde a ausência continua sentada como se ainda fosse presença. Mas eu não pertenço a essa disciplina da renúncia. Não me reconheço nessa pedagogia severa que chama de cura o apagamento e dá ao esquecimento a nobreza de um remédio. Há dores que não me parecem enfermidades, mas assinaturas. Há amores que, mesmo quando já não podem ser vividos no mundo, recusam-se a morrer dentro de nós porque tocaram uma região tão funda do ser que arrancá-los seria menos um alívio do que uma profanação.
Disseram-me, em linguagem de gente prática, que eu poderia pagar com o esquecimento o resgate de mim mesmo, como se a alma fosse um refém em porão escuro e bastasse entregar à noite o rosto amado para que a manhã me devolvesse inteiro. Mas que estranha inteireza seria essa, comprada ao preço daquilo que mais me deu sentido. Que espécie de volta à vida seria essa, se para voltar eu precisasse abandonar, na fronteira do tempo, justamente o mais belo território que meu coração conheceu. Não, eu não aceito esse comércio. Não entrego à conveniência dos dias o esplendor do que vivi. Não deposito no cofre do nada o ouro vivo de um amor que, ainda hoje, mesmo ferindo, continua sendo uma das poucas verdades diante das quais me ajoelho sem vergonha.
Porque houve beleza. E dizer isso é mais grave do que confessar a dor. A dor, em certo sentido, é simples. Ela ocupa, pesa, insiste, atravessa as horas com sua unha fina, faz do pensamento uma casa onde toda porta conduz ao mesmo aposento. Mas a beleza é mais exigente, mais implacável, mais duradoura. O que me prende não é apenas a falta, é a grandeza do que houve. Eu poderia talvez esquecer uma miséria, uma paixão banal, um acidente sentimental desses que o tempo leva como o vento leva papéis de feira, mas não se esquece sem custo aquilo que um dia nos revelou, com a delicadeza de uma luz sobre a água, que a existência podia ser mais alta, mais funda e mais digna de ser sentida. O bonito amor que vivi com ela não foi apenas um acontecimento da minha biografia. Foi uma revelação sobre mim mesmo, uma janela aberta dentro do peito, um idioma que eu desconhecia e no qual, de repente, minha alma descobriu que sabia rezar.
É por isso que sigo lembrando, mesmo quando tudo dói. E talvez seja precisamente aqui que começa a parte mais difícil de compreender para os que tratam a memória como um mecanismo e o coração como um músculo treinável. Eu sigo lembrando não por fraqueza, mas por fidelidade. Não porque eu seja incapaz de continuar, mas porque continuar, para mim, não significa desertar daquilo que me constituiu. Há uma diferença imensa entre não superar e não querer trair. O mundo costuma confundir as duas coisas porque vive apressado demais para perceber que certas permanências não são atraso, são caráter. Eu não caminho com ela porque me falte coragem de soltá-la. Eu caminho com ela porque algumas presenças, depois de atravessarem nossa vida com a autoridade silenciosa de um milagre, não se transformam em passado. Transformam-se em substância.
E assim eu sigo, não como quem arrasta correntes, mas como quem leva consigo uma chama protegida do vento pelas duas mãos em concha. Sim, arde. Sim, queima às vezes com uma crueldade quase insuportável. Sim, há dias em que a lembrança pesa mais do que o próprio corpo, e o nome dela, mesmo não pronunciado, paira no ar da alma como um sino que continua vibrando muito depois do toque. Mas ainda assim há nessa dor uma espécie de dignidade que eu não trocaria pela paz rasa dos esquecidos. Porque esquecer, em certos casos, não é libertação. É empobrecimento. É permitir que a vida, com sua pressa utilitária, converta em episódio aquilo que foi destino, converta em sombra aquilo que um dia foi sol, converta em lição aquilo que foi mistério.
Eu sei que para muitos a sabedoria consiste em seguir sem olhar para trás, em fazer da memória um arquivo morto e da saudade um objeto de museu, mas existe outra sabedoria, menos celebrada e talvez mais humana, que consiste em saber conviver com o que não passou dentro de nós. Nem tudo o que termina do lado de fora termina no lado de dentro. Nem tudo o que se perde no calendário se perde no sangue. Há amores que deixam de ser companhia no mundo para se tornarem arquitetura íntima, e é dentro dessa arquitetura que continuamos vivendo, mesmo quando a vida, do lado de fora, insiste em chamar isso de excesso, de apego, de ilusão. Ilusão é imaginar que o coração se refaz por decreto. Ilusão é pensar que a alma pode amputar sem sangrar a parte de si onde um grande amor fez morada.
Talvez eu nunca tenha de volta a vida exata que tinha antes dela, e talvez esse seja justamente o ponto que mais importa. Porque a verdade é que eu não quero a minha vida de volta nos termos em que ela existia antes daquele amor. Aquele homem ficou para trás no instante em que amou. O amor não apenas acrescentou beleza aos dias, ele alterou a matéria da minha existência, reorganizou meus silêncios, aprofundou minhas perguntas, alargou minha capacidade de sentir, e ninguém retorna incólume de uma experiência assim. Pedir que eu volte a ser quem era antes seria como pedir ao mar que desaprendesse a lua. Não, eu não quero regressar à ignorância de mim mesmo. Prefiro esta dor atravessada de luz a uma tranquilidade vazia, prefiro este peso com alma a uma leveza sem memória, prefiro seguir incompleto ao gosto do mundo e inteiro aos olhos daquilo que vivi.
Porque ela segue comigo, a amada, de um modo que os mapas da realidade não registram e que, no entanto, é mais verdadeiro do que muita presença física sem profundidade alguma. Segue comigo no modo como olho a tarde, no modo como certas músicas ainda abrem janelas onde não há paredes, no modo como a beleza me fere de leve quando toca aquilo que um dia vi florescer ao lado dela. Segue comigo não como fantasma que me assombra, mas como uma espécie de segunda respiração, algo que já não depende do encontro para existir, porque foi inscrito numa região onde o tempo não manda com a mesma autoridade. Há perdas que retiram. Há amores que, mesmo perdidos, permanecem doando.
E então compreendo que minha recusa ao esquecimento não é uma recusa à vida. É, ao contrário, uma forma extrema de honrá-la. Porque viver não é apenas adaptar-se, recompor-se, encontrar utilidade para as ruínas e chamar isso de maturidade. Viver, às vezes, é ter a coragem de carregar o que foi belo sem rebaixá-lo à condição de etapa vencida. É suportar a dor sem permitir que ela macule a grandeza do que a causou. É reconhecer que nem toda ferida precisa fechar no padrão sereno que os outros consideram saudável. Algumas permanecem abertas não por doença, mas porque se tornaram janelas. Dói, sim, mas através delas ainda entra uma luz que eu não conheceria de outro modo.
Por isso não pagarei com o esquecimento o resgate de mim mesmo. Seria um preço alto demais para uma liberdade pequena demais. Eu sigo lembrando. Sigo com a amada dentro da parte mais silenciosa e mais verdadeira do meu ser. Sigo porque nem todo amor precisa continuar no mundo para continuar sendo eterno em quem amou. E se a vida me exige que eu escolha entre a paz de esquecer e a nobreza de lembrar, então que me falte paz, mas não me falte fidelidade. Porque há amores tão belos que, depois deles, o esquecimento não seria cura. Seria deserção. E eu não abandono o que fez do meu coração um lugar mais digno de Deus.
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