A crônica domingueira. Por Magno Martins

Por Magno Martins – Jornalista, poeta e escritor –   Na fala solene em agradecimento ao meu título de Cidadão Triunfense, quinta-feira passada, na Câmara de Vereadores do Município, comparei o amor de uma mulher a uma cidade. Ama-se cidades? Não se ama uma cidade como se ama uma mulher loucamente, apaixonadamente.

Amar uma cidade é vê-la num rosto com corpo de pedra, como definiu Machado de Assis, que amou o Rio, amou mulheres, amou a vida. Amar uma cidade é semelhante a sensualidade feminina. Seus encantos não se escondem, se revelam como um corpo estrutural de uma mulher.

Como uma cidade, uma mulher tem que ter qualquer coisa além da beleza. Uma beleza que vem de se saber ser mulher, um molejo de amor que dá saudade, seja ela o princípio e o fim de todas as coisas.

Antes de amar qualquer cidade, amo minha Nayla, porque me ensinou a amar a vida, não desistir da luta, recomeçar na derrota. Depois dela, nunca escrevi uma palavra para lamentar a vida. Meu verso é água corrente, é tronco, é fronde, é folha, é semente, é vida!

Amo Triunfo desde o tempo em que o verbo me fez carne, me fez gente. Amo no coração do interior dela, no seu profundo silêncio, que me ensinou a ouvir o meu tempo, um tempo perdido e mais tarde achado em cada esquina dos seus casarões coloniais, que revelam a beleza simples de uma cidade que acolhe sem pressa, em forma de poesia.

O tempo também se encarregou de transformar seu solo seco, mas fértil, num refúgio poético, onde Deus colocou a mão e desenhou um paraíso. Nem de longe Triunfo se confunde com o chão de vidas secas, de Severinas e Joãos, de Marias e Josés.

Como não se render a beleza da névoa seca que escorre dos céus de Triunfo e repousa sobre telhados antigos como se o próprio céu suspirasse na cidade? O calendário do tempo de Triunfo de hoje e não o de ontem, que ficou para trás. É como a fotografia dolorida de Drumond na parede da sua Itabira, que dói muito.

A cidadania honorária é o laço de sangue que o coração escolheu para firmar com a cidade. Ninguém nasce cidadão de um lugar, torna-se cidadão através de suas ações e do amor pela comunidade.

Vasculhando meu livro do tempo encontrei um cabedal de declarações de amor a Triunfo. Serviço prestado a uma cidade não se traduz apenas em obras concretas, de pau e pedra. Se traduz também em palavras que o vento não leva.

Em palavras que difundem e a valorizam, que viram chama para atrair turistas e movimentar a economia. Como jornalista, foi assim que ajudei Triunfo, será no exercício deste ofício que prometo continuar o hoje e o amanhã, com uma caneta sempre recheada, que nunca vai secar.

Nos meus manuscritos amarelados pelo tempo escrevi que Triunfo é um pedaço do céu no mundo, poesia em cada botão que se abre. É a prova de que o Sertão também é verde, úmido e cheio de vida.

É o retrato da névoa dançando com o sol, o frio que aconchega o peito.
Triunfo é estado de alma, um desses espaços em que a geografia se curva à poesia e o tempo parece andar de mansinho, com passos de neblina.

Em Triunfo, quando a névoa escorre dos céus e repousa sobre seus telhados antigos é como se o próprio céu suspirasse. E nesse suspiro, o mundo todo se cala para ouvir o sertão respirando, Pernambuco latejando.

Eu sou tão apaixonado por Triunfo que do alto de seus mirantes, com o som distante do sino da matriz rompendo o silêncio, a sensação que tenho é que o mundo parece se encolher. Se impõe por força, por grandeza geopolítica, pela altivez de sua beleza escondida, quase secreta.

Triunfo, envolta em brumas, como disse o poeta Flávio Chaves, é um altar erguido às tradições, à memória e à identidade nordestina em sua forma mais plena, mais sutil, mais sagrada. É como se o chão seco do Nordeste vestisse um casaco de inverno, só para nos surpreender. E o resultado não é contraste, é composição. É poesia.

Uma poesia que não se escreve com palavras, mas com neblina, pedras antigas, silêncio e cheiro de café coado na varanda. Em Triunfo, tudo vira poesia e encantamento: o histórico Teatro Guarany, o Teleférico, o Pico do Papagaio, os Caretas, o singular Lago João Barbosa, a Cachoeira do Pinga, o Museu do Cangaço, Engenho São Pedro, o Betos Bar, a Casa de Almas.

Eu não tenho dúvida de que os habitantes primitivos da Serra da Baixa Verde, antiga denominação de Triunfo, no final do século XVIII, os índios Cariris, também usavam o dialeto da poesia. No abraço com a natureza, eles introduziram cultura, uma rica história que se reflete na arquitetura colonial e na hospitalidade do povo triunfense.

Para ser adotado filho Triunfense, eu não vim de longe. Vim de Afogados da Ingazeira, do Pajeú das Flores, da terra onde as almas são todas de cantadores, parodiando Rogaciano Leite. Nasci entre garranchos e espinhos, ao som da viola de trovadores com suas calças riscadas, cantando a fome e o amor.

Vim da terra da força do sol, da beleza do rouxinol, da bravura do cangaço, da esperança da chuva, do silêncio profundo que ecoa a sabedoria da terra.

Como disse Guimarães Rosa: no sertão, o correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e afrouxa, sossega e desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.

Ter nascido por aqui é carregar no peito a força do sol, no coração o brilho da lua, a fé que não falha, a esperança que nunca morre. Podemos bater no peito e com orgulho proclamar: somos da terra onde o mandacaru floresce e a vida vence a seca.

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