Parti sem saber o que era ir embora. Por Flávio Chaves

Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc  –  Parti sem saber o que era ir embora. Naquele instante, pensei que partir era apenas mover o corpo para longe, recolher os passos, aceitar o curso inevitável dos dias e consentir, com a disciplina amarga dos adultos, que a vida às vezes nos pede aquilo que o coração não aprovou. Eu ainda não sabia que ir embora era mais do que deixar uma rua, uma presença, uma voz ou uma casa de afeto. Ir embora, como só muito depois aprendi, era permitir que a alma seguisse adiante enquanto uma parte essencial de si mesma permanecia ajoelhada no ponto de partida, olhando em silêncio para aquilo que não teve coragem de chamar de perda.

Na hora da despedida, eu não conhecia o tamanho do vazio que me esperava. A dor, quando ainda é nova, costuma vir sem nome e sem inteireza, como se a alma, por instinto de defesa, escondesse de si mesma a extensão do abismo para que o homem consiga dar os primeiros passos sem cair de joelhos. Foi assim comigo. Segui. Fiz o que precisava ser feito. Atravessei os dias com a aparência resignada de quem acredita que o tempo, por sua simples marcha, haveria de organizar por dentro aquilo que por fora já parecia consumado. Mas o tempo não organiza certas ausências. O tempo apenas retira as distrações e nos obriga, com a delicadeza severa de um espelho, a encarar aquilo que havíamos deixado em suspenso no fundo do peito.

Só mais tarde a saudade começou a falar. Não chegou como tempestade súbita, mas como água fina infiltrando a casa antiga, primeiro discreta, depois insistente, até que um dia toda a estrutura do sentir já estava úmida de lembrança. Foi então que compreendi que não havia simplesmente partido. Eu tinha saído do alcance daquele olhar sem imaginar que era ele, em grande medida, quem dava claridade aos meus caminhos. Tinha seguido adiante sem perceber que a doçura daquela presença, tão natural enquanto existia, fazia em mim o que a última janela acesa faz com o viajante perdido, pois não impede a noite, mas a torna menos hostil, menos vasta, menos inclinada a nos devorar com seu silêncio.

A vida, quando nos afasta do que amamos, nem sempre anuncia de imediato a dimensão do estrago. Muitas vezes ela age como quem arranca a fonte do campo durante a madrugada e deixa o homem caminhar ao amanhecer sem notar ainda que a terra já perdeu a água que a sustentava. Durante algum tempo ele anda, respira, segue, imagina que continua sendo o mesmo, até que a sede, essa reveladora tardia, começa a ensinar com crueldade aquilo que a pressa da partida não permitiu entender. Comigo foi assim. A ausência não começou no dia em que me fui. Ela começou de verdade no dia em que o mundo, já sem o amparo daquele olhar, perdeu uma parte da sua música interior e passou a soar como estrada desconhecida para quem, até então, acreditava conhecer o rumo.

Descobri, então, que ir embora não era apenas sair de perto. Era continuar existindo longe daquilo que dava sentido a muitas coisas que eu nem havia percebido dependerem daquele amor. Era acordar e sentir que alguma luz delicada havia sido retirada do ar. Era atravessar horas inteiras sem a secreta alegria de saber que em algum lugar do mundo existia, ao alcance dos meus gestos, uma face em que a ternura me reconhecia. Era carregar o corpo para a frente e, ao mesmo tempo, sentir que o coração havia ficado encostado no batente de uma porta antiga, como um filho que vê a casa se fechar sem ainda entender que a infância terminou.

A saudade foi me ensinando devagar o que a despedida não soube dizer. Ensinou que certas belezas só revelam o próprio valor quando deixam de nos acompanhar. Ensinou que o amor, enquanto nos aquece, parece às vezes simples demais para que lhe reconheçamos toda a grandeza, mas basta sua ausência para que o mundo mude de inclinação, como se a própria paisagem se tornasse mais áspera, mais estrangeira, mais difícil de habitar. Ensinou, sobretudo, que há perdas que não se medem pelo que levaram embora de concreto, mas pelo que desorganizaram dentro de nós, pelas janelas que fecharam, pela sombra que deixaram no lugar exato onde antes havia claridade.

Hoje entendo que o ponto de partida era mais fundo do que eu supunha. Não era apenas um lugar no mapa dos acontecimentos, mas o centro invisível de uma verdade afetiva que eu só reconheci quando já estava longe demais para fingir que nada havia mudado. Partir, percebo agora, foi menos um gesto de movimento do que uma lenta expropriação interior. Fui sendo afastado não só de uma presença, mas da maneira como o mundo se tornava mais humano na presença dela. E a estrada, que no primeiro instante parecia apenas inevitável, revelou com o tempo o seu rosto árido, o seu idioma de pedra, a sua pedagogia severa, como se me dissesse todos os dias que não há caminho neutro para quem deixou, sem saber, a própria casa do espírito.

Talvez seja essa a mais dolorosa das sabedorias, a de compreender tarde demais que certas despedidas não terminam no adeus, apenas começam nele. Depois, seguem vivendo conosco em estado de pergunta, de eco, de claridade ferida, até que um dia percebemos que a ausência se transformou numa espécie de companheira secreta, aquela presença invertida que nos toca não pelo que oferece, mas pelo que recorda. E tudo então remete ao instante inicial, àquele momento quase banal em que os pés obedeceram ao destino sem que o coração tivesse ainda a menor ideia do preço. Eu parti sem saber o que era ir embora, e foi a saudade, com sua paciência de lâmina, que me ensinou depois que alguns adeuses não nos retiram apenas de alguém, mas também da melhor parte de nós mesmos.

Agora, quando a lembrança daquele olhar retorna com sua beleza intacta e sua doçura impossível, não penso apenas no que ficou para trás, mas no homem que eu era antes de entender. Vejo aquele que partiu e quase sinto ternura por sua ignorância, por sua pobre ilusão de que o tempo seria suficiente, por sua confiança ingênua de que o coração se adaptaria à distância como os olhos se adaptam à penumbra. Não sabia. Não podia saber ainda. Só a saudade, essa mestra sem piedade e sem mentira, haveria de lhe mostrar que certos amores continuam iluminando justamente porque sua falta torna mais visível a escuridão de tudo o que veio depois. E é por isso que sigo, mas sigo diferente, como quem carrega dentro de si a memória da última janela acesa, a lembrança da única fonte no campo, a consciência de que o caminho se fez mais estranho e sofrido porque nele já não caminha a beleza daquele olhar.

Parti sem saber o que era ir embora, e foi a saudade que, muito depois, me ensinou a dimensão da perda.

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