Além de tudo, ainda existe o amor. Por Flávio Chaves
Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc – Houve um tempo em que eu acreditei, com a inocência grave dos que amam de verdade, que certas coisas estariam protegidas apenas por serem puras, como se a beleza de um sentimento pudesse, por si só, comover o mundo e desarmar a sua brutalidade, mas a vida, esta velha senhora de mãos severas, cedo me ensinou que nem todo amor fracassa por cansaço, nem todo adeus nasce do esgotamento da ternura, nem toda distância é filha da indiferença, porque existem afetos que não se rompem por dentro, ainda que sejam esmagados por fora, e foi assim com aquele amor que um dia me atravessou inteiro, sem cálculo, sem defesa, sem qualquer economia da alma, um amor tão profundamente humano que até hoje me dói chamá-lo de passado, como se o verbo no pretérito pudesse conter o que ainda respira em mim com a força humilde das coisas verdadeiras.
Nós nos amamos com a seriedade dos que não estavam brincando com a própria fome, com a própria carência, com o próprio destino, e talvez tenha sido exatamente isso que despertou o incômodo daqueles que jamais suportaram ver duas criaturas se reconhecendo numa fidelidade rara, porque o amor, quando é apenas ornamento, diverte os olhos alheios, mas quando é real, quando exige coragem, quando acende no outro a centelha de uma vida inteira, ele perturba, ele ameaça as estruturas do controle, ele faz com que os guardiões da aparência se sintam ofendidos, como se a entrega sincera de duas almas fosse uma afronta imperdoável ao teatro frio da conveniência. Não foi o coração que nos traiu, foi o cerco. Não foi a perda do encanto, foi a mão dura das circunstâncias, a vigilância dos olhos estranhos, o peso dos julgamentos, a crueldade dos que se julgam autorizados a entrar no território sagrado de um sentimento alheio para decretar onde ele pode viver e onde deve morrer.
Ainda me lembro da delicadeza com que esse amor nasceu, não como uma explosão teatral, mas como uma verdade que foi se revelando pouco a pouco, como a manhã que clareia sem alarde, até que de repente percebemos que já não havia sombra bastante para negar a luz. Era bonito porque era limpo, intenso porque era sincero, profundo porque vinha de lugares da alma que a linguagem comum não alcança, e em sua companhia eu não me sentia maior nem menor do que era, apenas mais verdadeiro, mais próximo de mim mesmo, como se amar e ser amado fosse, naquela experiência, uma forma rara de voltar para casa. O amor, quando encontra a sua medida justa, não nos adorna, ele nos desvela, e foi isso que vivemos, o desvelamento íntimo de duas existências que se tocaram com respeito, fervor e inteireza.
Depois vieram os dias escuros, e com eles a pedagogia violenta do mundo, que não suporta o que não consegue domesticar. Vieram as pressões, as insinuações, as sentenças pronunciadas por bocas que nada sabiam sobre o custo daquela entrega, vieram as barreiras erguidas com a falsa autoridade dos que acreditam que podem mandar no destino dos outros, e o que deveria ter sido deixado em paz foi cercado, observado, ferido, empurrado para longe, até que a vida prática, esta máquina áspera que tantas vezes trabalha contra o coração, fez o seu serviço de separação. Fomos apartados como se o amor pudesse ser dissolvido por decreto, como se bastasse interromper a presença para extinguir a verdade, como se a ausência física tivesse poder suficiente para destruir aquilo que já havia inscrito seu nome no centro mais sensível da memória.
Mas o mundo se engana sempre que confunde afastamento com anulação. O que é raso se perde com facilidade, o que é frouxo se desfaz ao primeiro vento, o que é apenas entusiasmo se converte em lembrança pálida com a passagem das estações, porém aquilo que foi vivido com inteireza adquire uma densidade que o tempo respeita, ainda quando fere, ainda quando cala, ainda quando cobre tudo com a poeira das horas. Esse amor não continuou porque fomos teimosos, nem porque nos faltou lucidez, mas porque certas experiências, depois de atravessarem a carne e o pensamento, deixam de pertencer ao calendário e passam a pertencer à constituição mais funda do ser. Eu não o carrego como quem cultiva uma ilusão, eu o reconheço como quem guarda uma verdade que sobreviveu ao desamparo.
A saudade, quando nasce de um amor assim, não é apenas tristeza pela falta do outro, é também uma forma de fidelidade ao que se viveu, uma maneira silenciosa de não permitir que a injustiça tenha a última palavra. Sente saudade quem sabe que existiu grandeza no encontro, quem entende que nem toda separação corrige um erro, porque muitas vezes ela apenas consagra uma violência. Existe uma diferença profunda entre o amor que termina por ter cumprido seu ciclo e o amor que é interrompido à força, arrancado antes da hora, ferido por mãos externas, e esta diferença o coração conhece com uma exatidão que nenhuma teoria consegue desfazer. O primeiro pode repousar, o segundo continua ardendo em algum lugar secreto, não por capricho, mas porque foi impedido de concluir sua própria história.
Com o passar dos anos, aprendi que a maturidade não consiste em negar a intensidade do que nos marcou, mas em olhar para ela sem histeria, com a dignidade de quem sabe que a vida nem sempre é justa e, apesar disso, não renuncia à beleza do que foi amado. Não transformei esse amor em altar, nem em doença, nem em pretexto para fugir do real. Transformei-o em verdade interior, em lembrança acesa com sobriedade, em companhia invisível para certas noites em que a alma, cansada do barulho do mundo, precisa se sentar diante de si mesma e admitir que algumas pessoas não nos deixam nunca, mesmo quando já não caminham ao nosso lado. Amar de verdade também é isso, aceitar que a distância modifica a forma da presença, mas não tem autoridade para abolir a sua essência.
Penso, às vezes, que o mundo é extraordinariamente competente em separar corpos e assustadoramente incapaz de governar o coração. Pode impor silêncio, pode erguer muros, pode fabricar versões, pode constranger, humilhar, vigiar, condenar, pode até vencer no plano visível das rotinas e dos encontros, mas fracassa diante daquilo que se recolhe à parte mais funda de uma alma e ali continua vivendo sem pedir licença. O amor verdadeiro conhece esse lugar onde a violência externa não entra por completo, esse aposento interior onde o afeto se conserva não como fantasia, mas como experiência irrefutável. E talvez seja justamente isso que mais incomode os carrascos da delicadeza, o fato de que eles até conseguem destruir a convivência, mas não conseguem falsificar a verdade.
Hoje, quando recordo tudo, não sinto apenas dor. Sinto também uma espécie grave de gratidão, porque viver um amor assim, ainda que ferido pela injustiça, ainda que interrompido pela dureza da vida, ainda assim é tocar uma dimensão rara da existência, uma dimensão que poucos alcançam e menos ainda compreendem. Nem todos têm a sorte e o infortúnio de encontrar um sentimento que os ultrapasse, que os revele, que os acompanhe mesmo depois da dispersão dos dias. Esse amor me deixou a tristeza de sua falta, é verdade, mas também me deixou uma certeza preciosa, a de que o coração humano, quando ama com honestidade, conhece uma forma de eternidade que não depende da posse, da convivência diária ou da aprovação do mundo.
Talvez seja isso que no fundo mais importe dizer, com a serenidade sofrida de quem já viu muitas coisas desabarem sem que a alma consentisse em se tornar menor: nós fomos separados, sim, e seria inútil mentir sobre a violência desse corte, porém não fomos desmentidos. A vida nos afastou no mapa dos dias, mas não conseguiu apagar aquilo que um dia se reconheceu como verdade. E enquanto existir memória com afeto, silêncio com chama, ausência com sentido, esse amor continuará sendo o que sempre foi, uma das provas mais belas e mais tristes de que o mundo pode muito contra nós, mas não pode tudo dentro de nós.
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