O mar que a saudade revela. Por Flávio Chaves

Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc  –  Existem saudades que não chegam como lembrança, chegam como maré. Não pedem licença, não batem à porta, não anunciam a hora em que pretendem nos invadir. Apenas sobem, silenciosas e fundas, e quando nos damos conta já estão por dentro da casa, molhando os retratos, salgando os móveis da alma, arrastando para longe a falsa ordem com que tentávamos organizar a vida. A ausência de alguém, às vezes, é isso: uma água antiga tomando conta de tudo, uma força que não se vê de início, mas que altera o peso das manhãs, a cor das tardes e até o jeito como a noite pousa sobre os ombros. E então a pessoa percebe, não sem espanto, que carregava um oceano inteiro sem saber, e que bastou o vazio deixado por um rosto, por uma voz, por um afeto interrompido, para que esse oceano despertasse com toda a sua fome de distância.

É curioso como só entendemos a profundidade de certos amores quando eles já não se sentam à mesa conosco. Enquanto a presença floresce, a vida se acostuma ao perfume, como se fosse natural que o jardim exista; mas quando a cadeira fica vazia e o nome passa a doer mais do que a boca consegue pronunciar, alguma verdade se ergue do fundo e nos mostra que amar alguém era também aprender uma geografia secreta, um mapa feito de correntes, de luas interiores, de tempestades escondidas sob a serenidade aparente dos dias. Sentir saudade é descobrir que havia mar onde julgávamos haver apenas chão, que havia abismo onde pensávamos haver costume, que havia grandeza justamente ali onde a distração humana costumava chamar de rotina.

Talvez por isso tanta gente viva tentando parecer pedra, quando por dentro é água em sobressalto. Porque a água sente demais, lembra demais, reflete demais. A pedra suporta, mas a água carrega. E há existências que só se explicam assim: são vidas navegantes, ciganas de porto em porto, sempre com uma mala de esperanças numa mão e um cansaço bonito na outra, como quem aprendeu desde cedo que ficar não é um privilégio concedido a todos, e que sobreviver já é uma arte que exige fôlego, coragem e uma certa desobediência diante do relógio. Há pessoas que não caminham pela vida, nadam. Nadam contra correntezas duras, contra dias estreitos, contra as horas que parecem ter dentes. Nadam como quem disputa com o próprio destino um pedaço de céu, um pouco de paz, uma chance de fazer durar aquilo que sonhou.

E é nesse esforço quase invisível que a alma se revela, não como mistério, mas como resistência. Porque viver, para alguns, nunca foi um repouso; viver foi sempre braçada. Braçada larga, sofrida, insistente. Braçada de quem engole água e continua. Braçada de quem teme afundar, mas faz do medo um músculo. Braçada de quem aprendeu que o tempo não se vence com pressa, mas com teimosia, com confiança em si mesmo, com esse heroísmo pequeno e anônimo dos que levantam todos os dias mesmo quando a esperança amanhece cansada. São esses os que compreendem mais cedo que o tempo não é apenas um ponteiro girando no alto da parede, mas um mar feroz que tenta nos engolir aos poucos, e contra o qual só há uma resposta possível: seguir, ainda que arfante, ainda que ferido, ainda que o peito pareça pequeno demais para tanto mundo.

Há uma dignidade funda nesse cansaço de quem não desiste. Uma beleza limpa em quem segue molhado de perdas e, mesmo assim, não deixa morrer a sede de futuro. Porque a saudade não é apenas dor; em certos corações, ela também é descoberta. Ela mostra o tamanho do amor, mas mostra igualmente o tamanho da coragem. Quem sente falta até doer descobre, no mesmo golpe, que foi feito para profundidades. Descobre que dentro de si não havia apenas carência, havia correnteza; não havia apenas fragilidade, havia resistência; não havia apenas memória, havia uma vastidão inteira pedindo horizonte. E então a ausência daquela pessoa, que parecia no início apenas um buraco escuro, vai se transformando lentamente numa espécie de espelho líquido onde a própria alma se enxerga com mais nitidez. Do outro lado da perda, a pessoa encontra a verdade de sua força.

Porque há vidas que nascem com destino de cais, e outras que nascem com destino de oceano. As primeiras conhecem o abrigo. As segundas conhecem a distância. E embora a distância doa, ela ensina uma grandeza que o conforto desconhece. Quem vive em alma cigana aprende a fazer da incerteza uma estrada, do improviso uma sabedoria, da falta uma professora severa e luminosa. Aprende a reconhecer estrelas mesmo quando o céu está fechado. Aprende a escutar, no fundo da própria exaustão, uma voz íntima que diz para continuar. Aprende, sobretudo, que sonho não é enfeite de gente ingênua; sonho é fôlego de sobrevivente. É o que impede o corpo de afundar quando a realidade pesa demais. É o que ainda cintila quando quase tudo em volta se tornou noite.

No fim, talvez seja isso que a saudade nos ensine com sua dureza: que somos mais marítimos do que imaginávamos. Que a vida não nos quer intactos, quer vivos. E estar vivo, muitas vezes, é aceitar o sal nos lábios, o vento desalinhando certezas, o coração remando no escuro em busca de uma margem que ninguém prometeu, mas que ainda assim pressentimos. Há quem chame isso de luta. Eu chamaria de insistência humana. Porque continuar, quando falta alguém, quando o tempo aperta, quando a existência nos pede fôlego além do que temos, é uma das expressões mais fundas do afeto. Afeto por quem partiu, afeto pelo que ainda espera, afeto por si mesmo, esse náufrago teimoso que se recusa a entregar o peito às águas.

E assim seguimos, com o mar por dentro, com a saudade puxando nossas marés ocultas, com os sonhos servindo de remos numa noite comprida. Seguimos arfantes, é verdade, mas seguimos. E talvez a grande vitória nunca tenha sido dominar o tempo, porque ninguém doma aquilo que nasceu para correr. Talvez vencer o tempo seja outra coisa, mais funda e mais humana: é não permitir que ele nos seque. É atravessar os dias sem perder a capacidade de sentir. É chegar ao outro lado da dor ainda capaz de ternura. É conservar, no meio da vida cigana e dura, um coração que, mesmo ferido, ainda saiba reconhecer beleza no horizonte. Porque quem traz mar na alma pode até cansar, pode até chorar escondido na curva da noite, pode até temer o fundo em certas horas, mas jamais aprende a viver sem procurar a linha distante onde o céu beija a água. E essa procura, tão dolorosa quanto luminosa, é talvez a forma mais bonita que existe de permanecer humano.

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