Onde o amor se recolhe. Por Flávio Chaves

Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc  –  Há pessoas que se afastam da nossa vida sem jamais partirem inteiramente. Vão-se os passos, calam-se as vozes, dissolve-se a presença concreta que antes ocupava os dias, mas alguma coisa delas permanece em nós com a paciência de uma luz que não se apaga. Ficam em certos objetos sem importância, no modo como a tarde pousa sobre a madeira da memória, no sobressalto de um perfume que cruza o ar como se o passado, por um instante, voltasse a respirar. O coração humano é um território estranho. Nele, a despedida quase nunca termina no exato momento em que acontece. Há partidas que continuam vivendo por dentro, como se a alma, mais funda do que o tempo, se recusasse a fechar algumas portas.

Talvez sejamos, no íntimo, uma casa feita de presenças invisíveis. Uma casa antiga, vasta, silenciosa, habitada por lembranças que não morreram, por afetos que o tempo não conseguiu arrancar e por dores que aprenderam a falar mais baixo para não ferirem tanto. Dentro de nós há corredores onde a infância ainda corre com seus pés leves, salas onde a esperança permanece sentada junto à janela, esperando que o mundo se torne menos áspero, e quartos fechados onde repousam nomes, gestos, promessas e ausências que, de algum modo, continuam a nos acompanhar. Viver é, talvez, aprender a caminhar por essa casa sem medo de seus silêncios.

O nosso tempo, porém, parece ensinar o contrário. Ensina a fugir de si. Ensina a preencher todos os vazios com ruído, a cobrir toda tristeza com distração, a trocar profundidade por velocidade e presença por movimento. Criou-se a ilusão de que a alma atrapalha, de que sentir demais é fraqueza, de que parar para escutar a si mesmo é uma forma de atraso. E assim o homem moderno, cercado de vozes, de pressa e de aparências, vai se tornando estrangeiro dentro da própria interioridade. Sabe de tudo o que acontece fora, mas desconhece os longos acontecimentos que continuam se formando dentro do peito.

A alma, no entanto, não floresce na pressa. Ela precisa de outro compasso. Um compasso semelhante ao da terra depois da chuva, quando tudo parece recolhido e, ainda assim, profundamente vivo. Há coisas dentro de nós que só amadurecem no silêncio. Há dores que só se deixam compreender quando cessamos de combatê-las como inimigas. Há lembranças que não pedem esquecimento, pedem apenas um lugar justo. E há afetos que permanecem não como correntes, mas como raízes. Não nos prendem ao passado. Apenas nos lembram de que nem tudo o que passou deixou de existir.

Existe uma forma de amor que não faz alarde. Não pede nome, não exige definição, não se declara aos gritos diante do mundo. Apenas habita. Fica nas margens do pensamento, no cuidado involuntário com uma lembrança, na delicadeza com que a memória toca certos instantes para que eles não se desfaçam por completo. É um amor que já não necessita da posse para continuar verdadeiro. Tornou-se presença interior. Tornou-se claridade mansa. Tornou-se uma música baixa que o coração escuta quando a vida, por um breve instante, faz silêncio.

Talvez seja isso que a maturidade tenha de mais nobre. Não o endurecimento, como tantos supõem, mas a capacidade de guardar sem aprisionar, de recordar sem sangrar a cada lembrança, de seguir adiante sem cometer a brutalidade de negar o que foi essencial. Amadurecer é aprender a conviver com o invisível. É compreender que há coisas que não voltam, mas também não nos deixam. E que certas presenças, justamente porque já não estão ao alcance das mãos, se aprofundam tanto dentro de nós que passam a viver em uma região onde o tempo já não governa.

Há uma tristeza bonita em algumas memórias. Não uma tristeza de ruína, mas de permanência. Como a luz do fim da tarde que toca uma casa vazia e, em vez de torná-la deserta, faz parecer que alguém ainda habita ali. Assim também acontece com certos afetos. Já não se apresentam com a urgência dos dias antigos, já não ocupam a superfície da vida, já não pedem resposta, caminho ou retorno. Mas continuam acesos em algum aposento da alma, discretos e fiéis, como velas que se recusam a morrer no fundo de uma capela antiga.

É por isso que a saudade, quando não se degrada em desespero, pode ser uma das experiências mais delicadas da existência. Ela revela que o coração humano é incapaz de tratar como nada aquilo que um dia foi abrigo, destino ou revelação. Sentir saudade é, em certo sentido, honrar o que nos tocou profundamente. É reconhecer que houve verdade, e que a verdade, mesmo quando já não permanece ao nosso lado, continua de algum modo a iluminar a nossa travessia. Nem toda ausência é escuridão. Algumas ausências iluminam.

Talvez o grande empobrecimento do nosso tempo seja justamente este: a incapacidade de lidar com o que não pode ser exibido. Tudo precisa ser instantâneo, visível, definido, explicado, exposto. Mas as coisas mais altas da alma não vivem bem sob a violência das vitrines. O amor mais verdadeiro, muitas vezes, é aquele que já aprendeu a não se impor. A dor mais funda é a que se tornou serena. A memória mais viva é a que não precisa ser anunciada para continuar pulsando. Há sentimentos que se tornam maiores quando deixam de pedir palco.

Cada ser humano carrega por dentro uma casa que ninguém vê. Alguns passam a vida inteira fugindo dela, com medo dos próprios ecos. Outros a fecham, como se ali dentro estivesse guardado tudo o que dói. Mas há aqueles que, mesmo feridos, aprendem a voltar. Acendem a luz do corredor, abrem as janelas da memória, deixam o ar circular entre os velhos móveis da alma e aceitam que viver também é isto: conviver com o que partiu sem permitir que a partida destrua o que ficou de belo.

No fim, talvez sejamos menos aquilo que mostramos ao mundo e mais aquilo que silenciosamente preservamos. Somos feitos também dos nomes que já não chamamos, dos gestos que ninguém viu, das esperas que não foram compreendidas, dos afetos que permaneceram escondidos no fundo de nós como água subterrânea alimentando raízes antigas. E talvez seja essa a mais secreta dignidade do coração humano: continuar amando de algum modo, mesmo quando a vida já mudou de estação.

Porque há um tipo de amor que não desaparece. Apenas se recolhe. Sai da superfície dos dias e vai morar mais fundo. Deixa de ser chama alta e torna-se brasa. Deixa de ser palavra e torna-se atmosfera. Deixa de ser presença visível e torna-se claridade interior. E é ele, muitas vezes, que mantém a nossa alma iluminada quando o mundo lá fora começa a escurecer.

Share this content:

Publicar comentário