Quanto mais bonito for o amor, mais devastador será o que vem depois. Por Flávio Chaves
Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc – Há certas manhãs em que acordo com a sensação de que o mundo respira fundo antes de cometer alguma imprudência. É quando me sento à mesa, a xícara fumegando entre as mãos, e percebo que a memória resolveu trabalhar por conta própria. Ela me mostra, sem piedade, os rostos que já amei com aquela voragem que só a juventude se autoriza. E então me vem uma verdade que aprendi do avesso, tantas vezes, que já não sei se foi a vida a me ensinar ou se fui eu que, teimoso, fui colher lição onde só havia coração exposto.
Quanto mais bonito for o amor, mais devastador será o que vem depois. Não é uma sentença de tribunal, nem uma profecia para ser temida. É apenas uma lei de compensação que parece reger o invisível, como aquela que obriga os rios a correr para o mar e os dias a se recolherem nas dobras da noite. O amor que chega com a delicadeza de uma seda que nunca foi tocada, que se anuncia por um riso que parece ter sido guardado só para nós, que se instaura com a calma de quem já sabia que ali era o seu lugar, esse amor carrega em si uma espécie de contrato secreto: quanto mais pleno ele for, mais absoluta será a falta quando ele se retirar.
Lembro de um amor assim. Chegou como quem abre uma janela numa sala fechada há anos. Não fez barulho, não pediu licença, apenas esteve. E eu, besta que era, acreditei que aquele estado de graça pudesse durar como uma estação que se recusa a passar. Mas o amor tem dessas coisas: ele nos convida para o paraíso e, sem aviso, nos lembra que somos inquilinos, nunca proprietários. Quando foi embora, deixou um vão tão grande que eu passei meses tentando tapá-lo com qualquer coisa: com outros amores que não foram feitos para aquela moldura, com noites em claro que mais pareciam uma vigília fúnebre, com uma escrita que tentava, em vão, dar forma ao que não tinha forma.
O que aprendi, e que agora uma crônica talvez consiga carregar melhor do que um tratado, é que não devemos fugir da devastação como se ela fosse um erro a ser evitado. Ela é a outra face da beleza, o revés do bordado. Quem quer a rosa tem de aceitar que a haste tem espinhos, mas há quem queira apenas a rosa em sua plenitude, sem jamais sujar os dedos de terra ou de sangue. Esses, coitados, amam pela metade, e por isso nunca conhecem o tamanho real do deserto que se abre depois. Prefiro, hoje, o amor que me destrói um pouco, porque ele é o único que me prova que estive vivo de verdade.
A crônica, veja, me permite dizer isso sem a solenidade de um ensaio. Posso até rir de mim mesmo, sentado aqui com a caneta manchando os dedos, enquanto lá fora a tarde começa a ensinar sua lição de ouro e cinza. Posso confessar que ainda guardo os estilhaços daquele amor bonito num canto da alma que raramente visito, não por medo, mas por respeito. Algumas ruínas merecem ficar de pé como estão, sem que ninguém venha com a pretensão de restaurá-las.
O que vem depois, sim, é devastador. Mas há um momento, nesse depois, em que a devastação deixa de ser um abismo e começa a se transformar em território. A gente aprende a andar por ele, a reconhecer as pedras, a descobrir que algumas delas brilham no escuro. A gente descobre que o amor bonito não some de verdade; ele se recolhe, vira outra coisa, às vezes vira uma crônica que um homem escreve numa manhã qualquer enquanto o café esfria.
E assim, amigo, fecho o círculo. Pois a crônica, quando bem feita, é exatamente isso: um modo de habitar o depois sem fingir que o antes não existiu. Com toda a beleza, com toda a ferida, com toda a gratidão.
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