A crônica domingueira. Por Magno Martins

Por Magno Martins – Jornalista, poeta e escritor – A casa onde crescemos não é apenas tijolo e cimento. É nossa história contada em cômodos. Toda casa dos pais guarda em si a lembrança daqueles que nela moraram. Em especial, dos seus primeiros moradores. Quem pode tirar da memória a casa em que nasceu ou viveu grande parte da infância e adolescência?
Estou lendo “O velho Graça”, biografia de Graciliano Ramos. Nela, o grande escritor alagoano, de quem sou fã, já tendo devorado quase todos os seus livros, como “Vidas secas”, “Caetés”, “Memórias do cárcere” e “São Bernardo”, viveu sua infância entre Quebrangulo e Viçosa. E assim descreveu o que ficou na sua memória de uma casa que tinha um ambiente comercial: “O cheiro de fazendas, de querosene e de açúcar”.

A casa em que ele veio ao mundo também funcionava como armazém. A grande Rachel de Queiroz teve também suas recordações da Fazenda Junco, onde viveu sua infância. Ela descreve como o lugar de “poesia viva” e de sua formação pessoal, cenário central de muitas de suas crônicas.

Os grandes escritores frequentemente descrevem a casa dos pais não apenas como um local físico, mas como um repositório de memória, um refúgio emocional, e, muitas vezes, um lugar de onde é necessário sair para amadurecer.

As perspectivas variam entre o aconchego nostálgico e a angústia da limitação. Para mim, a casa de infância é vista como um lugar que molda o coração e que, uma vez vivido, nunca é totalmente destruído na memória. Vejo e sinto como um ambiente de amor, esperança e sonhos, santuário para onde desejo voltar.

Há pouco, soube que a casa em que vivi parte da infância e adolescência em Afogados da Ingazeira foi vendida pelas minhas irmãs, herdeiras do meu pai Gastão Cerquinha na partilha dos bens. Foi uma flechada no coração. Doeu muito, porque nela estão lembranças que não ficam só na memória. Ficam no coração.

Saí cedo de Afogados da Ingazeira para ganhar a vida no mundo. Mas regressava para ver meus pais com muita frequência. Sempre na mesma casinha, com um terraço em L no qual improvisei minha primeira redação como correspondente do Diário de Pernambuco, jornal que me acolheu como foca (jornalista em início de carreira).

Tinha também um quintal cheio de goiabeiras, mangueiras e seriguelas. Já no tempo da vida avançada, aos 80 anos, papai subia nos pés de seriguela e voltava com as mãos cheias da saborosa frutinha para nos encher de felicidade. Teve um tempo mais rural, no qual o vasto quintal, que a gente chamava de muro, serviu de habitat para uma vaquinha leiteira, bodes, galinhas e o peru de Natal.

Era ambiente também de prosas sem hora para acabar da família na calçada da rua. Apelidamos de Senadinho, o que se traduzia, na verdade, em tertúlias de falação da vida alheia. Seu presidente de honra era papai, mas quem sabia das fofocas mesmo era mamãe, que voltava das suas sessões de orelha quente do clube da terceira idade super bem informada.

Rever a casa dos meus pais era reviver quem fui. Era matar a saudade de quem me abrigou, dos abraços e do cheiro de infância. O coração sempre batia mais forte quando pisava no chão da casa que não mais nos pertence.

Era um casarão, localizado na Avenida Arthur Padilha, no coração da cidade. Nela, eu tinha meu quarto predileto. Em dias de festas de fim de ano, acordava com a retreta do saudoso Dinamérico Lopes. Havia um mesão para abrigar a filharada nos almoços intermináveis: nove filhos. Cada um tinha seu lugarzinho marcado na mesa. Papai só servia o almoço quando todos estivessem rente a ele, uma liturgia diante do nosso grande mestre, nosso varão.

Quando um filho sai de casa, parece que um dos cômodos fica sem luz, ouvia minha mãe Margarida se queixar. Ela tinha razão. O tempo me ensinou que a luz dos pais ilumina todo o caminho de nossas vidas. Ela tinha razão, volto a repetir. Cada despedida da casa deixava um pedaço do meu coração para trás. Sair da casa dos pais é um ato necessário de coragem, mas o apego é o que nos faz querer voltar.

Minhas irmãs estão cobertas de razão pela venda da casa. Foi justificada, compreendida por nós, irmãos homens. Mas não consigo mais passar em Afogados da Ingazeira com os olhos grudados na casa que foi dos meus pais. Dói o peito, traz a força das memórias felizes. Que saudade da minha casinha, do abraço dos meus pais e da simplicidade que me fez.

É uma dor indescritível, a dor da saudade, a dor do aconchego que se foi e nunca mais voltará. A casa dos pais é o aconchego onde as memórias de uma infância feliz e o amor eterno sempre nos esperam. É um refúgio de amor, segurança e memórias de infância, um porto seguro para onde sempre se pode voltar. É um lugar de acolhimento incondicional, onde as memórias de uma infância feliz e o amor eterno nos esperam.

A casa continua lá, intacta. Soube que vai virar ponto comercial. Com qualquer configuração que venha, para mim fica apenas o cheiro de café passado, o colo de mãe e a voz de pai. Fica o aperto no peito, um tijolo chamado pai e um telhado chamado mãe.

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