A geometria secreta de quem se dobra por dentro. Por Flávio Chaves

Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc  – Há uma hora da tarde em que a cidade parece suspender a própria respiração, como se os prédios, cansados de sustentar o peso das histórias que abrigam, pedissem um intervalo secreto, e foi exatamente nessa hora morna, indecisa entre o cansaço e a esperança, que ele se sentou diante de uma xícara de café e percebeu que estava envelhecendo por dentro, não no rosto que o espelho devolvia todas as manhãs com pontual indiferença, mas naquele lugar invisível onde os sonhos, um dia inflamados como incêndios clandestinos, agora ardiam apenas como brasas disciplinadas.

Ele não era um homem extraordinário, tampouco um fracassado digno de compaixão pública, era apenas alguém que aprendera cedo a negociar consigo mesmo, cedendo pequenos territórios de desejo em troca de uma paz administrável, como quem vende pedaços do próprio quintal para manter a fachada da casa intacta, e ao fazer isso foi se tornando morador de um espaço cada vez mais estreito, embora externamente tudo permanecesse em ordem, os compromissos cumpridos, as contas pagas, os aniversários lembrados com mensagens breves e adequadas.

Segurava a xícara já fria, mas não a levava aos lábios, talvez porque intuísse que aquele café era o retrato exato de sua vida afetiva, algo que um dia foi quente e perfumado, preparado com expectativa, e que agora repousava ali, disponível, porém desprovido de urgência, e enquanto observava as pessoas passarem pela calçada como quem assiste a um rio que não se detém para ninguém, sentiu que sua própria história tinha se transformado numa sucessão de marés baixas, períodos em que a água recua e expõe conchas quebradas, restos de promessas, fragmentos de conversas interrompidas por medo.

Recordou o amor que não declarou por receio de alterar a harmonia frágil das circunstâncias, recordou o amigo cujo número ficou esquecido na agenda até se tornar silêncio definitivo, recordou o pai, com sua autoridade áspera e seus afetos mal pronunciados, e compreendeu, com uma lucidez que doía como uma verdade tardia, que não fora o tempo o grande responsável por suas ausências, mas a delicada covardia de preferir o confortável ao autêntico, a rotina ao risco, o previsível ao pulsante.

Era como viver numa casa fechada por dentro, as janelas bem pintadas, as cortinas limpas, os móveis alinhados segundo uma lógica impecável, mas com o ar rarefeito, pesado de respirações contidas, e ele percebeu que vinha habitando esse espaço havia anos, evitando abrir as portas para que o vento não desarrumasse as certezas que o mantinham funcional, respeitável, inteiro aos olhos do mundo, ainda que por dentro já houvesse rachaduras invisíveis como as fissuras que antecedem o desmoronamento silencioso de uma parede antiga.

A cidade seguia seu ritmo indiferente, ônibus engolindo passageiros, vitrines refletindo rostos anônimos, relógios avançando com a disciplina dos que não duvidam do próprio destino, e ele, sentado ali, experimentava a estranha sensação de estar atrasado para a própria vida, como se tivesse comparecido a todos os compromissos externos e faltado justamente ao encontro essencial consigo mesmo.

Então, num gesto quase imperceptível, levou finalmente o café aos lábios e bebeu aquele frio acumulado, aceitando o sabor amargo como quem aceita uma revelação que não pode mais ser adiada, e ao pousar a xícara sentiu que algo dentro dele se movia, não uma revolução ruidosa, mas uma decisão mínima, a lembrança de um número ainda possível, de uma palavra ainda pronunciável, de uma porta que talvez pudesse ser aberta sem que a casa desmoronasse.

E ali, naquele instante modesto que ninguém registraria, compreendeu que o heroísmo contemporâneo talvez não esteja nos grandes feitos, mas na coragem íntima de interromper o automático, de telefonar para quem ainda pode ouvir, de declarar um amor antes que ele se transforme em ruína elegante, de respirar fundo e permitir que o vento entre, mesmo que levante poeira, mesmo que revele o que estava escondido, porque viver, afinal, não é manter a casa intacta, é suportar o movimento das estações dentro do próprio peito e ainda assim escolher abrir as janelas.

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