Como o caso do cão Orelha, morto brutalmente em Florianópolis, virou símbolo da luta contra maus-tratos
Orelha tinha 10 anos e foi levado a uma clínica veterinária para receber tratamento, porém seus ferimentos eram muito sérios e ele precisou ser submetido a uma eutanásia. Foto: Reprodução/Redes sociais
A morte do cão comunitário Orelha, na Praia Brava, em Florianópolis, ultrapassou os limites de um crime local e se transformou em um símbolo nacional da luta contra os maus-tratos a animais. O caso, ocorrido no início de janeiro, provocou forte comoção, mobilizou protestos em diversas cidades do Brasil e passou a impulsionar debates sobre violência, responsabilização de adolescentes e a proteção legal de animais comunitários.
Orelha — também conhecido como Preto — vivia há cerca de dez anos na região. Sem tutor fixo, era cuidado coletivamente por moradores, comerciantes e pescadores. Circulava livremente pelo bairro, acompanhava a rotina da praia e era reconhecido como parte da identidade local. Para a comunidade, não era apenas um cachorro, mas um integrante do cotidiano.
A agressão e a morte
No dia 4 de janeiro, Orelha foi encontrado gravemente ferido, agonizando, próximo a veículos estacionados na Praia Brava. Ele foi socorrido por moradores e levado a atendimento veterinário, mas não resistiu aos ferimentos e morreu no dia seguinte. Laudos periciais apontaram lesão contundente na cabeça, causada por objeto rígido, descartando a hipótese de acidente.
A Polícia Civil de Santa Catarina passou a investigar o caso e identificou quatro adolescentes como suspeitos iniciais de envolvimento nas agressões. As apurações incluíram oitivas de mais de 20 testemunhas, análise de cerca de mil horas de imagens de câmeras de segurança e apreensão de celulares para extração de dados.
Com o avanço da investigação, a participação de um dos adolescentes foi descartada, e ele passou a ser tratado como testemunha. Os demais seguem sendo investigados por possível ato infracional, conforme os procedimentos previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que impede a divulgação de nomes ou imagens.
Coação e novos desdobramentos
Paralelamente à apuração das agressões, a Polícia Civil abriu um inquérito específico para investigar denúncias de coação no curso do processo. Três adultos — dois pais e o tio de um dos adolescentes — foram indiciados sob suspeita de intimidar um porteiro de condomínio que havia relatado conflitos anteriores com os jovens.
Segundo a investigação, o objetivo da suposta coação seria impedir que informações fossem repassadas às autoridades. O inquérito envolvendo os adultos já foi concluído e está sob análise do Ministério Público de Santa Catarina. Já a apuração dos atos infracionais atribuídos aos adolescentes segue em andamento.
As investigações também apuram um segundo episódio de maus-tratos envolvendo outro cachorro comunitário, conhecido como Caramelo, que teria sido levado ao mar em uma tentativa de afogamento, mas conseguiu escapar.
Mobilização e protestos pelo Brasil
A morte de Orelha provocou uma onda de indignação que levou milhares de pessoas às ruas. No domingo (1º), manifestações ocorreram em Florianópolis, São José, Criciúma, Balneário Camboriú, Blumenau e outras cidades catarinenses, além de capitais como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.
Com cartazes, faixas e imagens do animal, os manifestantes pediram justiça, punição aos responsáveis e políticas públicas mais rígidas contra crimes de maus-tratos. Em muitos atos, Orelha foi lembrado como um símbolo da violência silenciosa sofrida por animais em todo o país.
Repercussão nacional e debate público
O caso ganhou espaço nas redes sociais, em veículos de comunicação e entre ativistas da causa animal. A exposição nacional ampliou o debate sobre os limites da responsabilização de adolescentes, o papel das famílias, a atuação do Estado e a necessidade de respostas mais efetivas contra crimes dessa natureza.
Uma reportagem exibida em rede nacional no último domingo trouxe novos detalhes da investigação e reacendeu discussões sobre o caso. A abordagem adotada, no entanto, dividiu opiniões e gerou críticas de ativistas e internautas, que cobraram uma postura mais firme diante da gravidade dos fatos. A repercussão evidenciou a tensão entre a comoção social e os limites legais que envolvem investigações com menores de idade.
Mudanças impulsionadas pelo caso
Em meio à repercussão, o governo de Santa Catarina sancionou a Lei nº 19.726, que institui a Política Estadual de Proteção e Reconhecimento do Cão e Gato Comunitário. A legislação reconhece oficialmente animais cuidados coletivamente e reforça a responsabilidade do poder público e da sociedade na proteção desses animais.
Na Praia Brava, o espaço onde Orelha costumava circular se transformou em ponto de homenagem. Flores, velas e mensagens lembram o cachorro que, em vida, era parte da rotina local e que, após a morte, passou a representar uma causa maior.
Enquanto as investigações seguem e respostas definitivas ainda são aguardadas, o caso do cão Orelha permanece como um marco no debate nacional sobre maus-tratos a animais. Para muitos, ele deixou de ser apenas uma vítima e se tornou um símbolo da cobrança por justiça, empatia e mudança.
AGF
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