GAZETA PERNAMBUCANA – EDITORIAL – Banco Master e STF: se a confiança pública ranger, o descrédito define a sentença

O Brasil anda como quem atravessa uma ponte antiga: a estrutura ainda está de pé, mas cada passo faz a madeira gemer. E quando a ponte geme, não é a água que ameaça, é a dúvida. Dúvida sobre quem decide, por que decide, e se a decisão, no fim, chega limpa ao outro lado.

O caso Banco Master ultrapassou o campo financeiro e entrou na zona mais sensível da República: a confiança nas instituições. A saída do ministro Dias Toffoli da relatoria do caso no Supremo Tribunal Federal, após a Polícia Federal relatar referências ao seu nome em dados extraídos do celular de Daniel Vorcaro, controlador do banco, é um episódio que exige sobriedade. Toffoli nega relação e nega recebimento de valores. Ainda assim, afastou-se. E o STF publicou nota coletiva de apoio, afirmando não haver impedimento legal e preservando os atos já praticados.

Nada disso, por si só, condena ou absolve quem quer que seja. Mas revela com nitidez o que está em jogo: um tribunal não vive apenas da correção formal de suas decisões; vive também da confiança pública de que elas são tomadas sem sombra. Quando o relator de um caso sensível se torna objeto de menções em material investigativo — ainda que tais menções precisem ser contextualizadas e provadas — o dano institucional nasce menos da certeza e mais da suspeita. E suspeita, no ambiente político brasileiro, costuma virar arma antes de virar prova.

É necessário rigor também com a informação que circula. O debate público foi inflado por reportagens que citam valores na casa de R$ 20 milhões em contextos distintos: ora vinculados a estruturações de investimento envolvendo empreendimento no Paraná, ora associados a relatos e mensagens que mencionariam pagamentos a empresa ligada a familiares do ministro. A apuração precisa separar, com método, o que é aporte societário, o que é conversa, o que é ilação e o que é prova documental com trilha financeira. Sem isso, o país vira refém do boato e o processo vira refém da política.

Ao publicar uma nota coletiva, o Supremo tentou conter o incêndio. A questão é que a coesão interna não é resposta suficiente para uma crise externa de confiança. Uma declaração unânime pode fortalecer o tribunal por dentro, mas não substitui transparência possível, explicação clara e prudência real. Em tempos de erosão institucional, o que parece blindagem pode soar como distância — e distância, na Justiça, custa caro.

O que a democracia exige agora é simples e difícil: respeito ao devido processo, relatoria livre de ruído e decisões capazes de resistir à política e ao tempo. Não se trata de ceder à gritaria nem de proteger a toga por instinto corporativo. Trata-se de preservar o julgamento de um veneno antigo: a impressão de que a Justiça escolhe seus alvos e seus escudos.

O caso Banco Master seguirá. A investigação ainda produzirá fatos. E é precisamente por isso que o Supremo precisa conduzir este processo como quem sustenta a parte mais frágil da ponte: com técnica, prudência e transparência compatível com o interesse público. Porque, se a confiança pública ranger, o descrédito define a sentença antes do último voto.

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