Quando ama, o coração espera. Por Flávio Chaves
Jornal GAZETA PERNAMBUCANA
Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc – Há uma hora em que o mundo se retira devagar, como um velho pássaro ferido que recolhe as asas para dormir. Não há mais passos nas ruas, nem vozes nas janelas. Só o silêncio. Um silêncio espesso, vivo, quase sagrado, que pousa sobre os móveis da casa, como uma camada invisível de poeira antiga. E é nessa hora — quando o tempo se desfaz do próprio tempo — que começa a espera.
A espera, sim, essa criatura estranha que mora no corpo como se fosse carne, que não tem nome certo, nem forma precisa, mas que se deita no peito e pulsa. Ela não pede licença. Vem e se instala. Como uma música que ninguém cantou, mas que a alma inteira reconhece.
No silêncio da noite, a espera ganha contornos de eternidade. Tudo que era urgente se dissolve, tudo que era claro escurece, e os olhos, mesmo fechados, vigiam. Há uma vigília que não é dos olhos, mas da alma, uma vigília que se move em círculos lentos ao redor do nome amado, como se repetir um nome em silêncio fosse a forma mais delicada de oração.
O coração, então, torna-se uma casa com janelas abertas para o escuro, e cada sombra que passa parece ser o passo de quem nunca chega. Há uma ternura exausta em esperar. Uma beleza oculta na fidelidade de quem, mesmo cansado, continua acendendo pequenas luzes na escuridão. Não por esperança, mas por amor.
Porque esperar, quando se ama, é um gesto íntimo e solene, é como segurar a mão de alguém que está ausente, é cultivar um jardim que talvez ninguém veja florescer, é escrever cartas que talvez nunca sejam lidas. Mas ainda assim, se escreve. Ainda assim, se rega. Ainda assim, se espera. Porque há em certos silêncios uma linguagem secreta que só os que amam de verdade compreendem.
E nessa linguagem, tudo é feito de suspiros que não escapam, de palavras que não precisam ser ditas, de gestos invisíveis que tocam o infinito. A espera transforma o corpo num templo e o tempo numa oferenda.
Quem espera na noite não dorme, mas também não vive como os outros. Flutua entre o que foi e o que poderia ter sido, entre a ausência que dói e a presença imaginada que acalma. E nesse lugar suspenso, nesse intervalo entre duas batidas do coração, há uma beleza feroz e melancólica, como a de um pássaro que canta para a escuridão sem esperar resposta.
E talvez seja isso. Amar é cantar mesmo quando não há ouvidos. Esperar é permanecer, mesmo quando o tempo já se foi. Vigiar em silêncio é ofertar ao outro a única coisa que ainda nos pertence: a nossa fidelidade secreta, feita de silêncio, de sombra e de luz.
Assim a noite passa. E a espera permanece. Como uma oração sussurrada ao vento que não responde, mas ouve.
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