GAZETA PERNAMBUCANA – O olhar exilado da primavera. Por Flávio Chaves

Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc  – Houve um tempo em que o ano tinha quatro portas e, ao abri-las, o mundo se completava. A realidade parecia precisar desse ritual para não enlouquecer. Mas agora uma dessas portas foi fechada por dentro, sem chave do lado de fora. E o calendário, obediente e mudo, passou a funcionar com três estações. Não por capricho do clima, mas por uma espécie de amputação secreta, como se a própria natureza tivesse desaprendido a delicadeza de recomeçar.

Não é que a primavera tenha sido adiada. Ela foi retirada. E retiradas assim não deixam ruínas visíveis. Deixam um vazio que altera tudo o que ainda permanece.

As coisas continuam no lugar. As árvores continuam erguidas, os canteiros continuam desenhados, o vento continua passando. Mas aquilo que fazia o verde ser promessa, e não apenas pigmento, já não visita mais o mundo. A primavera, que era quase um ser, desses seres sem nome e sem documento, reconhecível pelo modo como a luz amolece a tarde e como o ar aprende a sorrir sem rosto, partiu.

E na partida ficou um silêncio que não é ausência de som. É ausência de sentido.

Existem acontecimentos invisíveis que modificam a paisagem sem tocar na paisagem. Como se alguém colocasse um véu finíssimo sobre a visão das coisas. Esse véu não escurece de uma vez. Ele vai ensinando a sombra a ocupar espaços cada vez maiores, com paciência, com uma crueldade tranquila.

Então as flores, que sempre foram uma espécie de excesso do mundo, um luxo que a matéria se permite para confessar que não é só matéria, começam a se afastar. Primeiro pelo detalhe, pelo contorno, pela nervura, pela delicadeza que não grita. Até que um dia se percebe: o jardim ainda existe, mas está longe. Como se estivesse do outro lado de um vidro sem transparência. E as cores, antes tão próximas que quase sujavam os dedos, passam a ser lembranças de cor, ideias de cor, rumores.

O problema não é a flor morrer. A flor sempre morre, e nisso há uma sabedoria antiga: a beleza sabe ser breve sem se ofender. O problema é a flor continuar viva e, mesmo assim, tornar-se inacessível. Como uma carta escrita em tinta clara. Como um rosto amado visto através de água turva. Como se a própria vida decidisse preservar as coisas e, ao mesmo tempo, impedir o encontro.

O jardim, nessa condição, vira um território de saudade sem objeto. Porque a saudade costuma ter um corpo para se agarrar. Aqui ela se agarra no ar. Aprende a desejar aquilo que ainda está presente. E esse é um tipo de dor que não encontra lugar para repousar.

Quando a primavera vai embora, não leva apenas as flores. Leva o modo de olhar para elas. Leva a capacidade de ser surpreendido pelo pequeno, pelo inútil, pelo belo que não serve para nada além de salvar o dia de ser apenas um dia.

A primavera é uma professora silenciosa. Ela ensina que o mundo pode ser renovação, e não somente repetição. Quando ela é arrancada do ano, o tempo perde a sua curva de doçura. Fica mais reto, mais funcional, mais duro. Três estações bastam para o relógio. Para o espírito, não.

Sem a primavera, o outono deixa de ser transição e vira aviso. O inverno estica sua sombra com a autoridade de quem sabe que não será desmentido. E o verão, por mais luminoso que seja, começa a parecer um brilho sem ternura, uma claridade que não acaricia, apenas expõe.

A ausência da primavera muda até o modo como a luz cai sobre os objetos. Porque a luz, sem ela, perde a vocação de revelar e se contenta em iluminar. E iluminar é pouco quando se sabe o que é revelar.

Não se fala disso em voz alta. Há perdas que não aceitam nome. Há perdas que ficam mais profundas quando são explicadas, como se a explicação fosse um segundo abandono. Então a perda se disfarça em metáfora. Protege-se dentro de imagens, como um animal ferido que se esconde na mata para não oferecer seu sangue ao olhar de ninguém.

Diz-se que o mundo está estranho. Que o jardim parece distante. Que as flores são menos flores. Que a estação não veio. E tudo isso é verdade, porque o olhar também é uma estação. E quando o olhar começa a se despedir, mesmo sem partir de uma vez, a primavera percebe e se recolhe, como se não quisesse ser vista pela metade.

A tristeza aqui não é dramática. É lenta. Cotidiana. Feita de pequenos desencontros. Tentar tocar uma pétala e sentir apenas a ideia de maciez. Respirar um perfume e receber apenas o rumor de um perfume. Saber que o jardim ainda floresce, mas floresce em outra margem.

As flores do jardim não precisam morrer para que o jardim se torne deserto. Basta que a primavera não seja mais alcançável. Basta que a visão do belo se transforme numa lembrança do belo.

E então, sem alarde, instala-se o inverno da saudade. Não o inverno que cai do céu em forma de frio, mas o inverno que nasce quando a beleza não encontra mais olhos para acontecer. O jardim continua lá, intacto. Mas o caminho até ele, esse caminho invisível, parece ter sido retirado com uma delicadeza cruel.

E talvez seja essa a lição mais dura, e mais útil, deste tempo: a primavera não é apenas uma estação do ano, é uma forma de presença. Quando ela falta, o mundo segue funcionando, sim, mas funcionando com menos alma. Por isso, a tarefa de quem atravessa o escurecimento das coisas não é apenas esperar que as flores voltem, nem exigir do calendário um recomeço automático; é reaprender, com humildade e coragem, o ofício de revelar. Porque, no fim, não é o jardim que pede salvação, é o olhar. E todo olhar que insiste, mesmo entre véus, ainda está tateando a sua primavera.

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