EDITORIAL – Quando roubam aposentados, levam mais que dinheiro: levam remédio, comida e vidas

GAZETA PERNAMBUCANA – Existem crimes que não entram pela janela, não arrombam portas e não apontam armas. Entram pelo sistema, pelo contrato, pela senha, pelo desconto automático e pela assinatura que muitos aposentados sequer compreendem. São crimes limpos na aparência, mas sujos na consequência. E quando atingem aposentados e pensionistas, não levam apenas dinheiro. Levam remédio, comida, paz e, muitas vezes, vidas.

O escândalo envolvendo descontos indevidos em benefícios do INSS precisa ser tratado pelo nome que merece no julgamento moral da sociedade: um ataque cruel contra pessoas vulneráveis. Tecnicamente, as investigações podem falar em fraude, corrupção, lavagem, organização criminosa ou irregularidades financeiras. Mas, para o aposentado que abriu a conta e encontrou menos dinheiro para comprar seus medicamentos, isso tem outro nome: roubo.

O Ministério Público Federal fez recomendações para garantir a devolução de recursos a aposentados e pensionistas no caso Banco Master. A CPMI do INSS também passou a investigar contratos e descontos relacionados ao banco. Segundo informações levadas ao Congresso, há suspeitas envolvendo milhares de contratos de crédito consignado e descontos não autorizados em benefícios previdenciários.

É preciso dizer com clareza: aposentadoria não é sobra. É sobrevivência. Aquele dinheiro, muitas vezes pequeno, sustenta a feira, a farmácia, o aluguel, a conta de luz e a ajuda ao neto desempregado. Quem mexe nesse recurso não ataca uma planilha; ataca a dignidade de uma vida inteira de trabalho.

No Brasil, o pobre que leva um pacote de arroz é chamado de ladrão antes mesmo da sentença. Já os poderosos que operam esquemas milionários costumam aparecer protegidos por palavras frias: “suspeitos”, “investigados”, “beneficiários”, “operadores”, “intermediários”. A lei exige cautela, e ela deve existir. Mas a moral pública exige coragem. E coragem é não suavizar a dor de quem foi lesado.

A Gazeta Pernambucana entende que toda investigação deve respeitar o devido processo legal. Ninguém deve ser condenado sem prova, defesa e julgamento. Mas também entende que o país não pode tratar o sofrimento dos aposentados como nota de rodapé. O dinheiro desviado ou descontado indevidamente de um idoso não é apenas um valor bancário. É um comprimido que deixou de ser comprado. É uma consulta adiada. É uma geladeira vazia. É uma noite de angústia.

Pernambuco conhece bem essa realidade. Do Recife ao Sertão, há milhares de idosos que vivem contando moedas, escolhendo entre remédio e comida, entre pagar uma conta ou comprar um botijão de gás. Para essa gente, qualquer desconto indevido é uma violência. Não sangra na hora, mas fere por dentro.

Por isso, é dever das autoridades apurar até o fim, identificar responsáveis, recuperar valores e punir quem usou a fragilidade dos aposentados como oportunidade de negócio. Não basta devolver parte do dinheiro. É preciso devolver confiança. Não basta abrir CPI. É preciso produzir consequência. Não basta indignar o país por alguns dias. É preciso impedir que o esquema se repita com outro nome, outro banco, outra associação ou outro operador.

Quando roubam aposentados, não roubam apenas do presente. Roubam o descanso de quem trabalhou a vida inteira. Roubam a segurança de quem já não tem força para recomeçar. Roubam o direito de envelhecer com dignidade.

E um país que permite isso sem reagir com firmeza perde mais do que dinheiro público. Perde humanidade.

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