A fogueira que a chuva não apaga — Parte II – Por Flávio Chaves

Os amores que ainda dançam no escuro da memória     

Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc  –   Quando os palhoções se armavam nas praças, nos colégios, nos terrenos baldios das ruas antigas e nos cantos das comunidades onde o mês de junho parecia levantar uma cidade dentro da própria cidade, feita de madeira, palha, bandeirolas, cheiro de milho, chão varrido, lâmpadas penduradas e esperança acesa, ninguém imaginava que, por trás daquela aparente brincadeira de quadrilha, da noiva de vestido remendado, do noivo envergonhado, do padre improvisado, do juiz de mentira, do delegado de chapéu torto e dos gritos ensaiados de “olha a chuva”, “é mentira”, “olha a cobra”, “é mentira”, existia uma delicada conspiração da vida para aproximar corações que talvez nunca tivessem coragem de se procurar fora daquele terreiro encantado onde tudo parecia permitido, inclusive o milagre de uma mão tocar a outra e, no susto do passo marcado, nascer uma paixão que ninguém sabia explicar.

Foi assim que muita gente amou pela primeira vez, sem entender direito se aquilo era amor, alegria, nervosismo, febre ou destino; bastava o conjunto de forró começar a tocar no canto do palhoção, com a sanfona puxando a noite pela cintura, a zabumba batendo como se fosse o coração da terra e o triângulo riscando no ar uma estrela miúda, para que os meninos e meninas de ontem, vestidos de matutos, sinhazinhas, noivas e cavalheiros de fita no chapéu, se encontrassem no meio da roda e descobrissem que o mundo podia caber inteiro no breve caminho entre um sorriso tímido e um olhar demorado, entre um passo trocado e um pedido quase inaudível para dançar mais uma música, entre a vergonha de ser visto e o desejo secreto de nunca mais sair dali.

Quantos amores começaram assim, Flávio, debaixo de bandeirolas que tremiam ao vento como se também sentissem frio na barriga; quantas promessas foram feitas sem palavras, apenas no aperto suave dos dedos, no balanço do xote, no giro desajeitado da quadrilha, no “anarriê” que afastava os corpos por um instante e no “balancê” que devolvia os dois ao mesmo compasso, como se a própria festa dissesse aos apaixonados que amar é isso mesmo, um ir e vir permanente, uma aproximação e uma fuga, uma música que chama e uma vida que, às vezes, leva para longe justamente aquilo que o coração mais queria segurar.

Alguns daqueles pares seguiram juntos para além do São João, atravessaram outros meses, outras chuvas, outros carnavais, cresceram, mudaram de roupa, perderam a fantasia junina, mas conservaram na alma a lembrança daquele primeiro encontro iluminado por uma fogueira; namoraram na calçada, trocaram cartas, esperaram na porta da escola, juraram amor eterno em praças onde hoje talvez passem carros apressados, casaram-se de verdade diante de padre, juiz, testemunhas e família, como se aquele casamento inventado da quadrilha tivesse sido apenas o ensaio inocente de uma história que Deus, o tempo e o desejo resolveram escrever com tinta mais séria.

Outros, porém, ficaram pelo caminho, e talvez sejam esses os que mais doem na memória, porque não se despediram com explicação, não brigaram com motivo, não terminaram com sentença clara, apenas foram se perdendo na mudança dos endereços, na transferência de escola, na viagem da família, no emprego que apareceu longe, na carta que nunca chegou, no telefonema que não foi feito, no orgulho que calou o pedido de volta, na vida que abriu uma rua entre dois destinos e empurrou cada um para uma margem diferente, deixando no meio apenas a lembrança daquele forró antigo onde um dia dançaram tão juntos que chegaram a acreditar, com a fé ingênua dos primeiros amores, que ninguém no mundo teria força para separá-los.

Existe uma tristeza muito doce nesses amores juninos que não chegaram ao altar da vida, mas foram casados por alguns minutos no teatro sagrado da festa, diante de um padre improvisado que talvez nem soubesse a importância do papel que representava, de um juiz menino que batia na mesa como se decretasse sentenças eternas, de convidados rindo, de colegas aplaudindo, de mães emocionadas com a beleza simples dos filhos fantasiados, e de dois corações que, mesmo brincando, sentiram por um instante que aquilo podia ser verdade, que aquela cerimônia de mentirinha talvez revelasse um segredo escondido nas dobras do destino, que aquele par escolhido pela professora, pela vizinha organizadora ou pelo acaso tinha alguma coisa de providência, de presságio, de delicada anunciação.

Mas o tempo, esse grande dançarino sem piedade, muda o ritmo quando menos se espera; transforma palhoções em estacionamentos, ruas de terra em avenidas, colégios antigos em fotografias amareladas, conjuntos de forró em gravações guardadas no fundo de uma pasta digital, e aqueles rostos que um dia brilharam à luz da fogueira passam a existir apenas no território misterioso da lembrança, onde ninguém envelhece completamente, onde a menina de tranças continua sorrindo no meio da quadrilha, onde o rapaz de camisa xadrez ainda procura coragem para segurar sua mão, onde a música nunca termina e onde o amor, mesmo perdido, permanece dançando como se ignorasse a notícia da própria despedida.

Talvez cada pessoa carregue dentro de si um arraial que ninguém vê; um palhoção íntimo, iluminado por lâmpadas antigas, onde ainda tocam os forrós que embalaram suas primeiras esperanças, onde ainda circulam os rostos de quem partiu, de quem ficou, de quem prometeu voltar, de quem nunca explicou a ausência, de quem amou demais e de quem teve medo de amar o suficiente; nesse lugar secreto, os amores que sobreviveram dançam abraçados com os amores que se perderam, as histórias concluídas dividem o mesmo terreiro com as inacabadas, e a alma, feito sanfoneiro cansado, puxa de vez em quando uma melodia triste, não para ferir, mas para lembrar que até a dor, quando nasce de um amor verdadeiro, tem uma forma estranha de ternura.

Porque amar, no fundo, é também participar de uma grande quadrilha da existência, onde a vida chama, empurra, aproxima, separa, troca os pares, manda avançar, manda recuar, anuncia chuva, desmente a chuva, inventa cobra, ri do susto da gente e, quando percebemos, já estamos em outro lugar, segurando outras mãos, pisando outros chãos, tentando seguir a marcação de uma música que nunca dominamos completamente; e talvez o desespero de amar e se perder venha exatamente disso, dessa descoberta de que ninguém possui para sempre o corpo que abraça, a voz que promete, o olhar que acende, o par que dança, porque tudo o que é humano, por mais bonito que seja, vive entre o desejo de permanência e a fragilidade da despedida.

Ainda assim, benditos sejam os amores que nasceram nos palhoções de junho, mesmo os que não duraram, mesmo os que se dissolveram sem explicação, mesmo os que foram desfeitos pela distância, pela pressa, pela imaturidade, pelo silêncio ou por essa força invisível que às vezes desata os laços sem pedir licença ao coração; benditos sejam porque, durante uma música, uma noite, uma festa, uma juventude ou uma vida inteira, eles ensinaram a alguém que o peito podia bater mais forte, que a mão podia tremer de felicidade, que um olhar podia abrir uma estrada, que uma dança podia virar destino, e que certas pessoas, mesmo ausentes para sempre, continuam morando em nós como uma fogueira pequena, protegida da chuva pelas duas mãos da saudade.

E quando junho retorna, com seus palhoções, seus conjuntos de forró, suas bandeirolas, suas comidas de milho, suas ruas enfeitadas, seus casamentos matutos e suas quadrilhas escolares, não é somente a festa que volta; voltam também os nomes que não pronunciamos mais, os rostos que evitamos procurar nas redes, os bilhetes que se perderam, os retratos que ficaram nas gavetas, os perfumes confundidos com a memória, os passos que demos com alguém e nunca mais conseguimos repetir do mesmo jeito com ninguém.

Porque existem amores que acabam no mundo, mas não acabam dentro da gente.

Eles apenas mudam de endereço.

Saem da casa, da rua, da rotina, do abraço, da promessa, da presença.

E vão morar, silenciosos e eternos, no palhoção iluminado da nossa saudade.

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