Quando uma pessoa se torna nossa pátria. Por Flávio Chaves

Há amores cuja perda não nos deixa apenas sem alguém: deixa-nos estrangeiros dentro da própria vida

Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/MinC –  Passei os últimos dias diante de uma parte considerável dos arquivos de um romance que escrevo há muitos anos, procurando entre mensagens antigas, capítulos interrompidos, versões que se multiplicaram ao longo do tempo, personagens que nasceram de súbito e permaneceram esperando que eu regressasse para concluir seus destinos, cenas que julgava perdidas e frases que, embora adormecidas em documentos esquecidos, ainda conservavam a temperatura emocional do instante em que foram escritas. Não era apenas um escritor examinando o próprio acervo para decidir o que deveria permanecer, o que precisava ser reorganizado e quais caminhos conduziriam o livro à sua forma definitiva. Era um homem regressando a uma casa abandonada sem jamais ter deixado verdadeiramente de morar nela, abrindo portas que o tempo não conseguira fechar e descobrindo, em cada aposento da memória, alguma coisa que ainda respirava.

O romance chama-se O Beijo Subversivo, mas, durante muito tempo, não compreendi inteiramente a dimensão do que havia depositado dentro dele. Sabia que Gaspar e Violeta carregavam uma história de amor atravessada pela beleza, pela violência das circunstâncias, pela interferência de pessoas incapazes de suportar a felicidade alheia e pela dor de uma separação que não significava o fim do amor, mas a impossibilidade de vivê-lo em sua plenitude. Sabia que Gaspar se tornaria um andarilho e que sua caminhada pelo mundo não seria uma aventura geográfica, mas a consequência exterior de uma devastação íntima. Entretanto, somente agora, ao reencontrar a substância orgânica de tantas páginas e perceber que a literatura havia preservado aquilo que a vida não conseguiu conservar, encontrei a formulação que talvez explique não apenas o destino do personagem, mas uma parte decisiva de minha própria existência: Violeta tornou-se a pátria perdida de Gaspar porque foi o único lugar humano onde sua alma deixou de se sentir estrangeira. Quando a perdeu, ele não ficou apenas sem a mulher amada; ficou exilado dentro da própria vida.

Existem pessoas que passam por nós como quem atravessa uma estação e desaparece com o trem seguinte, deixando apenas uma lembrança suave, uma fotografia ocasional, uma frase que o pensamento recupera sem que o coração se desorganize. Outras, porém, não passam: entram em nossa geografia interior, modificam o curso dos rios, dão nome às montanhas, acendem luzes nas cidades secretas de nossa alma e transformam-se no território onde reconhecemos, talvez pela primeira vez, o sentimento de pertencimento. Ao lado delas, não precisamos pedir licença para existir, explicar excessivamente nossos silêncios ou disfarçar as fragilidades que o mundo costuma utilizar contra nós. Podemos repousar. E repousar em alguém, quando a vida inteira nos obrigou a permanecer vigilantes, é uma das formas mais profundas do amor.

Foi assim que compreendi que uma pessoa pode tornar-se nossa pátria. Não a pátria oficial dos mapas, das bandeiras, dos hinos e das fronteiras defendidas por soldados, mas uma pátria mais antiga e essencial, formada pela intimidade, pela confiança, pelo desejo, pela linguagem compartilhada e pelo reconhecimento de que existe no mundo alguém diante de quem não somos estrangeiros. Essa pátria pode caber num abraço, numa conversa atravessando a madrugada, numa mesa de bar onde duas mãos se procuram, no escuro de um cinema, numa ponte iluminada sobre o rio ou no interior de um automóvel onde um homem, sem possuir qualquer riqueza extraordinária, oferece simbolicamente a lua à mulher que ama. O território amoroso não é medido por quilômetros; mede-se pela extensão da paz que uma presença consegue abrir dentro de nós.

Quando essa pessoa nos é arrancada, não perdemos apenas a companhia, os encontros, os projetos e a possibilidade cotidiana de pronunciar seu nome esperando uma resposta. Perdemos também a versão de nós mesmos que somente existia ao lado dela. Há gestos que nunca mais repetiremos da mesma maneira, palavras que perderão uma parte de seu sentido, lugares que continuarão fisicamente intactos, embora tenham sido destruídos pela ausência, e canções que, mesmo executadas muitos anos depois, ainda saberão abrir dentro do peito a porta exata pela qual a saudade entra. Continuamos vivendo, é verdade, porque o corpo possui uma fidelidade quase brutal à sobrevivência, mas alguma coisa em nós passa a caminhar sem endereço, carregando a chave de uma casa à qual já não se pode regressar.

Talvez essa seja a diferença mais profunda entre a solidão e o exílio. A solidão é estar sem alguém; o exílio é continuar pertencendo a um lugar que se tornou inalcançável. O solitário ainda pode procurar companhia, estabelecer novos laços e descobrir outras formas de presença, mas o exilado sabe que nenhum território substitui completamente aquele de onde foi afastado. Ele pode atravessar países, aprender o rumor de outras cidades, dormir sob tetos desconhecidos, conversar com pessoas generosas e contemplar paisagens que jamais imaginou conhecer, mas haverá sempre uma parte de sua alma voltada para a fronteira fechada daquilo que perdeu. Não procura necessariamente retornar, porque muitas vezes sabe que o retorno se tornou impossível; procura apenas algum lugar onde a ausência doa menos.

É por isso que Gaspar caminha. O andarilho é o corpo percorrendo o mundo; o ser-exílio é a alma caminhando dentro da perda. Por fora, ele atravessa estradas, cidades, estações e países; por dentro, continua circulando ao redor de Violeta, como se toda a sua existência tivesse se transformado numa órbita determinada pela presença ausente daquela mulher. Não é um homem incapaz de seguir adiante, mas alguém que descobriu que seguir adiante não significa abandonar o que verdadeiramente se amou. Há amores que não nos aprisionam ao passado; tornam-se uma luz secreta contra a noite, mesmo quando a mesma luz também revela a extensão das ruínas.

Enquanto recuperava os capítulos do romance, reencontrei pequenas coisas que, vistas de fora, talvez parecessem apenas recursos narrativos: um papagaio chamado Sansão, um homem ridicularizado pelo apelido de Fio-Terra, um radinho artesanal que esconde alianças, uma cachorrinha incumbida de levá-las durante o casamento, um bar onde a música aproximava dois corpos, um filme que se confundia com a descoberta amorosa, uma ponte sobre a qual a lua parecia caber nas mãos de quem desejava oferecê-la. Entretanto, nenhuma dessas coisas era pequena. A memória raramente conserva a vida por meio dos grandes discursos; ela a preserva nos objetos, nos gestos, nos apelidos, nas músicas, nas brincadeiras e nos instantes aparentemente comuns que somente depois da perda revelam a grandeza que possuíam. O amor constrói sua eternidade com materiais modestos.

Diante de tudo isso, compreendi que reorganizar O Beijo Subversivo não seria apenas um trabalho literário. Seria tocar novamente numa história viva, reconhecer as pulsações que permaneceram dentro das palavras e devolver continuidade ao que a dor havia espalhado em diferentes arquivos, tempos e versões. Cada capítulo recuperado parecia trazer consigo não apenas um pedaço do romance, mas alguma coisa de mim que permanecera esperando naquele lugar. Havia momentos em que eu já não sabia se estava salvando o livro do esquecimento ou se era o livro que, ao devolver-me certas lembranças, estava salvando de algum esquecimento uma parte de minha própria vida.

Perder Violeta foi uma das dores mais profundas que experimentei, e não escrevo isso como quem procura ornamentar a saudade ou construir uma imagem literária para impressionar o leitor. Ainda hoje dói. O tempo modificou a superfície dessa dor, ensinou-me a conviver com ela, cobriu algumas de suas feridas com os compromissos, as responsabilidades e os movimentos inevitáveis da existência, mas não conseguiu retirar dela sua verdade fundamental. Algumas dores envelhecem conosco sem se tornarem menores; apenas aprendem a falar mais baixo. Em certas noites, porém, recuperam a voz antiga e nos chamam pelo nome que possuíamos quando ainda acreditávamos que determinados futuros seriam possíveis.

Talvez alguém pergunte por que regressar a tudo isso, por que abrir novamente os arquivos, reconstruir cenas, restaurar diálogos e tocar numa matéria capaz de despertar tamanha emoção. A resposta é que esquecer não é a única maneira de sobreviver. Algumas pessoas sobrevivem afastando-se daquilo que as feriu; outras precisam transformar a ferida em linguagem para que a dor deixe de ser apenas sofrimento e adquira uma forma capaz de atravessar o tempo, alcançar outras pessoas e dizer-lhes que não estiveram sozinhas em seus próprios exílios. Escrever não ressuscita o passado nem restitui a convivência perdida, mas pode oferecer uma morada àquilo que, sem a literatura, permaneceria condenado a vagar dentro de nós.

É possível que essa seja a função mais íntima de O Beijo Subversivo: construir, por meio da palavra, a casa que a realidade tornou impossível. Não uma casa destinada a negar a perda, mas a acolhê-la; não um monumento imóvel erguido para aprisionar Violeta, mas um território vivo onde o amor possa conservar sua dignidade, sua beleza, sua sensualidade, seus conflitos, sua alegria e sua dor. A literatura não devolverá Gaspar à pátria que perdeu, mas impedirá que essa pátria desapareça completamente. Enquanto houver uma página, uma lembrança, uma frase e alguém disposto a ler, alguma janela continuará acesa.

Hoje sei que o exílio não começa necessariamente quando um homem é expulso de sua terra. Às vezes, começa quando lhe arrancam a pessoa diante de quem ele finalmente havia encontrado um lugar no mundo. Desde então, ele pode continuar morando na mesma casa, andando pelas mesmas ruas, encontrando os mesmos amigos e realizando os gestos habituais da vida, enquanto uma parte secreta de sua alma atravessa desertos, carregando consigo o nome daquela que se tornou sua pátria perdida.

Talvez escrever seja a única forma de regresso que me restou. Não um retorno ao tempo, porque o tempo não devolve aquilo que levou, mas um regresso à substância do amor, àquilo que nenhuma separação conseguiu destruir inteiramente. Volto pelas palavras, atravesso as fronteiras da memória e reconstruo, capítulo após capítulo, a paisagem interior onde um dia minha alma deixou de se sentir estrangeira. E, se a literatura não pode curar toda ausência, ela ao menos realiza este milagre discreto e profundamente humano: oferece permanência ao que a vida tentou transformar apenas em perda.

Violeta tornou-se a pátria perdida de Gaspar. Talvez porque, muito antes de pertencer à literatura, tenha sido o lugar humano onde meu próprio coração reconheceu uma casa. E agora, enquanto escrevo, compreendo que concluir este romance será também recolher o homem exilado que permaneceu caminhando dentro de mim e conduzi-lo, pela única estrada que ainda não lhe foi interditada, de volta ao território indestrutível da palavra.

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