Raimundo Carrero: o artesão e o visionário

Uma cena resume Raimundo Carrero melhor do que qualquer lista de prêmios, a do mestre debruçado sobre uma única frase de Juan Rulfo, lendo-a e relendo-a diante dos discípulos da oficina dezenas de vezes, para mostrar quanto universo um escritor é capaz de comprimir num punhado de palavras. Aquele homem que morreu na madrugada de terça-feira, aos setenta e oito anos, vencido por um câncer, dedicou metade da vida a ensinar com paciência de artesão a arte de erguer uma narrativa de dentro, e construiu em torno desse ensino uma das mais influentes oficinas de criação literária do país, de onde saiu boa parte de uma geração de escritores brasileiros. E no entanto o mesmo homem que conhecia cada encaixe do ofício como um relojoeiro conhece a sua máquina batizou os próprios livros de A minha alma é irmã de Deus, de As Sombrias Ruínas da Alma, de Somos pedras que se consomem, títulos que pertencem menos ao estaleiro do artesão do que ao oratório de um místico. É nessa rara amplitude, e não na enfiada de troféus que os jornais repetirão, que mora o segredo de quem ele foi.

Convém medir primeiro a extensão do magistério, porque ele foi imenso e foi generoso. Em Os Segredos da Ficção e em A Preparação do Escritor, Carrero fez algo que poucos escritores brasileiros tiveram a coragem de fazer, que foi abrir o próprio estaleiro e mostrar ao iniciante como se ergue uma narrativa de dentro, quais as vigas, quais os encaixes, onde a estrutura cede e onde sustenta. Ensinou que a literatura se conquista no trabalho diário, na paciência ardente, no sofrimento luminoso da reescrita, e que o talento sem disciplina se perde como rio sem leito. Formou assim, ao longo de décadas, gerações inteiras de escritores que entraram na sua oficina com o desejo confuso de escrever e saíram dela com o domínio do instrumento, e essa é talvez a sua obra mais vasta, maior até do que a que assinou, porque se multiplicou em mãos alheias.

Seria reduzir Carrero à metade menor de si mesmo, porém, quem o lembrasse apenas como o professor do ofício, porque o escritor que havia nele era de uma estirpe rara, a dos que escrevem como quem reza ou delira. Quem leu A minha alma é irmã de Deus sabe que aquela prosa cerrada, alucinada por momentos, atravessada por uma respiração quase litúrgica, vibra numa frequência que nenhuma técnica sozinha alcança. Pulsa nos seus melhores romances um assombro diante do mistério de existir, uma vertigem do sagrado que vem de muito fundo, de uma região anterior à página, e que faz do leitor não alguém que apenas acompanha uma história, mas alguém que atravessa uma experiência interior densa, por vezes sufocante, sempre inesquecível.

E é no encontro dessas duas forças que está a grandeza singular de Raimundo Carrero, porque o rigor do artesão e a vertigem do visionário, que em quase todos os escritores moram em campos separados e não raro inimigos, nele conviveram e se serviram um ao outro. A disciplina que ele ensinava não era a prisão do assombro, era o seu veículo, a forma cuidadosamente construída para que aquilo que se vê no escuro chegasse inteiro ao leitor do outro lado do tempo. Pois a literatura, para os que a levam tão a sério quanto ele a levou, é o órgão pelo qual a consciência humana se torna suportável e transmissível, a recusa teimosa da espécie diante do silêncio e diante da morte, e Carrero soube como poucos que a emoção mais alta só atravessa de uma alma à outra quando encontra a forma capaz de carregá-la.

O sertanejo de Salgueiro que se contou entre os fundadores do Movimento Armorial trouxe da sua terra a convicção de que a alta literatura e a matéria viva do povo nordestino bebem na mesma fonte, e fez da obra inteira uma ponte entre o que se sente no fundo da alma e o que se constrói à luz da página. Os discípulos que formou receberam dele as duas heranças ao mesmo tempo, a ferramenta e a reverência, o esquadro e o espanto, e por isso a sua permanência não depende das estantes nem da memória curta dos prêmios, mas das mãos que ele ensinou a escrever, forma de imortalidade mais generosa e mais discreta do que qualquer outra.

Quem quiser medir o tamanho do que Pernambuco perdeu na madrugada desta terça-feira não deve procurá-lo apenas nas prateleiras, onde os seus romances esperam os leitores capazes de suportar a sua intensidade, mas também naquela cena do mestre inclinado sobre uma única frase, ensinando que cada palavra pesa e que nenhuma se põe no papel por acaso. Foi assim, juntando o trabalho ao espanto, o esquadro à vertigem, que Raimundo Carrero escreveu e ensinou a escrever, e é assim que ele permanece, não como um nome a mais numa lista de premiados, mas como uma maneira inteira de levar a palavra a sério, que segue viva em cada um que com ele aprendeu. O sertão que ele transformou em literatura continua aqui, intacto, à espera de quem o saiba ouvir.

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