A assimetria da aliança em Pernambuco

Uma manifestação do petismo histórico do Recife reacende a pergunta que a cúpula prefere evitar: na sociedade entre PT e PSB, quem depende de quem dentro de Pernambuco? A resposta, examinada à distância, é menos simétrica do que o discurso oficial sugere.

GAZETA  PERNAMBUCANA – A frase que circulou nas redes na última semana tem a aparência de mais um lance da guerra eleitoral, mas vale a pena reparar em quem a pronuncia antes de classificá-la. Lula não é patrimônio do PSB, diz a peça assinada por um vereador do Recife. O autor, porém, não é adversário externo do campo governista. Osmar Ricardo integra a primeira geração do Partido dos Trabalhadores na capital, tendo participado da comissão provisória que fundou a legenda no Recife nos anos 80, e preside hoje o diretório municipal do partido. Quando alguém com essa biografia afirma que o presidente não pertence ao aliado socialista, o episódio deixa de ser ruído de campanha e passa a ser sintoma, o sintoma de um desconforto que cresce dentro do próprio PT diante da exclusividade que o PSB reivindica sobre a marca lulista no estado.

O desconforto não nasceu agora, mas ganhou contorno nítido no início de junho. O ministro Wellington Dias, coordenador da campanha de reeleição de Lula no Nordeste, afirmou em entrevista ao jornal O Globo que o presidente trabalharia com palanque duplo em Pernambuco, apoiando simultaneamente o ex-prefeito João Campos, do PSB, e a governadora Raquel Lyra, do PSD. A cúpula socialista reagiu com irritação imediata, o próprio Campos procurou o presidente nacional do PT, Edinho Silva, para cobrar desmentido, e dirigentes do partido chegaram a sinalizar que uma divisão do apoio poderia comprometer a aliança nacional. Em menos de vinte e quatro horas, Edinho recuou, garantindo em nota que Lula tem em Pernambuco um único palanque, o de João Campos. No plano da retórica, o PSB venceu. A questão que interessa ao analista é se, no plano da realidade eleitoral, vencer essa disputa significava conquistar alguma coisa.

Os números introduzem aqui um elemento que complica a leitura triunfalista. Em abril, o Datafolha registrava João Campos com doze pontos de vantagem sobre a governadora. No fim de maio, o mesmo instituto apurou uma inversão, com Raquel à frente. E o levantamento mais recente, do IPESPE em parceria com a Folha de Pernambuco, divulgado nesta semana, confirma a tendência ao apontar empate técnico, com a governadora nominalmente adiante, inclusive na simulação de segundo turno. Convém registrar a cautela metodológica de praxe, pois uma virada dessa magnitude admite mais de uma explicação, e seria leviano atribuí-la a uma única causa. A aprovação administrativa de Raquel, a reorganização do PSD em torno de sua candidatura e a própria dinâmica de uma disputa que se acirra podem responder por boa parte do movimento. Ainda assim, o dado é incontornável: o pré-candidato que se portava como senhor do estado viu evaporar uma dianteira confortável no exato período em que a aliança com o PT entrou em turbulência.

Posta a cena, formula-se a pergunta de forma limpa. Dentro de Pernambuco, e a delimitação geográfica é essencial, quem depende mais de quem nessa sociedade?

A evidência mais robusta a favor da tese de que o PSB depende mais do PT não está nas pesquisas, e sim no comportamento. Existe em ciência política o conceito de preferência revelada, a ideia de que os atores demonstram suas reais necessidades não pelo que declaram, mas pelo que fazem quando pressionados. A intensidade da reação socialista diante de uma simples hipótese de segundo palanque é, sob essa ótica, altamente reveladora. Um partido que tratasse o apoio presidencial como acessório não mobilizaria sua direção nacional, não acionaria o presidente da legenda parceira e não ameaçaria revisar compromissos para impedir que o aliado acenasse a um terceiro. A desproporção entre o estímulo, uma frase de ministro, e a resposta, uma crise de bastidores, mede o tamanho da dependência. Soma-se a isso a natureza do capital em disputa. Os votos que Lula detém em Pernambuco foram construídos em sua própria trajetória e são, em larga medida, independentes de quem ocupa o Palácio do Campo das Princesas. O presidente pode preservá-los com ou sem a candidatura de João. O inverso não se sustenta com a mesma facilidade, pois parte expressiva da competitividade do socialista deriva justamente da proximidade com o presidente. A cientista política Priscila Lapa sintetizou o ponto ao observar que o apoio menos explícito de Lula tende a ser estratégico para Lula e não para João.

Um analista honesto, porém, não pode parar aqui, porque a tese encontra objeções de peso. A primeira é que os planos estadual e nacional não são compartimentos estanques. O PSB ocupa a vice-presidência da República, sustenta o governo no Congresso e figura como o principal aliado nacional do PT, de modo que punir o socialista em Pernambuco acarretaria custos federais que o petismo não pode ignorar. A ameaça de reavaliar apoios em outros estados não é blefe, é alavanca real. A segunda objeção é que Lula também tem interesse próprio na vitória de João, pois um governo estadual aliado e confiável vale mais, em termos de governabilidade, do que uma administração apenas cordial. O presidente, portanto, não é indiferente ao resultado, ainda que possa preservar seus votos independentemente dele. A terceira é que o PT não é bloco monolítico, e a voz que hoje questiona a hegemonia do PSB pertence a uma corrente específica do partido, em um quadro de disputas internas que recomendam prudência antes de tomar uma manifestação como termômetro do conjunto.

Pesadas as evidências e as objeções, a conclusão mais defensável não é um veredito de mão única, e sim uma distinção entre dois níveis que os próprios atores costumam confundir. No nível da mecânica eleitoral do estado, a assimetria favorece a leitura de que o PSB depende mais do PT, porque João Campos precisa dos votos de Lula mais do que Lula precisa da candidatura de João. No nível da arquitetura nacional, a relação se inverte ou ao menos se equilibra, porque o PT precisa da aliança com o PSB mais do que o PSB precisa de qualquer governo estadual isolado. As duas afirmações são verdadeiras, operam em camadas diferentes, e o atrito que hoje se observa nasce precisamente de atores que negociam uma camada usando as fichas da outra. O PSB exige exclusividade estadual apoiado no seu peso nacional, e o PT entrega essa exclusividade temendo o mesmo peso, num arranjo em que a parte mais frágil dentro de Pernambuco compra, com capital de fora, uma posição que sua força local talvez não sustentasse sozinha.

É exatamente nesse ponto que a manifestação do petismo histórico do Recife adquire relevância analítica. Ao afirmar que o partido nada deve ao aliado e ao invocar o legado próprio, essa ala fala precisamente do nível estadual, aquele em que a conta, examinada friamente, lhe dá razão. A disputa, no fundo, não é sobre quem ama mais a aliança, mas sobre quem paga e quem cobra dentro dela. E a resposta, em Pernambuco, depende menos da retórica dos comunicados e mais de uma aritmética simples, a de que o dono de um patrimônio é quem pode dele dispor sem se arruinar. Por esse critério, o patrimônio chamado Lula pertence ao eleitor que o constituiu, e não ao partido que, no estado, mais precisa tomá-lo emprestado.

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