Um novo livro começa a nascer. Amada, trago ao peito as cinzas do amor que nos incendiaram. Por Flávio Chaves

Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/MinC  

Um novo livro começa a nascer

Do poema “Minha amada, a pátria está em chamas”, que publiquei ontem, nasceu o impulso de um novo livro de poesia, que começo a escrever com a intenção de lançá-lo ainda este ano. Nestas páginas, a mulher amada e a pátria se aproximam até que a ferida de uma atravesse o corpo da outra, e o amor, perseguido, carregue consigo a terra de onde tentaram expulsá-lo.

O poema que compartilho hoje é o segundo passo dessa travessia. Escrevo com a memória dos canaviais, a ternura que sobrevive à violência e a voz de quem conhece o exílio sem ter deixado o próprio país.

Amada, trago ao peito as cinzas do amor que nos incendiaram

Não me tragam o fogo:
trago uma infância de labaredas sob a língua
e ainda hoje, quando falo,
é a palha dos canaviais que estala entre meus dentes.

Cresci nas terras da cana,
com a noite de nuvens queimadas na paisagem ardida,
enquanto as mulheres estendiam nos varais
a pouca brancura que suas mãos salvavam do mundo,
e o vento vinha dos engenhos
depositar nos lençóis a sombra moída da lavoura,
como se o campo, sem poder fugir do próprio incêndio,
se deitasse conosco
e queimasse devagar por dentro do nosso sono.

O açúcar pousava nas mesas,
neve que aprendera a esconder o incêndio,
e ninguém via, naquela doçura,
os homens deixando a própria sombra nos canaviais;
mas em nossa casa as mulheres recolhiam dos varais
os lençóis onde o céu queimado pousara,
e havia tanto cuidado em seus braços
que até a cinza
era levada ao peito.

Amada,
quando te abracei, muitos anos depois,
meus braços já conheciam aquele gesto
de recolher do mundo alguma coisa ferida
e dar-lhe, junto ao corpo,
um lugar onde passar a noite.

Foi ali que nos acharam,
na pequena extensão de terra que dois corpos
fundam quando se abraçam,
sem cerca, sem escritura,
com apenas uma janela por onde a manhã
entrava devagar para não nos acordar.
Vieram medir o quarto,
interrogar a cama,
arrancar das paredes o rumor da nossa vida,
porque até o sono de quem ama
lhes parecia uma desobediência.

Amada, estas cinzas que recolho
não caíram do teu corpo:
são da casa que o nosso amor erguia
e que incendiaram conosco dentro.
Ainda te movias nos meus braços
quando a fumaça começou a nos separar.

Domingo querem queimar a pátria.
Que venham.
Tragam o combustível guardado na garganta,
as promessas com que vestem de trigo
a fome que semeiam,
e seus sapatos limpos para atravessar as cinzas.
Reconheço essas mãos:
antes de alcançarem as janelas do país,
já haviam apagado
a manhã dos teus ombros.

Amada, onde estás,
que a cidade inteira cabe entre minha mão
e o lugar onde teu rosto se deitava?
Continuo sabendo o caminho de casa,
mas há uma fronteira atravessada na soleira,
e a chave que ainda guardo
vai ficando estrangeira dentro do meu bolso.
Ninguém precisou me levar para longe:
foram retirando de cada lugar
a parte em que eu podia permanecer contigo.

A pátria range de madrugada.
É uma moenda com os dentes enterrados
no sono dos que trabalham,
e o caldo segue para salas onde a noite
nunca chega com os pés descalços.
Aqui, uma mulher inclina a panela
para repartir entre os filhos
o que já não cobre o fundo;
mais longe, alguém assina a colheita
sem que lhe doa um único canavial.

Se eu atravessar o domingo,
seguirei com a terra entranhada nos sapatos
e teu nome por dentro da boca,
onde ninguém alcança sem me ferir.
Não te esperarei nas esquinas,
mas haverá em meu corpo esse modo de inclinar-se
que aprendeu contigo,
como a árvore conserva na madeira
a direção de um vento que passou.

Escutem, incendiários:
a cana guarda debaixo da terra
o lugar de começar de novo.
Enquanto repartem o campo calcinado,
a soca trabalha no escuro,
reúne o que lhe resta,
empurra contra a cinza
a primeira sílaba do verde.

Amada,
é nessa fundura que te levo,
onde o amor já não precisa de regresso
para continuar movendo a terra.

Que venha o domingo
com sua boca de fornalha.
Debaixo do chão que julgarem vencido,
as raízes estarão ocupadas
em desobedecer.

Share this content:

Publicar comentário