Minha amada, a pátria está em chamas. Por Flávio Chaves

Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/MinC  –

Minha amada, a pátria está em chamas

Minha amada,
soube que a pátria, daqui para domingo,
pegará fogo.

E estamos longe.
Tão longe
que a distância já não se mede.

Entre nós,
o longe continua crescendo.

Mas é preciso avisar ao mundo:
em nós dois, o incêndio começou antes.

Atearam fogo ao que éramos
os que não suportam amor,
nem brasa,
nem claridade.

Amada,
talvez ainda se salve a pátria.

Talvez por mim,
que desta distância imposta
carrego os restos de nós:
a cadeira vazia,
o rumor dos passos que não voltaram,
a água dos olhos procurando caminho.

O mapa da fome
e o mapa da saudade
cabem agora sobre a mesma mesa.

Às vezes já não sei
se a pátria está nas ruas, ardendo,
ou sentada nesta sala, ao meu lado,
com os joelhos cansados
e os olhos acesos de ausência.

Minha pátria amada,
amada,
é um rio que, antes de chegar ao mar,
já se descobre salgado.

Como se soubesse o fim.
Como se chorasse antes da despedida.

Minha pátria, amada,
já não dorme.

Tem a insônia das casas que esperam,
das janelas que não se apagam,
dos que escutam passos na madrugada
e não sabem se trazem regresso
ou incêndio.

E eu também não durmo.

Há muito o fogo sabe nossos nomes.

Se eu sobreviver ao domingo,
seguirei meu exílio.

Sem sonhos.
Só estradas.

E nelas serei andarilho,
levando comigo
o país que perdi
e a mulher que não mais alcançarei.

A distância, agora,
não é intervalo.

É destino.

Talvez domingo venha apenas confirmar
o que o amor já nos ensinou:

há quem incendeie
tudo aquilo que não consegue amar,
guardar
ou compreender.

Mas, minha amada,
se ainda houver um rio correndo sob as cinzas,
se uma única brasa conservar claridade,
talvez reste alguma coisa
que o fogo não consiga destruir.

Daqui para domingo,
a pátria pode pegar fogo.

Nós sabemos.

Alguns incêndios começam antes.

Alguns continuam depois.

E certos amores,
mesmo quando já não têm regresso,
ainda iluminam.

Como quem, sem porto,
não naufraga.

Poeta Flávio Chaves

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