Quando a distância revela o que o coração não soube ver de perto. Por Flávio Chaves
Por Flávio Chaves, jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/MinC – Não espere que a distância revele a grandeza daquilo que, tão perto, o seu coração não soube enxergar. Certas pessoas passam por nossa vida carregando uma claridade tão serena que nos acostumamos com a luz que oferecem, como alguém que abre todas as manhãs a mesma janela e já não percebe o milagre do sol entrando pela casa. A presença se torna paisagem, o cuidado parece obrigação, a ternura passa a ser recebida como se jamais pudesse faltar, e aquilo que deveria ser celebrado começa silenciosamente a desaparecer sob o peso cruel da rotina. Somente depois, quando a janela se fecha e a casa amanhece escura, compreendemos que não era apenas o sol que entrava por ela, mas uma parte inteira da nossa própria alegria.
O amor raramente vai embora de uma só vez. Antes de partir, ele recolhe lentamente os seus pertences invisíveis. Guarda a palavra que já não encontra quem a escute, dobra com cuidado o abraço que permaneceu esperando, retira da mesa os pequenos gestos que ninguém agradeceu e apaga, um por um, os candeeiros que mantinham acesa a intimidade. Quem fica talvez não perceba imediatamente, porque a ausência começa muito antes da despedida, escondida nos silêncios que ninguém tentou compreender, nos olhos que deixaram de se procurar, nas perguntas que já não foram feitas e na indiferença miúda que, repetida todos os dias, acaba levantando entre duas pessoas uma muralha mais alta do que qualquer distância.
Depois que o outro parte, tudo aquilo que parecia pequeno adquire uma grandeza dolorosa. A xícara deixada sobre a mesa passa a guardar uma história, o lugar vazio no sofá se transforma numa espécie de abismo doméstico, uma música ouvida por acaso devolve uma tarde inteira, e até o perfume que sobrevive numa roupa esquecida consegue abrir dentro do peito uma porta que julgávamos definitivamente fechada. É quando descobrimos que a felicidade não fazia barulho enquanto morava conosco. Ela não batia pratos, não anunciava a própria chegada, não acendia fogos no meio da sala. Apenas estava ali, discreta e fiel, perguntando se havíamos chegado bem, repartindo o pão, ajeitando a gola da camisa, oferecendo o lado mais confortável da cama e esperando, com uma paciência quase sagrada, que um dia reconhecêssemos o amor escondido na simplicidade daqueles gestos.
A distância possui essa estranha crueldade de ampliar tudo aquilo que a proximidade havia diminuído. De longe, enxergamos o sorriso que não contemplamos com a devida demora, reconhecemos a voz que muitas vezes ouvimos sem escutar e compreendemos a profundidade de uma companhia que tratamos como se fosse eterna. O que esteve ao alcance das mãos passa a habitar apenas a memória, e a memória, quando alimentada pelo arrependimento, sabe construir palácios em lugares onde já não podemos morar. Visitamos esses palácios durante a madrugada, abrimos quartos que não existem mais, conversamos com sombras, refazemos diálogos, corrigimos palavras e oferecemos, tarde demais, todas as respostas que o amor esperou enquanto ainda estava diante de nós.
Talvez uma das maiores tragédias humanas seja esta incapacidade de reconhecer a felicidade enquanto ela ainda respira ao nosso lado. Procuramos longe aquilo que nos esperava perto, desejamos o extraordinário e deixamos morrer o essencial, corremos atrás de horizontes desconhecidos enquanto alguém permanecia na varanda, sustentando com os próprios olhos a esperança de que voltássemos a enxergá-lo. Queremos outros caminhos, outras vozes, outras promessas, sem perceber que o verdadeiro amor não costuma chegar vestido de espetáculo. Ele chega como abrigo. Torna-se cotidiano, aprende nossas cicatrizes, conhece os lugares onde escondemos o medo e permanece mesmo depois de descobrir que não somos tão fortes quanto fingíamos ser.
Quando essa pessoa finalmente se afasta, passamos a observá-la com uma nitidez que nunca tivemos enquanto estava perto. Cada lembrança se torna uma lente, cada saudade devolve um detalhe, cada noite nos apresenta uma pergunta que não conseguimos evitar: por que precisei perder para compreender? A resposta, quase sempre, está na arrogância secreta de quem acreditou que o amor permaneceria indefinidamente à disposição, esperando sem se cansar, perdoando sem adoecer, oferecendo sem sentir falta de também receber. Esquecemos que até os sentimentos mais profundos precisam de cuidado, porque nenhuma flor sobrevive apenas da promessa de que um dia será regada.
Amar exige presença, e presença não significa apenas permanecer no mesmo lugar. Duas pessoas podem dividir a mesma casa e morar a quilômetros uma da outra. Podem dormir na mesma cama e atravessar noites inteiras separadas por oceanos de silêncio. Podem conhecer os horários, os hábitos e as preferências uma da outra, mas desconhecer completamente as inquietações que lhes atravessam a alma. Estar perto é perceber quando a voz muda, quando o sorriso perde luz, quando o cansaço já não é apenas do corpo e quando a pessoa amada começa a se recolher porque se cansou de pedir aquilo que deveria nascer espontaneamente. A verdadeira proximidade não se mede em passos, mas na capacidade de alcançar o outro por dentro.
Quem ainda possui perto de si alguém que ama não deveria esperar a pedagogia dolorosa da distância. Deveria olhar hoje, escutar hoje, abraçar hoje e dizer hoje aquilo que tantas pessoas só conseguem pronunciar diante de uma porta fechada. O tempo não negocia com nossas distrações e tampouco devolve, intacto, aquilo que negligenciamos. Algumas partidas deixam uma fresta para o retorno, mas outras atravessam uma fronteira depois da qual nenhum pedido consegue chegar. O orgulho, nesse momento, revela toda a sua inutilidade, porque não existe vitória em calar um sentimento até que já não exista ninguém disposto a ouvi-lo.
Se o amor ainda estiver aí, sentado perto de você, talvez seja esta a hora de interromper o ruído do mundo e contemplá-lo como quem reconhece um milagre antes que ele se transforme em lembrança. Segure a mão que ainda procura a sua. Agradeça o cuidado que parecia pequeno. Escute a voz que continua chamando pelo seu nome. Repare nos olhos que tantas vezes o encontraram em meio à multidão. Nenhuma conquista será capaz de aquecer uma casa onde a ternura deixou de morar, e nenhum horizonte parecerá suficientemente belo quando descobrirmos que a pessoa com quem desejávamos contemplá-lo já não está ao nosso lado.
Não permita que o amor precise partir para finalmente ser visto. Não transforme em saudade aquilo que ainda pode ser presença, nem entregue à distância a missão de lhe ensinar o valor de quem permanece perto. O coração humano já carrega ausências demais para continuar fabricando outras por descuido, silêncio ou orgulho. Algumas pessoas são uma espécie de pátria íntima, um território de aconchego onde a alma repousa depois de todas as guerras, e perdê-las pode significar passar o restante da vida tentando regressar a um lugar que já não existe.
Olhe enquanto ainda está perto. Ame enquanto ainda pode alcançar. Diga enquanto a sua voz ainda encontra um coração aberto do outro lado. Porque a mais dolorosa distância não é aquela que separa dois corpos, mas aquela que nasce quando finalmente enxergamos a grandeza de um amor no exato instante em que já não podemos tocá-lo.
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