Quando a cidade aprende a contar a própria história. Por Flávio Chaves
Projeto do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano transforma nomes de ruas e praças em instrumentos de memória, conhecimento e reconhecimento daqueles que ajudaram a construir Pernambuco e o Brasil

Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/MinC – Toda cidade guarda, mesmo quando não percebe, uma espécie de arquivo ao ar livre. Ele se encontra nos edifícios que resistiram ao tempo, nas igrejas, nos monumentos, nos traçados urbanos, nos mercados, nos antigos caminhos e, sobretudo, nos nomes que foram dados às ruas, avenidas e praças. São nomes repetidos diariamente por milhares de pessoas, pronunciados em endereços, mapas, conversas, itinerários e correspondências, mas que nem sempre conservam, na memória coletiva, o significado que um dia justificou a homenagem. A cidade continua dizendo esses nomes, ainda que muitas vezes já não saiba exatamente quem foram aqueles homens e mulheres ou por que suas trajetórias mereceram permanecer inscritas no espaço público.
É justamente contra essa lenta erosão da memória que se insere o projeto “A História nas Paredes”, desenvolvido pelo Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano. A iniciativa parte de uma constatação aparentemente simples, mas de profundo alcance cultural: um nome inscrito numa placa de rua não deveria ser apenas uma referência geográfica. Ele pode ser também uma chave de acesso à história. Quando se explica quem foi a personalidade homenageada, quando se devolve contexto ao nome que o cotidiano reduziu a um endereço, a cidade recupera parte de sua capacidade de narrar a si mesma.
Na Praça Euclides da Cunha, no bairro da Madalena, diante do Clube Internacional do Recife, essa proposta ganha expressão concreta. Uma placa dedicada ao escritor, engenheiro, jornalista e pensador brasileiro procura devolver ao nome da praça a dimensão histórica que a repetição cotidiana muitas vezes dilui. O espaço urbano deixa, por alguns instantes, de ser apenas lugar de passagem e se transforma em ponto de encontro entre o presente e uma das figuras decisivas da inteligência brasileira na passagem do século XIX para o XX.
Euclides da Cunha ocupa lugar singular na formação do pensamento nacional. Autor de “Os Sertões”, obra publicada em 1902 e construída a partir de sua experiência como correspondente na Guerra de Canudos, foi muito além do registro jornalístico de um conflito. Procurou interpretar o país, suas contradições, sua geografia humana, seus abandonos e a distância entre o Brasil oficial e o Brasil profundo. Engenheiro de formação, homem de letras, observador da realidade social e intelectual inquieto, tornou-se uma referência incontornável para quem deseja compreender não apenas Canudos, mas a própria dificuldade histórica do Brasil em reconhecer a complexidade de seu território e de sua gente.
A presença de Euclides da Cunha numa praça do Recife, portanto, não deveria se resumir à sobrevivência de um nome numa placa de identificação urbana. O sentido maior da homenagem está na possibilidade de fazer com que alguém que atravesse aquela praça se pergunte quem foi o homem por trás daquele nome, o que escreveu, por que sua obra permanece relevante e por que uma cidade distante de seu local de nascimento decidiu incorporá-lo à própria paisagem. É nesse momento que a memória deixa de ser ornamento e se converte em conhecimento.
O texto da placa instalada na Praça Euclides da Cunha é de autoria do professor José Luiz Mota Menezes, um dos nomes de reconhecida trajetória no estudo e na defesa da história, da arquitetura e do patrimônio cultural pernambucano. A escolha não é casual. Mota Menezes pertence a uma geração de estudiosos que compreenderam que preservar patrimônio não significa apenas impedir a demolição de um edifício antigo. Preservar é também interpretar, documentar, transmitir, contextualizar e assegurar que as referências culturais de uma sociedade continuem inteligíveis para aqueles que virão depois.
A placa registra ainda o apoio cultural e a homenagem do engenheiro e ex-deputado federal José Chaves, ex-aluno da Escola Politécnica de Pernambuco, hoje vinculada à Universidade de Pernambuco. Esse encontro entre memória, história, engenharia, universidade e participação da sociedade civil revela uma característica importante do projeto: a preservação do patrimônio histórico não precisa permanecer confinada às instituições especializadas. Ela pode ser compartilhada por cidadãos, entidades, universidades, pesquisadores e pessoas que compreendem que a construção da memória coletiva também depende de iniciativas concretas de reconhecimento.
No centro dessa concepção está Sílvio Tavares de Amorim, advogado, atual 2º vice-presidente do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano e idealizador de “A História nas Paredes”. O projeto nasceu em 2015, inspirado em experiências observadas em Lisboa, onde placas instaladas em ruas e edificações ajudam moradores e visitantes a compreender a origem dos nomes e a história dos personagens associados àqueles lugares. A inspiração portuguesa, entretanto, encontrou em Pernambuco terreno especialmente fértil, porque poucas regiões brasileiras possuem relação tão intensa, por vezes conflituosa e apaixonada, com a própria memória.
Desde sua concepção, a ideia de Sílvio Amorim foi combater um fenômeno silencioso que acompanha o crescimento das cidades: a transformação de personagens históricos em meras indicações de endereço. Um nome atravessa décadas, permanece numa esquina, numa avenida ou numa praça, mas aos poucos se descola da biografia que lhe deu origem. A placa continua; a memória desaparece. Nesse processo, perde-se algo maior do que uma informação biográfica. Perde-se a possibilidade de compreender por que determinada sociedade, em determinado momento de sua história, decidiu homenagear aquela pessoa e incorporá-la à paisagem urbana.
É precisamente nesse ponto que “A História nas Paredes” ultrapassa a dimensão de um programa de instalação de placas. O projeto introduz uma reflexão sobre a própria natureza da memória pública. Ruas e praças são também documentos. A toponímia de uma cidade registra escolhas, valores, homenagens, disputas e referências de diferentes épocas. Ler esses nomes criticamente significa compreender um pouco da sociedade que os escolheu. Explicá-los às novas gerações significa impedir que a cidade se transforme num conjunto de palavras destituídas de sentido histórico.
Recife oferece um campo extraordinário para esse tipo de trabalho. Poucas cidades brasileiras reúnem, em espaço relativamente compacto, tantas camadas de história. O período colonial, a presença holandesa, as lutas libertárias, os movimentos republicanos, o ciclo açucareiro, a modernização urbana, as grandes transformações do século XX e a vida intelectual pernambucana permanecem inscritos na arquitetura, nos bairros e nos nomes das ruas. Caminhar pelo Recife pode ser, para quem conhece essas referências, uma viagem por diferentes momentos da formação do Brasil.
O problema surge quando essa leitura da cidade deixa de ser transmitida. Uma avenida passa a ser conhecida apenas pela movimentação comercial; uma praça, pelo trânsito; uma rua, pelo restaurante ou pelo edifício que nela funciona. Aos poucos, os nomes que deveriam servir como pontos de ligação entre passado e presente tornam-se vazios semânticos. É possível morar durante décadas numa rua dedicada a um escritor, cientista, engenheiro, educador ou personagem político sem nunca saber por que aquele nome foi escolhido.
A educação patrimonial começa justamente quando se rompe essa indiferença.
Quando uma criança pergunta quem foi o personagem retratado na placa, quando um estudante decide procurar mais informações, quando um visitante compreende por que determinado lugar recebeu aquele nome, produz-se algo que nenhuma política de preservação pode dispensar: pertencimento. O patrimônio só permanece verdadeiramente vivo quando deixa de ser propriedade exclusiva dos especialistas e passa a integrar a consciência cotidiana da população.
Nesse sentido, “A História nas Paredes” possui uma dimensão pedagógica que merece atenção. A cidade pode funcionar como extensão da sala de aula. Um professor de História não precisa limitar-se ao livro didático quando o próprio espaço urbano oferece personagens, acontecimentos e vestígios capazes de estimular a curiosidade dos alunos. Uma placa corretamente concebida não substitui o estudo aprofundado, naturalmente, mas pode cumprir aquilo que todo bom instrumento de educação procura fazer: despertar uma pergunta que leve a outra pergunta.
Essa perspectiva se torna ainda mais relevante numa época marcada pela velocidade da informação e pela fragilidade da memória. As sociedades contemporâneas acumulam dados em quantidade extraordinária, mas isso não significa necessariamente que conheçam melhor sua própria história. Pelo contrário. A abundância de informações pode conviver com uma profunda perda de referências. Pessoas e acontecimentos que moldaram instituições, cidades e valores coletivos desaparecem rapidamente da memória pública quando deixam de ser ensinados, mencionados ou contextualizados.
Preservar, portanto, não é um gesto nostálgico. Tampouco significa congelar o passado ou transformar personagens históricos em figuras imunes à crítica. A História, por sua própria natureza, está permanentemente sujeita à revisão, à pesquisa e à interpretação. Conhecer um personagem não obriga ninguém a reverenciá-lo; obriga apenas a sociedade a não ignorá-lo. É justamente a existência da memória que permite a crítica responsável. O esquecimento, ao contrário, elimina até mesmo a possibilidade de compreender.
O trabalho desenvolvido pelo Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano adquire especial importância nesse contexto. Fundado em 1862, o Instituto integra o grupo das mais antigas instituições culturais brasileiras e há mais de um século e meio participa da preservação, pesquisa e interpretação da história de Pernambuco. Seu acervo, suas publicações, seus documentos, sua biblioteca e a atuação de seus pesquisadores constituem uma reserva indispensável da memória pernambucana. Ao levar parte dessa preocupação para as ruas, “A História nas Paredes” cria uma ponte entre o conhecimento acumulado nas instituições e a experiência cotidiana do cidadão.
É uma mudança de perspectiva significativa. Em vez de esperar que o público procure a História, a História vai ao encontro do público. Ela surge diante de uma escola, num muro, numa praça, numa fachada, numa rua percorrida diariamente. Não exige ingresso, horário de visitação nem conhecimento prévio. Apresenta-se ao transeunte e lhe oferece uma pequena oportunidade de compreender que aquele lugar possui uma história anterior à sua própria passagem.
O reconhecimento de personalidades que contribuíram para Pernambuco e para o Brasil também precisa ser compreendido sob essa ótica. Uma sociedade não preserva apenas pedras, documentos e edificações. Preserva exemplos humanos, trajetórias profissionais, experiências intelectuais, realizações científicas, contribuições culturais e serviços prestados à coletividade. Homens e mulheres que se destacaram na engenharia, na educação, nas artes, na política, na literatura, na medicina, no direito, na ciência ou na vida pública constituem parte do patrimônio imaterial de uma comunidade.
O tempo, contudo, pode ser implacável com a memória individual. Gerações que conheceram determinada personalidade desaparecem, testemunhos se tornam mais raros e acontecimentos deixam de pertencer à experiência direta das pessoas. Sem registros, pesquisas e iniciativas de transmissão, figuras decisivas para determinada época acabam reduzidas a nomes impressos numa placa azul ou gravados numa pedra. “A História nas Paredes” procura interromper exatamente essa passagem da homenagem para o anonimato.
Existe também uma dimensão de gratidão histórica nesse processo. Reconhecer aqueles que contribuíram para a sociedade não significa estabelecer hierarquias imutáveis nem transformar biografias em monumentos sem fissuras. Significa admitir que instituições, cidades e comunidades são construções acumulativas. Cada geração recebe algo das anteriores: universidades, pontes, escolas, livros, pesquisas, obras públicas, instituições democráticas, manifestações artísticas, conhecimentos científicos, tradições culturais. Saber quem participou dessas construções é uma forma elementar de compreender o patrimônio recebido.
A Praça Euclides da Cunha oferece, nesse sentido, uma síntese do projeto. Num espaço urbano do Recife, um dos grandes intérpretes do Brasil encontra um historiador pernambucano que escreve sobre sua trajetória, uma instituição secular que preserva a memória e cidadãos que apoiam a permanência dessa lembrança no espaço público. Não se trata simplesmente de um painel afixado numa parede. O que se encontra ali é uma pequena arquitetura de memória, na qual diferentes gerações se comunicam.
Talvez esse seja o mérito mais profundo da iniciativa concebida por Sílvio Amorim: compreender que a memória pública precisa de presença. Arquivos são indispensáveis; livros são insubstituíveis; museus e institutos históricos cumprem funções essenciais. Mas uma sociedade que deseja conservar sua história também precisa encontrá-la fora desses espaços, no caminho ordinário de seus cidadãos. O passado precisa continuar visível para que não se transforme numa abstração reservada aos especialistas.
Quando isso acontece, o Recife deixa de ser apenas cenário e passa a ser documento. A cidade se torna legível. Suas esquinas começam a revelar relações entre épocas, pessoas e acontecimentos; suas praças deixam de ser simples vazios urbanos; seus nomes recuperam densidade. Um endereço passa a conter uma biografia, uma rua pode conduzir a um episódio histórico, uma parede pode despertar a curiosidade que leva a um livro.
É por isso que o valor de “A História nas Paredes” não deve ser medido apenas pela quantidade de placas instaladas, mas pela concepção de patrimônio que ele coloca em circulação. O projeto recorda que a preservação não se limita àquilo que conseguimos impedir que desapareça fisicamente. Preservar também é impedir que desapareça o significado.
No fim, a pergunta que acompanha a iniciativa é maior do que parece: que cidade queremos deixar para aqueles que virão depois de nós? Uma cidade repleta de nomes que ninguém mais sabe explicar ou uma cidade capaz de contar, com serenidade e rigor, quem passou por ela, o que realizou e por que sua memória foi considerada digna de permanecer?
A resposta talvez esteja justamente nessas paredes que aprenderam a falar. Quando a cidade recupera a história de seus nomes, ela não está apenas prestando homenagem aos mortos. Está oferecendo aos vivos instrumentos para compreender a sociedade que receberam e para pensar, com maior consciência, aquela que desejam construir. Preservar a memória, nesse sentido, não é voltar os olhos nostalgicamente para trás. É manter aberto o diálogo entre tempos diferentes, porque nenhum futuro se constrói com segurança quando uma comunidade perde a capacidade de reconhecer o caminho que percorreu.
Share this content:




Publicar comentário