A CRUELDADE QUE ESTAMPOU AS RUAS DO RECIFE: CARTAZES ANÔNIMOS TRANSFORMAM O LUTO DE UMA FAMÍLIA EM ARMA POLÍTICA

O Recife amanheceu, neste domingo (30), com uma cena que poucos conseguirão esquecer. Cartazes apócrifos, espalhados por calçadas e muros, especialmente no Recife Antigo, trouxeram à tona uma acusação tão monstruosa quanto vazia: que a governadora Raquel Lyra teria assassinado o próprio marido, o empresário Fernando Lucena, falecido em outubro de 2022.

GAZETA PERNAMBUCANA – Por trás do papel impresso, havia uma mentira. Mas por trás da mentira, havia um alvo: a honra de uma mulher, a memória de um homem que se foi, e a dor de dois filhos que perderam o pai.

Os materiais, sem qualquer identificação de autoria, foram colados em postes, paredes e pontos de ônibus. Em letras garrafais, alguns diziam: “Ela matou o marido para ganhar a eleição”. Outros traziam montagens com fotos da governadora ao lado de figuras como Elize Matsunaga e Flordelis, sob a frase “Matadoras de maridos”.

A mensagem era clara: transformar a tragédia pessoal de uma família em combustível para o ódio político.

Fernando Lucena faleceu em outubro de 2022, vítima de um infarto fulminante. A morte foi natural, atestada por laudos médicos e nunca, em nenhum momento, foi objeto de investigação criminal. Não há um único inquérito, uma única perícia, uma única testemunha que sustente a mentira agora estampada nas ruas.

O que há, de fato, é uma tentativa desesperada e covarde de destruir a imagem de uma governadora usando a dor mais íntima que uma pessoa pode carregar: a perda do companheiro de vida.

A dor da mulher e mãe Raquel Lyra, ao tomar conhecimento dos cartazes, desabou. Em vídeo gravado ainda pela manhã, com a voz embargada e os olhos marejados, ela pediu respeito à sua família e à memória do marido. “Não mexam com meus filhos. Não transformem a morte do pai deles em piada, em mentira, em ódio”, disse, em um apelo que partia menos da governadora e mais da mãe e da viúva.

Fontes próximas à família relataram que os filhos do casal, adolescentes, foram os que mais sofreram ao ver as imagens dos cartazes circulando nas redes sociais. “Eles perderam o pai há quatro anos. Estavam conseguindo, aos poucos, reconstruir suas vidas. Agora, essa ferida foi reaberta com uma violência que não se pode medir”, contou uma amiga da família, em lágrimas.

A reação de amigos, colegas de trabalho e cidadãos comuns foi imediata e emocionada. Ainda pela manhã, mensagens de solidariedade começaram a inundar as redes sociais, não de políticos, mas de pessoas que se disseram chocadas com a crueldade do ato.

Uma moradora do Recife Antigo, que preferiu não se identificar, contou à nossa reportagem que, ao ver os cartazes, sentiu “vergonha e nojo”. “Isso não é política. Isso é maldade pura. Como alguém pode usar a morte de uma pessoa para atacar a viúva? É desumano.”

Amigos próximos de Fernando Lucena também se manifestaram. “Conheci Fernando. Era um homem íntegro, bom pai, bom marido. Ele morreu de infarto. Ponto. Usar a memória dele para isso é um desrespeito não só a Raquel, mas a todos que o amavam”, desabafou um empresário que frequentava o mesmo círculo social do casal.

Nas redes sociais, a hashtag #RespeitoRaquelLyra começou a ganhar força, com centenas de relatos de pessoas que perderam entes queridos e que se identificaram com a dor da governadora. “Perdi meu marido há três anos. Se alguém fizesse isso comigo, não sei se teria forças para continuar. Minha solidariedade a ela e aos filhos”, escreveu uma internauta.

A governadora registrou boletins de ocorrência na Polícia Federal e na Polícia Civil ainda na manhã deste domingo. A Polícia Civil informou que abrirá inquérito para apurar a autoria dos cartazes, que podem configurar os crimes de calúnia, difamação e injúria, além de crime eleitoral, já que o episódio ocorre durante o período de campanha.

Especialistas em direito eleitoral ouvidos pela reportagem afirmam que, se os responsáveis forem identificados, poderão responder por propaganda negativa ilícita e por atentado à honra, com penas que podem chegar a anos de reclusão.

“A lei é clara: a liberdade de expressão não protege ofensas anônimas e caluniosas. A Justiça Eleitoral tem instrumentos para coibir esse tipo de prática, que fere a dignidade do processo democrático”, explicou um jurista, sob condição de anonimato.

O que fica de domingo no Recife, o lado mais sombrio e cruel  da disputa política. Viu a dor de uma mulher ser exposta como espetáculo. Viu filhos serem obrigados a reviver a perda do pai. Viu a memória de um homem ser manchada por uma mentira.

Mas viu também a reação daqueles que, mesmo anônimos, disseram “basta”. A comoção popular, o abraço virtual, as mensagens de apoio — tudo isso mostrou que, apesar de tudo, ainda há humanidade em Pernambuco.

A Gazeta Pernambucana acompanhará as investigações de perto, com o compromisso de informar a verdade, sem jamais reproduzir a mentira. E registrará, sempre, a dor e a indignação de uma população que não aceita que a política seja feita à custa do sofrimento alheio.

Que os responsáveis por esse ato perverso sejam encontrados.

Share this content:

Publicar comentário