Chamem Jarbas Vasconcelos: quando o Centro do Recife voltou a ser cidade viva. Por Flávio Chaves

Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/MinC –  Quem atravessava a Ponte Maurício de Nassau rumo ao Recife Antigo numa sexta-feira à noite dos anos 1990 não precisava de campanha publicitária para saber que alguma coisa havia mudado. A Rua do Bom Jesus tinha mesas nas calçadas, música saindo dos bares, luz nos casarões e, acima de tudo, gente. Casais caminhavam de mãos dadas. Estudantes dividiam chopes. Turistas apontavam câmeras para as fachadas coloridas. Artistas e funcionários públicos se misturavam sob a luz dos postes restaurados. O bairro que durante décadas fora uma cidade fantasma, esquecida, inerte, oca, parecia ter redescoberto o próprio pulso.

Boa parte daquela transformação aconteceu durante as gestões de Jarbas Vasconcelos na Prefeitura do Recife. Trinta anos depois, diante de um Centro novamente marcado por imóveis vazios, insegurança e tentativas intermitentes de revitalização, uma pergunta quase irônica começa a fazer sentido: chamem Jarbas Vasconcelos.

Não se trata de pedir o retorno do político à Prefeitura. A expressão funciona como uma provocação ao presente. O que Jarbas Vasconcelos entendeu sobre o Centro do Recife que administrações posteriores não conseguiram preservar?

Um bairro que havia desistido de si

Para entender o que aconteceu nos anos 1990, é preciso primeiro compreender o que o Recife Antigo e o seu entorno haviam se tornado. O Bairro do Recife, a ilha onde a cidade nasceu, palco de sua efervescência boêmia entre as décadas de 1930 e 1940, entrou em decadência a partir dos anos 1960. A expansão da cidade para as zonas Sul e Norte esvaziou progressivamente a região. A partir dos anos 1980, a entrada em operação do Porto de Suape, em 1983, e a transferência para Suape de empresas de combustíveis instaladas no Porto do Recife, determinada em 1986, acrescentaram um novo componente a esse processo. O bairro tornou-se o menos populoso e o mais pobre entre os bairros do Centro.

Até o começo dos anos 1990, o Bairro do Recife viveu em completo abandono, chegando à noite a lembrar um cenário fantasmagórico. As visitas noturnas ao Bar São Francisco, um dos poucos ainda em funcionamento, incluíam mesas improvisadas na calçada para observar os prédios antigos, desertos e desamparados, que o tempo teimava em esquecer. O mesmo drama se repetia nos bairros vizinhos de Santo Antônio e São José, onde a história parecia ter estacionado na decadência.

A semente plantada em 1987

A primeira tentativa de reverter esse quadro veio ainda no primeiro mandato de Jarbas Vasconcelos, entre 1986 e 1988. Em 1987, a Prefeitura promoveu a elaboração do Plano de Reabilitação do Bairro do Recife, sob a coordenação da arquiteta Amélia Reynaldo. Criou-se também o Escritório de Reabilitação do Bairro do Recife, reunindo representantes de diversas secretarias. O plano inspirava-se em experiências internacionais como o Plano de Bolonha e as intervenções de Oriol Bohigas em Barcelona.

Os planos, porém, não avançaram de imediato. Já no governo estadual de Joaquim Francisco, iniciado em 1991, foi proposto um novo plano de desenvolvimento que posicionava o bairro como destino turístico. O Plano de Revitalização do Bairro do Recife, inspirado na revitalização de Nova Orleans, ficou pronto em 1992. Mas a ideia de reabilitar o Recife Antigo já havia sido plantada. E, mais do que isso, a semente de que o Centro Histórico como um todo precisava ser repensado já começava a brotar.

O retorno em 1993 e a virada

Quando Jarbas Vasconcelos retornou à Prefeitura em 1993, o cenário era outro. O Plano de Revitalização do Bairro do Recife, inspirado na revitalização de Nova Orleans, ficara pronto em 1992. Agora, a gestão municipal instituiu parcerias com investidores privados. Surgiu o Polo Bom Jesus, que englobava a Rua do Bom Jesus, a Rua do Apolo e a Praça do Arsenal, até então apelidada de Praça dos Lisos por reunir trabalhadores à espera de chamadas para o Porto.

A virada concreta veio com a Fundação Roberto Marinho, que propôs o projeto Cores da Cidade, em parceria com as Tintas Ypiranga. Inspirado em ações realizadas no Rio de Janeiro, o projeto previa a restauração cromática das fachadas históricas com cores vibrantes. A adesão dos proprietários, no entanto, foi limitada. Para contornar isso, a Prefeitura expandiu o escopo, restaurando prédios estratégicos como a Associação Comercial e a antiga Bolsa de Valores.

Esse processo contou com o apoio decisivo de instituições privadas, que se associaram ao poder público sem que o Recife precisasse ser vendido ou tivesse sua alma popular diluída. Ao contrário, a beleza e a identidade do bairro foram tratadas como ativos a serem compartilhados com seus próprios habitantes.

O passo mais decisivo, porém, foi a criação de uma espécie de escritório de negócios, responsável por intermediar o contato entre investidores interessados em instalar novos empreendimentos e os donos dos imóveis. A Prefeitura também realizou melhorias urbanas: calçamento, fiação subterrânea e a desapropriação de cinco prédios em ruínas na própria Rua do Bom Jesus.

O poder público não esperou o mercado

Há um aspecto particularmente relevante nessa história. Diante da ausência inicial de investidores, a Prefeitura assumiu diretamente o risco de recuperar imóveis. Em 1993, decretos municipais declararam de interesse social, para fins de desapropriação total, imóveis situados na Rua do Bom Jesus. O poder público entrou onde o setor privado ainda não queria entrar.

Entre 1993 e 1996, segundo os pesquisadores Sílvio Mendes Zancheti e Norma Lacerda, o poder público investiu R$ 2,66 milhões na área do Polo Bom Jesus, enquanto o setor privado aplicou cerca de R$ 2,85 milhões. Ou seja, para cada R$ 1,00 investido pelo poder público, a iniciativa privada investiu aproximadamente R$ 1,07.

O que isso significava? Que a Prefeitura não esperava sentada que o mercado descobrisse sozinho o potencial do Centro. Ela foi à frente, desapropriou, restaurou, iluminou, calçou e, só então, o setor privado apareceu.

Cultura como motor urbano

Com o casario recuperado e a chegada de bares e restaurantes, a Rua do Bom Jesus se transformou, ao longo dos anos 1990, em polo de entretenimento e turismo. Shows e apresentações culturais passaram a ser realizados em palcos montados no fim da rua, com nomes como Antônio Nóbrega e Alceu Valença. O Carnaval tomou conta da vizinha Praça do Arsenal. Serestas, São João, o programa Dançando na Rua, a programação era permanente.

Em 1995, a Prefeitura lançou a Agenda Cultural em edição impressa. Nascia também, em 1993, a campanha Recife Alto Astral, uma tentativa de recuperar a autoestima do recifense. O coquinho verde sorrindo tornou-se símbolo de uma cidade que ousava acreditar em si mesma.

Ao mesmo tempo, a Rua da Moeda passou por uma ocupação espontânea, marcada pela abertura de bares de perfil alternativo e frequentados por um público mais jovem. A geração que viveu aquele período dividia simbolicamente a cena noturna entre uma Berlim Ocidental, a Bom Jesus, e uma Berlim Oriental, a Moeda. A Moeda também recebeu estímulos culturais importantes, como o festival Rec-Beat e o bar Pina de Copacabana, que se tornaram referências da geração mangue.

Segurança e presença do Estado

A segurança era parte integrante do projeto. Havia policiamento específico, postos policiais e uma presença ostensiva do Estado. Mas a segurança não era apenas consequência do movimento. O movimento também dependia da segurança. As duas coisas se reforçavam mutuamente. O recifense que atravessava a ponte à noite sabia que podia andar, ficar, consumir, curtir. Não precisava olhar para trás a cada passo.

Jarbas Vasconcelos ia atrás dos empresários

Há relatos de que Jarbas Vasconcelos procurava pessoalmente empresários para convencê-los a investir na Rua do Bom Jesus. O prefeito não esperava que a revitalização acontecesse sozinha. Ele acompanhava o projeto, visitava obras, cobrava secretários, conversava com artistas. Essa liderança pessoal, a capacidade de convencer, de articular, de estar presente, talvez seja o elemento mais difícil de reproduzir em qualquer política pública.

O Centro como destino, não como passagem

A grande transformação simbólica foi essa: o Bairro do Recife deixou de ser apenas lugar de trabalho diurno e tornou-se novamente um lugar onde as pessoas iam porque queriam ficar. Não se tratava mais de atravessar a ponte para resolver um assunto no Centro. Tratava-se de atravessar a ponte para estar no Centro.

O que faz uma pessoa desejar atravessar uma ponte à noite apenas para estar ali? Segurança, beleza, cultura, música, gastronomia, iluminação, patrimônio, encontro, movimento, curiosidade, identidade. Jarbas Vasconcelos, de alguma forma, entendeu que Centro Histórico não vive de pedra e cal. Vive de gente.

A Praça do Sebo e o esquecimento do Centro

Não basta, porém, olhar para a ilha do Recife. A pergunta que ecoa pelo Centro Histórico é ainda mais ampla. Próximo à movimentada Avenida Guararapes, no coração de Santo Antônio, a Praça do Sebo, também chamada de praça da Roda, guarda uma história de vitalidade cultural que hoje se desfaz. Fundada em 26 de agosto de 1981, ela completa 45 anos em 2026 como um dos mais democráticos polos de venda de livros antigos do Recife.

Ali, o povo recifense convergia para procurar os livros desejados, em um ritual de descoberta que ia além da compra. Os livreiros atuavam como verdadeiros guias literários, e frequentadores assíduos, como o escritor Liêdo Maranhão, ajudaram a construir a alma do lugar. O que restou hoje, porém, é o abandono. Apesar de uma tentativa de revitalização em 2021, que custou mais de R$ 35 mil com reforma do piso de pedra portuguesa e nova iluminação, a praça parece ter sido novamente esquecida.

A ironia cruel é que, enquanto a cidade discute projetos de concessão para o chamado Distrito Guararapes, com planos do escritório de Jaime Lerner que preveem a instalação de lojas de luxo, cafés e boutiques, a praça que já foi um dos maiores polos de cultura popular agoniza. O temor é que, ao tentar salvar o Centro com receitas de mercado, a administração pública acabe varrendo a alma boêmia e popular que ainda resiste. O que adianta projetar uma Paris tropical se estamos deixando apodrecer o sebo genuinamente recifense?

O que a imprensa dizia na época

A imprensa nacional e local acompanhou o processo da revitalização do Recife Antigo. A Folha de S.Paulo registrou, em maio de 1996, as intenções do prefeito de fazer uma experiência-piloto do projeto Cingapura no Recife. Revistas de arquitetura e publicações acadêmicas passaram a citar o Bairro do Recife como caso de sucesso em revitalização urbana. A transformação era vista, enquanto acontecia, como uma experiência exitosa.

O que aconteceu depois

Jarbas Vasconcelos deixou a Prefeitura em 1996. Posteriormente, o processo de recuperação do Recife Antigo perdeu força. A vitalidade construída nos anos 1990 começou a se perder gradativamente. Hoje, o Recife Antigo e todo o seu entorno histórico são novamente marcados por abandono. Ruas pouco iluminadas, medo da violência, bandidos e criminosos que se aproveitam da situação. Os shows e eventos promovidos pela Prefeitura não foram suficientes para devolver a vida ao bairro. Imóveis voltaram a ficar vazios. Bares fecharam. A sensação de segurança caiu. E a Praça do Sebo, que poderia ser um contraponto cultural vibrante, tornou-se um símbolo do descaso.

Jarbas Vasconcelos governador e o Porto Digital

Vale lembrar que Jarbas Vasconcelos, posteriormente como governador de Pernambuco entre 1999 e 2006, esteve também relacionado à criação e consolidação do Porto Digital. O parque tecnológico reabilitou imóveis históricos para abrigar empresas de tecnologia. Há uma continuidade clara entre a ideia de recuperar imóveis históricos com novas funções, defendida na Prefeitura, e aquilo que o Porto Digital viria a representar. Em 2025, Jarbas Vasconcelos foi homenageado pelo Porto Digital pelos 25 anos do polo.

A grande diferença entre revitalizar e empreender

Nos anos 1990, a política parecia perguntar: como fazer as pessoas voltarem? Hoje, frequentemente, o debate urbano pergunta: como tornar economicamente viável o imóvel? São perguntas diferentes, que produzem respostas diferentes.

Talvez naquela época ainda não existissem tantos nomes técnicos para explicar como salvar um Centro Histórico. Havia uma ideia mais simples: fazer com que as pessoas quisessem estar lá. O apoio privado existiu, mas nunca foi colocado acima da identidade popular. O Recife não foi vendido; ele foi devolvido aos recifenses.

Uma provocação para o presente

Se Recife já conseguiu devolver vida ao seu Centro uma vez, por que precisa reinventar tudo novamente? Por que a Praça do Sebo, com seus 45 anos de história e seu acervo de conhecimento, não é tratada como o patrimônio vivo que é?

Jarbas Vasconcelos compreendeu algo aparentemente simples. Patrimônio não sobrevive apenas com restauração. Precisa de função. Precisa de pessoas. Precisa de segurança. Precisa de cultura. Precisa de atividade econômica. Precisa de gestão. Precisa de desejo.

O prédio restaurado pode ser patrimônio. A rua cheia é cidade.

O que Recife aprendeu com Jarbas Vasconcelos e o que esqueceu depois dele

Jarbas Vasconcelos não inventou o Centro do Recife. Também não resolveu todos os seus problemas. Mas, durante algum tempo, conseguiu uma coisa que hoje parece extraordinariamente difícil: fez o recifense desejar atravessar a ponte e ocupar também as ruas do entorno, como a da Roda, onde a cultura popular vibrava.

Talvez seja essa a primeira pergunta que qualquer novo plano para o Centro deveria responder: o que fará alguém querer voltar amanhã para comprar um livro na Praça do Sebo ou tomar uma cerveja na Rua do Bom Jesus?

Se ninguém encontrar a resposta, chamem Jarbas Vasconcelos. Nem que seja apenas para perguntar como se fazia.

Centro Histórico não vive de pedra e cal. Vive de gente.

Share this content:

Publicar comentário