Por ser tão grande, o amor não morre sequer no deserto que agora sou. Por Flávio Chaves
Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/MinC – Naquele instante em que a areia escaldante do sol do meio-dia confunde a linha do horizonte com um espelho líquido e dançarino, e o vento, que deveria trazer alívio, parece antes um sopro de fornalha a lamber a pele e a secar a palavra na garganta, é que a memória do que fomos e do que tivemos se torna mais aguda do que a ponta de um punhal de obsidiana, pois é precisamente no deserto que agora sou, nessa extensão infindável de dunas que se parecem com as ondas petrificadas de um oceano de solidão, que o amor, esse visitante inoportuno e glorioso, resolve fincar suas raízes mais profundas, não como uma planta que busca a água furtiva do subsolo, mas como a própria miragem que insiste em se materializar a cada passo, a cada respiração ofegante do peito que procura o ar raro e quente.
E assim caminho, e assim me perco, porque o amor que eu carrego não é um fardo que se depõe à sombra do primeiro rochedo, nem uma lembrança que se dissipa com a noite que avança sobre os montes de sal, mas uma força telúrica que pulsa no centro do meu esqueleto, uma respiração que não é minha, que vem de um lugar anterior ao meu primeiro grito, e que agora, neste exílio de areia e cinza, se faz mais presente do que a própria sede que me corrói, pois a sede do corpo é passageira e se aplaca com uma gota de água, mas a sede da alma, essa que o amor despertou, é um oceano inteiro a pedir passagem num copo de vidro quebrado, e é por isso que eu ando, e ando, e ando, arrastando os pés nus sobre a crosta quente do chão, enquanto o sol desce lentamente, como um olho que se fecha para não ver o espetáculo da minha desolação.
Quando a noite enfim despenca sobre o deserto, e as estrelas aparecem como as migalhas de um banquete celestial que os deuses esqueceram de recolher, o amor se transforma, ganha uma textura de seda fria e uma claridade que não vem de nenhuma lua, porque o amor, nesse território de areia movediça e de solidão absoluta, não é mais a chama que arde e consome, mas a própria brasa que guarda no seu interior o calor de todas as fogueiras que jamais acendemos, e é nesse momento, quando o silêncio é tão denso que se pode ouvir o próprio sangue a circular nas veias como um rio subterrâneo, que compreendo a verdade mais simples e mais devastadora de todas, a de que o amor, por ser tão vasto, por ser tão imenso que transborda as margens de qualquer coração humano, não pode morrer, não tem a menor condição de morrer, mesmo que o corpo que o abriga seja agora este deserto de ossos e de poeira, mesmo que a voz que o pronuncia se desfaça em sussurros que o vento leva para não sei onde, mesmo que a mão que o escreve na areia seja apagada pelo primeiro vendaval da madrugada.
É uma certeza que me atravessa como um raio que não fere, mas ilumina, e que me faz parar no meio da imensidão escura para olhar para trás, para as pegadas que vão se apagando lentamente, uma a uma, como as sílabas de um poema que se desfaz antes de ser lido, e nesse olhar para o passado, que é o único movimento possível quando o futuro é uma planície sem marcos e sem direção, o amor se revela em cada grão de areia que escorre entre os meus dedos, em cada sopro de ar que ainda consigo roubar do peito da noite, em cada batida do coração que teima em não se render ao cansaço e à desistência, porque o amor, esse velho conhecido que habita os subterrâneos da minha alma, não depende da paisagem, não depende do tempo, não depende da presença ou da ausência, depende apenas de uma decisão que foi tomada muito antes de eu saber o que era uma decisão, e essa decisão é a de que, mesmo que o mundo se desfaça em pó, mesmo que o céu desabe sobre a minha cabeça e me transforme em cinza, mesmo que o deserto se estenda para sempre e eu me perca nele como um último vestígio de água tragado pela areia, o amor permanecerá, não como uma lembrança, não como uma esperança, mas como um fato, um fato incontornável, uma rocha que resiste ao vento, uma montanha que não se move, uma verdade que não se nega.
E assim, no centro deste deserto que agora sou, com a boca seca e os olhos ardendo de cansaço e de lágrimas que não ousam cair, descubro que o amor é exatamente essa teimosia, essa recusa obstinada em aceitar o fim, essa mania de plantar roseiras em terra de sal e de regá-las com o suor do próprio rosto, e por isso, quando o primeiro clarão do amanhecer começa a tingir as dunas de um ouro pálido e frio, eu me levanto, sacudo a areia do corpo e continuo a andar, não porque acredite encontrar um oásis no fim da estrada, não porque espere um milagre ou uma salvação qualquer, mas porque o amor que carrego dentro de mim, esse amor que é maior do que eu, maior do que o deserto, maior do que a própria vida, exige de mim esse movimento, essa caminhada, esse gesto de quem, mesmo sabendo que pode morrer de sede, insiste ainda assim em avançar sobre a areia, e é nesse gesto, nessa respiração ofegante e profunda, nesse andar sem destino e sem retorno, que o amor encontra a sua morada mais verdadeira, aquela que nenhum vento, nenhuma tempestade, nenhum tempo pode destruir, porque o amor, meu amigo, é justamente isso, a força que nos faz continuar mesmo quando tudo nos diz que é hora de parar, e por ser tão grande, tão desmedido, tão absurdo, ele não morre, não pode morrer, não morrerá jamais, nem mesmo no deserto que agora sou, nem mesmo na solidão que me cerca, nem mesmo no fim de tudo que se anuncia a cada passo.
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