Olha essa réstia de sol. Por Cícero Belmar
Cícero Belmar – Escritor, jornalista e membro da Academia Pernambucana de Letras –
Perto da hora do almoço, quase 13 horas, recebi a notícia “dos sonhos”: a agenda do restante do dia caiu e nós, das equipes de texto e vídeo, estávamos dispensados. Permanecer no serviço seria facultativo, mas teríamos a tarde inteira para o que bem entendêssemos. Folga em dia útil, ainda que apenas num período, era quase um fetiche. Mas, descobri com surpresa, não estava preparado para concretizar o desejo do tempo livre.
Quando peguei minha bolsa para sair, veio-me a pergunta: o que vou fazer nesta tarde? Eu me sentia um apalermado, sem saber lidar com o “presente” inesperado. Sou uma pessoa que traz um defeito de fabricação como bom capricorniano. No dia a dia, deixo as coisas no piloto automático. Se é para cumprir horário, trabalho contínuo. Tudo o que acontece é previsível e prático. Até as horas de folga são as de praxe.
O que faço, ou deixo de fazer, nesse ciclo de trabalho, são coisas objetivadas. Se, por um lado, funciona, também não deixa de ser monótono. Por isso, o grande drama daquele instante, com a bolsa a tiracolo, era saber o que fazer no tempo que foi liberado. Para onde eu iria se nada estava planejado?
Confesso que fiquei perdido com tanta tarde para mim mesmo. Eu não sabia que ter horas vagas, sem esperar, seria um peso. Ainda pensei em ir a um cinema, sempre uma boa opção. Mas dê uma olhada nos roteiros de julho, mês de férias das crianças: Minions & Monstros; Moana; Supergirl, Toy Story 5. Nesse caso, que tal bater pernas no shopping?
Não tenho disposição para ver vitrines de lojas e mergulhar nos paraísos do consumo. Se vou a um shopping center, termino comprando coisas inúteis. Então, seria o caso de visitar um amigo? Mas, todas as pessoas que eu conheço estariam trabalhando naquele horário. Terminei fazendo o previsível: quando me dei conta, estava na frente do prédio, peguei o elevador, entrei no meu apartamento.
Tomei um banho demorado e fui me sentar, com roupa confortável, no sofá da sala. Quem consegue se entregar ao ócio absoluto? A cabeça começa a trabalhar, vêm lembranças bobas etc. Que tal contar até mil? Quando eu era criança, passava bons minutos tentando contar até cem.
Tente contar até mil. Você começa e daqui a pouco, perde-se na continuidade. A cabeça flutua, os números ficam parados, e quando você quer voltar, conclui que passou dos seiscentos, mas não sabe o número exato em que parou. Quem tenta contar até mil, cai em armadilhas.
Peguei o smart, para ouvir músicas no Youtube. Encontrei umas boas opções, todas de Alceu Valença. Comecei por um clássico, Borboleta. Depois, mais um, Caravana, músicas poéticas, cheias de emoção. Por fim, Talismã. Essas duas últimas de Alceu com Geraldo Azevedo.
As músicas falam de passado, futuro, sonhos que vão além dessa mesmice. Talismã me parece algo mágico para dar força e coragem a um viajante. Por extensão, para mim, fala de liberdade. Da necessidade de irmos adiante.
A música diz assim: “Olha essa sombra, esse rastro de mim. Olha essa seta, essa réstia de Sol”. O certo é que adormeci e quando acordei, a noitinha chegava. Eu permanecia, ali, no sofá.
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