O portão que ainda range. Por Flávio Chaves

Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc  – Themistócles abre o portão da estação às seis da manhã. Empurra a tranca enferrujada, que geme como coisa viva, e fica ali, de pé, no vão da entrada, olhando os trilhos. Não vem trem nenhum há vinte e três anos. Ele sabe disso melhor do que qualquer um. Foi ele quem viu partir o último, um vagão de carga cinzento levando para sempre a linha que ligava a cidade ao resto do mundo. Mesmo assim, todos os dias, abre o portão. Ninguém pediu. Ninguém paga. A prefeitura esqueceu que ele existe, e ele parece ter feito as pazes com esse esquecimento. Abre, olha os trilhos cobertos de capim, e depois vai para casa. É só isso. E é justamente por ser só isso que a cena não sai da cabeça de quem a vê pela primeira vez.

Existe uma palavra gasta demais para nomear o que Themistócles faz. Preferimos não usá-la logo de saída, porque ela chegou até nós empobrecida, vestida com roupas de comercial de fim de ano, prometendo dias melhores que raramente chegam. Mas debaixo dessa roupa emprestada mora uma coisa mais antiga e mais severa, um apetite obstinado do homem por continuar significando alguma coisa mesmo depois de o universo ter deixado claro que não vai responder. Themistócles não espera o trem. Ele já enterrou essa espera havia muito tempo. O que faz é mais grave e mais simples: recusa-se a deixar que a ausência do trem apague o sentido do próprio gesto de abrir o portão.

Aqui está o primeiro paradoxo, e é preciso encará-lo sem pestanejar. A esperança verdadeira, a que resiste ao tempo, não precisa de motivo para existir. Ela é anterior à causa que a justificaria. Se Themistócles abrisse o portão esperando o trem, seria só ilusão, e a ilusão morre no primeiro encontro com os fatos. Mas ele abre o portão sabendo, com lucidez inteira, que os fatos já decidiram contra ele. E abre assim mesmo. Essa é a diferença entre o homem ingênuo e o homem lúcido que decide, ainda assim, continuar. Não se trata de aceitar resignado o que resta. Trata-se de amar o próprio movimento de abrir o portão, independente do que ele venha a produzir no mundo, como quem ama a chuva não pelo que ela vai fazer crescer, mas pelo simples fato de cair.

Existem instantes que não servem para nada, e talvez sejam exatamente esses os únicos que valem a pena viver. O gesto de Themistócles é um desses instantes inúteis e inteiros. Não produz trem, não produz passageiro, não produz sequer memória alheia, porque quase ninguém passa por ali para ver. Produz apenas ele mesmo, repetido, oferecido à manhã como quem oferece um copo de água a um deserto que não vai agradecer. E é dentro dessa inutilidade radical que mora, sem disfarce, a coisa que insistimos em chamar de esperança, quando talvez fosse mais honesto chamar de fidelidade. Fidelidade ao próprio gesto. Fidelidade a si mesmo, quando o mundo já retirou toda plateia.

A gente se acostuma a levantar cedo e a ter esperança de fazer um bom pão, mesmo sem saber ao certo quem vai comer. A frase parece simples, quase caseira, e é justamente aí que mora sua força. A esperança não se declara em praça pública. Ela se pratica na cozinha, na oficina, no portão de uma estação morta, no gesto repetido de quem faz o pão sem garantia de fome alheia. A grandiloquência trai a esperança. A discrição a revela.

Há uma dor específica, que a gente conhece de perto quando envelhece um pouco, ligada à sensação de que o tempo segue seu curso com uma indiferença quase cruel diante das nossas perdas particulares. As coisas continuam. O ônibus passa na hora certa. O sol nasce igual, dia após dia, como se nada tivesse mudado, quando por dentro tudo mudou. Talvez a esperança seja exatamente a língua nova que se aprende depois de uma perda assim, torta no começo, cheia de silêncios, até que um dia a gente descubra que consegue dizer o próprio nome outra vez sem que a voz falhe.

A mente humana tem esse poder estranho de reescrever o passado dentro do presente, transformando cicatriz em território fértil sem jamais apagar a marca. É o que o portão de Themistócles faz, sem que ele saiba que faz. Cada manhã reescreve o significado dos trilhos vazios. Ontem eram abandono. Hoje, só porque alguém abriu o portão de novo, são apenas trilhos esperando, com uma paciência que não pede pressa, o próximo capítulo que talvez nunca chegue, e que, enquanto isso, já deu ao homem um motivo digno para vestir a camisa e sair de casa.

Não sei quantos anos ainda Themistócles vai abrir aquele portão. Sei que um dia ele vai parar, porque todo gesto humano tem seu último dia, mesmo os mais fiéis, mesmo os mais teimosos. O que me interessa, o que fica comigo depois de ver a cena, não é saber se o trem vai voltar. É saber que existe, nalgum ponto do mundo, uma dobradiça enferrujada que ainda geme toda manhã, empurrada por uma mão que não pede explicação a ninguém, nem mesmo a si mesma, e que talvez seja só isso, afinal, o que a palavra esperança sempre quis dizer antes de virarem ela em cartaz.

Share this content:

Publicar comentário