As gavetas que a vida abre. Por Flávio Chaves
Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc – A vida possui uma estranha maneira de conservar aquilo que o tempo levou para longe dos nossos olhos e, por mais que a memória se esforce para organizar os anos em alguma estante interior, colocando cada acontecimento no lugar onde imaginamos que deveria permanecer, sempre existe um papel esquecido entre páginas antigas, uma data que perdeu o endereço dentro de nós ou alguma pequena inscrição feita pelo tempo que somente muitos anos depois voltará a ser encontrada.
Talvez seja por isso que envelhecer também signifique descobrir que a memória não é um cartório perfeito da existência, desses onde cada fato recebe número, carimbo, assinatura e lugar definitivo numa prateleira, porque lembramos principalmente daquilo que nos atravessou com maior intensidade, dos dias que deixaram cicatrizes, dos afetos que permaneceram, das perdas que modificaram nossa maneira de olhar o mundo e das alegrias que ainda hoje conseguem acender alguma claridade quando fechamos os olhos.
O restante vai sendo lentamente coberto pela poeira natural dos anos. Não por descuido. Não por abandono. Simplesmente porque viver é seguir.E quem segue não consegue carregar nas mãos todos os calendários que já atravessou, todas as agendas que um dia preencheu, todos os endereços onde trabalhou, todos os projetos aos quais entregou uma parte da sua energia e cada detalhe das incontáveis manhãs que formaram silenciosamente a estrada percorrida.
O tempo possui uma capacidade extraordinária de transformar acontecimentos em paisagem. Aquilo que um dia ocupou nossas preocupações, exigiu decisões e tomou horas inteiras da nossa vida vai perdendo, com o passar dos anos, a nitidez dos primeiros contornos, como uma fotografia antiga que ainda reconhecemos, embora já não sejamos capazes de lembrar a temperatura daquele dia, a roupa que vestíamos ou o assunto que ocupava nossos pensamentos no instante em que alguém apertou o botão da máquina.
Foi pensando nisso que compreendi como a nossa própria história é muito maior do que a lembrança que conseguimos guardar dela, porque a memória humana escolhe seus marcos, ergue algumas placas ao longo da estrada e deixa quilômetros inteiros sem qualquer sinalização, não porque esses trechos tenham sido menos verdadeiros, mas porque nenhum homem consegue transformar a própria existência num relatório minucioso de tudo aquilo que viveu.
A vida não foi feita para ser arquivada enquanto acontece. Foi feita para ser vivida. Somente depois, quando os anos já passaram e algum acontecimento nos leva de volta a uma época distante, percebemos quantos detalhes ficaram pelo caminho, misturados às urgências daquele tempo, às mudanças que vieram depois e ao movimento natural de uma existência que jamais permanece parada no mesmo lugar.
E então, numa manhã absolutamente comum, uma informação antiga pode surgir diante dos olhos. Não chega necessariamente carregando peso, nem precisa trazer consigo qualquer mistério grandioso. Às vezes é apenas uma data. Um nome. Um registro. Uma linha escrita muitos anos antes e que, por alguma razão, já não encontrava correspondência imediata dentro da memória.
O espanto nasce exatamente desse desencontro. O papel diz uma coisa. A lembrança procura a gaveta correspondente. Durante alguns instantes, os dois não se encontram.
É uma sensação estranha, porque fomos educados a imaginar que somos os maiores conhecedores da nossa própria biografia e, de repente, alguma pequena anotação do passado nos obriga a percorrer novamente um trecho da estrada, não para mudar aquilo que vivemos, mas para compreender onde determinada informação deve ser colocada na longa narrativa dos anos.
É assim que penso nas gavetas.Não nas gavetas onde se escondem segredos, porque os segredos pertencem a outra literatura e quase sempre carregam um peso que não desejo trazer para estas palavras. Pensei nas gavetas dos arquivos antigos. Naquelas de madeira pesada que existiam nos escritórios de outros tempos, repletas de pastas amareladas, recibos, fotografias, ofícios, jornais dobrados e documentos que sobreviveram às pessoas que um dia os manusearam diariamente.
Durante anos ninguém abre uma determinada gaveta porque ninguém precisa daquilo que está dentro dela. A vida segue seu curso, os escritórios mudam, as máquinas de escrever desaparecem, os telefones ganham telas, os jornais chegam aos computadores e aquilo que um dia parecia indispensável repousa em silêncio, vencido pelas novas urgências.
Até que alguém procura uma coisa e encontra outra. Talvez uma das experiências mais curiosas da maturidade seja perceber quantas vezes encontramos uma parte do passado quando estávamos procurando apenas uma resposta para o presente.
Nesses momentos, o coração humano costuma se apressar e a imaginação, sempre mais veloz do que os fatos, tenta preencher imediatamente os espaços que a memória ainda não conseguiu alcançar. Os anos me ensinaram a desconfiar dessa pressa.
Nem toda pergunta anuncia uma tragédia. Nem todo papel antigo carrega uma sentença. Nem toda data esquecida representa alguma coisa além daquilo que realmente é: uma data que o tempo levou para longe da memória.
Por isso, quando uma gaveta antiga se abre, talvez a melhor atitude seja aproximar a cadeira, colocar os papéis sobre a mesa e começar a lê-los com a serenidade possível, permitindo que cada informação encontre seu lugar antes que a imaginação decida escrever uma história por conta própria.
A verdade gosta de documentos, mas também precisa de paciência. Uma data conversa com outra. Um nome conduz a um endereço. Um endereço devolve à memória uma época.
E pouco a pouco aquilo que parecia estranho começa a encontrar seu lugar no grande mapa da existência, esse mapa imperfeito que nenhum de nós recebe pronto e que vamos desenhando enquanto caminhamos, muitas vezes sem perceber a extensão das estradas que ficaram para trás.
Hoje pensei demoradamente sobre isso e compreendi que talvez todos nós carreguemos uma espécie de arquivo incompleto de nós mesmos. Não porque alguma coisa tenha sido escondida. Não porque alguém tenha apagado páginas. Mas porque o tempo é maior do que a memória e a vida, em sua vastidão, produz mais acontecimentos do que somos capazes de guardar.
Somos feitos também das coisas que esquecemos. Dos lugares cujos números já não lembramos. Das datas que perderam importância. Dos papéis que um dia estiveram sobre nossas mesas e depois seguiram seus próprios destinos pelas repartições, arquivos e corredores burocráticos do mundo.
Alguns deles talvez permaneçam durante décadas esperando que uma busca qualquer os devolva aos nossos olhos. Quando isso acontece, sentimos o peso dos anos. Não necessariamente um peso de tristeza, mas aquela espécie de silêncio que nasce quando percebemos a distância existente entre o homem que somos e todos os homens que já fomos ao longo da vida.
O jovem que começou um projeto. O homem que atravessou uma fase difícil. Aquele que mudou de caminho. Aquele que precisou recomeçar.
Todos continuam, de alguma maneira, vivendo dentro da mesma biografia, embora nem sempre conversem diariamente entre si. Talvez as gavetas que a vida abre sirvam exatamente para isso. Para reunir, por alguns instantes, o homem de hoje e aquele que caminhou por uma rua distante muitos anos atrás.
Um olha para o outro através do tempo. Nenhum precisa acusar o outro de esquecimento. Nenhum precisa perguntar por que determinadas lembranças perderam seus contornos. Basta compreender que ambos fizeram o que puderam com os dias que receberam. A vida continuou. O calendário cumpriu seu ofício.
E o tempo, esse velho funcionário que nunca encerra o expediente, continuou guardando papéis que a memória já não carregava. De vez em quando, uma gaveta se abre.Quando isso acontecer, penso que devemos receber o passado com serenidade, retirar a poeira dos documentos e permitir que os fatos contem aquilo que ainda conseguem contar. Sem medo. Sem impressões deslocadas. Sem obrigar a imaginação a ocupar o lugar da verdade. Porque a vida já é suficientemente longa, complexa e surpreendente para que ainda precisemos inventar labirintos onde talvez exista apenas um velho arquivo esperando ser organizado.
Hoje, diante de uma dessas gavetas, escolhi aproximar a cadeira. E começar a ler. Tentar decifrar a vida. Rever todos mapas feitos com sonhos.
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