Árvore centenária: Figueira do Rubaiyat tem apenas 50% de estrutura viva

O Rubaiyat da família Iglesias, ao lado de outros sobrenomes famosos como Fasano e Mancini, ajudou a transformar São Paulo em referência da gastronomia no decorrer das últimas décadas.

Só que nenhum restaurante em São Paulo tem uma figueira no salão, dividindo espaço com mesas, garçons e clientes. Isso sempre foi um diferencial para a casa, mas hoje pode ser encarado como problema por uns, ou como um enorme desafio – o de manter a árvore viva – para outros.

Estado da árvore requer cuidados

O estado atual da árvore requer cuidados diários, constatação a que se chega a partir da leitura de documentos elaborados pela Gaia Consultoria e Gestão Ambiental, empresa do biólogo que cuida da figueira e que foram enviados pelo próprio Italo à reportagem.

Um desses documentos, datado de março de 2026, indica que em 2024 a análise realizada na árvore constatou “pontos de necrose e apodrecimento nos troncos principais, desprendimento da casca e sinais de colonização de insetos como brocas e cupins”. Isso, segundo o documento da Gaia, enfraquece a madeira “gerando possibilidade de queda, com riscos à vida humana e ao patrimônio”.

O documento mostra – ainda – o trabalho de recuperação atualmente em curso. Num dos itens – ‘Revigoramento e retardo do processo degenerativo’ – há a descrição de ações de nutrição da figueira, controle de pragas, escoramento, entre outros.

Resta 50% de vida para a figueira icônica centenária do Rubaiyat - Estadão
Resta 50% de vida para a figueira icônica centenária do Rubaiyat

A indução de novas raízes e a poda

Fala-se em indução de novas raízes a partir da aplicação de hormônio enraizador para estimular “o lançamento de novas raízes (bengalas) para sustentação e nutrição”. O documento relata ainda a realização de implantação de ‘muletas’ nos galhos, também amarrados com cabos de aço quando necessário, isso visando a segurança.

Esse documento sustenta a resposta dada por Italo, em nome do restaurante, a um auto de infração e foi destinado à Divisão de Fiscalização da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente.

A justificativa visava explicar aos técnicos da gestão pública os motivos para a realização de uma poda considerada então drástica na figueira. A Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente confirmou à Coluna que o auto visava obter esclarecimentos a respeito da poda e que o responsável pelo imóvel “apresentou autorização” para a poda, “bem como laudo técnico emitido pela Subprefeitura de Pinheiros”.

Especificamente sobre as podas, o documento de Italo fala em evitar quedas de galhos. “Dado o local onde se desenvolveu e à idade avançada, ela se encontra em processo de morte e degeneração, sendo possível identificar galhos e troncos já mortos, com possibilidade de queda, trazendo riscos à vida humana e ao patrimônio”, conclui.

Belarmino Iglesias, da segunda geração do Rubaiyat, que comandou o grupo até 2017, antes de passar a responsabilidade para os filhos, diz que o foco é recuperar a árvore, descartando sua remoção; ele diz gastar entre R$ 700 mil e R$ 1 milhão por ano com a figueira.

“Você tem biólogo, você tem engenheiro agrônomo, engenheiro químico”, explica o restauranter. “Os detergentes que a gente usa para lavar a calçada da Figueira são detergentes neutros, que não afetam a raíz”. Italo também diz que não é caso para remoção. “Como ela está viva, não tem como discutir. Não entrego a camisa, ela tem partes vivas”.

Mas se o gasto com a figueira é considerável, se os esforços para cuidar da árvore são extensos e constantes, como ela chegou a essa situação?

“Falam de figueiras de mil anos, mas no ambiente dela. Numa cidade com esses ataques… a gente não pode afirmar, mas eu acho que tem muito mais chances de ataques externos que prejudicaram e que fizeram eventualmente um envelhecimento precoce”, supõe Belarmino, indicando a mudança urbana do entorno, por exemplo, e também a poluição.

O fator urbanístico e a figueira

O processo de deterioração da icônica árvore pode ser fruto da localização da figueira. De acordo com o biólogo do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP) Gregório Ceccantini, antigamente, essas árvores ficavam em grandes jardins, por exemplo.

Conforme prédios, casas, estabelecimentos comerciais e restaurantes foram se espalhando, os exemplares perderam espaço: “O que acontece é que acabam cortando parte das raízes laterais para fazer as fundações de imóveis e parte dos terrenos (no entorno) vai sendo impermeabilizado”.

A falta de condições – como nutrição e irrigação adequadas – torna as espécies mais suscetíveis a pragas e doenças. Ceccatini lembra de figueiras na Avenida Pacaembu que ficaram debilitadas e foram atacadas por moscas brancas. O biólogo destaca, no entanto, que seria preciso examinar a figueira do Rubaiyat de perto para obter conclusões mais aprofundadas.

O cliente mais atento, ou que frequenta mais assiduamente o restaurante Figueira Rubaiyat, deve ter notado uma placa afixada no local onde se lê a intenção de que a atual figueira continue a crescer saudável pelos próximos 125 anos. Não deixa de ser um plano.

Share this content:

Publicar comentário