As Mãos Que Ficam. Por Flávio Chaves

Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc  –  Tem uma xícara sobre a pia que não é minha. Ela estava lá quando acordei, com um resíduo de café no fundo que já esfriou durante a madrugada, e eu a olhei por um tempo que não sei medir, porque há certas manhãs em que o tempo se recusa a obedecer ao relógio e prefere habitar as coisas pequenas, os objetos deixados de qualquer jeito, as marcas que as pessoas deixam nos lugares antes de ir embora. Não sei por que fiquei parado diante daquela xícara. Sei apenas que ela me fez pensar em tudo aquilo que a vida nos tira sem nos avisar, sem nos dar ao menos o direito de uma última palavra, de um gesto final à altura do que sentíamos.

A gente não aprende a dizer adeus. Aprende a pronunciar a palavra, sim, aprende a acenar com a mão e a sorrir com a boca enquanto o coração já começa o seu trabalho silencioso de arrumar as coisas que sobraram, dobrar as memórias como se fossem roupas que não cabem mais em nenhuma gaveta. Mas o adeus de verdade, aquele que acontece quando ainda temos tempo e presença suficientes para olhar nos olhos de alguém e dizer o que precisava ser dito, esse raramente acontece. O que acontece, quase sempre, é que a vida vai levando as pessoas em pequenos gestos cotidianos, em partidas que parecem provisórias, em despedidas que fingem ser apenas até logo, e a gente só percebe a permanência da ausência muito depois, quando já não há mais como correr atrás.

Penso no meu pai, que não tinha o hábito das palavras grandes. Era um homem de sílabas curtas, de silêncios funcionais, de mãos que sabiam fazer coisas que a boca nunca conseguiu nomear. Ele consertava torneiras com uma concentração quase religiosa, e eu ficava olhando para aquelas mãos grossas e pacientes como se estivesse diante de algo que não entendia completamente mas que sabia ser importante, da mesma forma que uma criança sente a grandeza de uma catedral sem precisar compreender a arquitetura. Nunca lhe disse que admirava aquelas mãos. Nunca lhe disse que me sentia seguro quando ele estava por perto, não porque fosse um homem de presença imponente, mas porque havia nele uma espécie de consistência, uma solidez tranquila de quem já fez as pazes com o mundo e com as suas próprias limitações. A última vez que o vi, despedi-me na soleira da porta com uma pressa que ainda carrego como uma culpa pequena e insistente, uma pressa inventada, uma pressa que não era necessária mas que servia para não sentir demais, para não ficar parado demais diante de alguém que a gente ama e não sabe como dizer.

Existe uma geografia dos afetos que ninguém nos ensina a navegar. Aprendemos a andar de bicicleta, a fazer contas, a distinguir países em mapas coloridos, mas ninguém nos ensina que as pessoas que amamos vão escorregando para dentro do tempo como areia entre os dedos, e que o momento de segurar com mais força é exatamente aquele em que estamos mais distraídos com outras coisas, com as urgências fabricadas do dia a dia, com as reuniões que poderiam ser postergadas e os telefonemas que sempre prometemos fazer depois. O depois é o lugar onde a gente esconde o que não tem coragem de fazer agora, e é assustador perceber que o depois, às vezes, não existe.

A xícara sobre a pia continua lá, e eu já lavei a louça toda, mas não a lavei. Deixei-a de lado com um cuidado que não sei explicar direito, como se lavar aquela xícara fosse apagar alguma coisa que ainda precisa existir por mais algum tempo. É um gesto pequeno e um pouco ridículo, eu sei. Mas a gente faz essas coisas quando tenta segurar o que já passou, quando tenta que o mundo material guarde o que a memória não consegue proteger sozinha. Guardamos objetos. Guardamos cheiros. Guardamos a letra de alguém em papéis que nem sabemos mais onde estão mas que não conseguimos jogar fora, porque jogar fora seria uma forma de dizer que acabou de vez, e há coisas que a gente nunca quer que acabem de vez.

Não sei se é a idade ou se é simplesmente a vida acumulando peso, mas chega um ponto em que a gente começa a olhar para o presente com olhos que já conhecem a saudade antecipada, aquela saudade estranha que acontece antes mesmo da perda, quando ainda estamos com alguém e já sentimos o frio do que virá. É uma forma de amor, talvez, essa antecipação melancólica. É o coração tentando se preparar para o que sabe que não tem como suportar sem sangrar. Mas a preparação nunca é suficiente. A dor chega sempre com uma intensidade para a qual nenhum ensaio nos equipou, e ficamos lá, sem saber o que fazer com as mãos, olhando para o vazio que ocupava a forma de alguém.

Há despedidas que não reconhecemos como despedidas. São as mais cruéis. São aquelas que chegam disfarçadas de tarde comum, de jantar sem cerimônia, de telefonema breve entre compromissos. A última conversa real que tive com minha avó foi sobre o tempo que estava fazendo lá na cidade dela, e ela disse que estava frio, e eu disse que aqui também, e nenhum dos dois disse o que havia de mais importante, porque ambos acreditávamos que havia tempo, porque sempre acreditamos que há tempo, porque o tempo é a mentira gentil que a vida nos conta para que continuemos funcionando sem pânico. E então o tempo acaba, e o que sobra são as conversas sobre o clima e o silêncio enorme em volta delas.

A xícara, já percebi, sou eu tentando aprender uma lição que talvez não tenha aprendizado possível, apenas a repetição paciente do erro e a consciência cada vez mais clara de que as pessoas que amamos merecem mais do que as sobras da nossa atenção, mais do que os momentos que restam depois que fizemos tudo o que considerávamos urgente. Merecem o melhor da nossa presença, aquela presença completa em que os olhos olham de verdade e os ouvidos ouvem além das palavras, aquela presença rara que a vida moderna trata como luxo mas que é, na verdade, a única coisa que quando falta deixa um buraco que nenhuma conquista consegue tampar.

Vou lavar a xícara agora. Vou ligar para alguém que faz tempo não ouço, não porque seja um dia especial nem porque exista alguma razão prática, mas porque é tarde da manhã e a luz está bonita e a vida é breve de um jeito que a gente esquece com muita facilidade, e esquecer essa brevidade é o único erro que não tem como ser desfeito depois que o tempo vai embora e leva consigo todas as tardes em que poderíamos ter ligado e não ligamos, todas as mãos que poderíamos ter segurado por um momento a mais e soltamos cedo demais, todos os adeus que deixamos para depois e que o depois guardou para sempre, longe do nosso alcance, do outro lado de uma porta que não abre mais.

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