Manuel Alegre, a voz que ajudou Portugal a reencontrar a liberdade. Por Flávio Chaves

Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc  –    No dia 23 de abril de 2026,em Lisboa, às 18 horas,Palácio Galveias, edifício de linhas setecentistas que há décadas abriga uma das mais importantes bibliotecas municipais da capital, prepara-se para receber uma homenagem que tem o peso de um acontecimento cultural e moral. A Associação PEN Portugal, que desde a sua fundação em 1978 se dedica à defesa da liberdade de expressão e da literatura como património essencial da humanidade, escolheu este dia para celebrar Manuel Alegre. O convite, que circula nos meios editoriais e intelectuais, anuncia uma justa sessão , incluindo uma intervenção de José Carlos Vasconcelos, leitura de poesia e narrativa, e um momento musical com Luísa Amaro.

Não se trata, porém, de mais uma cerimónia de consagração. Trata-se de um reconhecimento que ultrapassa o protocolo porque o homenageado, ele próprio, ultrapassa há muito os limites de uma carreira literária ou política. Manuel Alegre é uma daquelas figuras raras em que a biografia individual se entrelaça com a história coletiva de um país a tal ponto que separar uma coisa da outra seria mutilar ambas. Homenageá-lo, em 2026, é homenagear a resistência à ditadura, a construção da democracia portuguesa, a afirmação da língua como território de liberdade, e a persistência de uma voz que nunca se acomodou ao silêncio nem se rendeu ao ruído.

Manuel Alegre nasceu em Águeda, a 12 de maio de 1936. Mas a sua verdadeira pátria de origem, como acontece com os poetas essenciais, talvez seja a língua portuguesa. É nela que respira, combate, ama e recorda. Formou-se em Direito na Universidade de Coimbra, cidade que naquele tempo ainda guardava o fulgor de uma tradição intelectual de oposição ao salazarismo. Foi lá que a sua consciência cívica despertou, no contacto com a poesia, com a discussão política clandestina e com a perceção de que, em Portugal, dizer a verdade podia custar a liberdade.

O que distingue Manuel Alegre de muitos outros intelectuais da sua geração é a maneira como nunca separou a palavra escrita da palavra pública. Ele não é um poeta que também fez política. É um poeta cuja poesia é, em si mesma, um acto político no sentido mais nobre do termo: não o da propaganda, mas o da interrogação do mundo, da denúncia da injustiça, da celebração da dignidade humana. E é, simultaneamente, um homem público cuja intervenção nunca abandonou a exigência estética e ética que aprendeu com os livros.

Para Portugal, Manuel Alegre é várias coisas ao mesmo tempo. É o poeta que, no exílio, escreveu versos que atravessaram fronteiras e entraram no país em discos e em folhas clandestinas. É o orador que, na Assembleia da República, durante mais de três décadas, usou a tribuna com uma eloquência rara, feita de substância e não apenas de retórica. É o candidato presidencial que, em 2006 e 2011, levou às urnas uma ideia de país assente na liberdade, na cultura e na justiça social. É, acima de tudo, uma consciência moral que continua a falar — e a ser ouvida — quando muitas outras vozes se renderam ao conformismo ou ao esquecimento.

A vida de Manuel Alegre poderia ser contada como um romance do século XX português. Nascido na Beira, cresceu num país rural e provinciano, ainda dominado por um regime que se prolongava no tempo com a aparência de uma quietude eterna. Foi para Coimbra, onde o ar da liberdade se respirava em pequenas doses, em reuniões secretas e em livros proibidos. Depois, a guerra colonial. Mobilizado para Angola, não fez da guerra uma experiência de obediência cega. Pelo contrário. Foi lá que a sua oposição ao regime se tornou activa e consequente. Preso pela PIDE em 1963, conheceu as celas da polícia política e entendeu, na carne, o que significa viver sob um Estado que teme a palavra.

O exílio veio a seguir. Primeiro Paris, depois Argel. Foi na capital argelina, então um polo de apoio aos movimentos de libertação nacional, que Manuel Alegre se tornou uma figura central da oposição a Salazar. Dirigente da Frente Patriótica de Libertação Nacional (FPLN), locutor da Voz da Liberdade, ele fez da rádio um instrumento de combate e da poesia um acto de resistência. Foi nesse período que escreveu alguns dos poemas que mais tarde se tornariam hinos de abril, cantados por Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira e Manuel Freire. O exílio não foi para ele um abrigo confortável, mas uma trincheira.

Regressado a Portugal em 1974, depois da Revolução dos Cravos, Manuel Alegre entrou na vida democrática com a mesma intensidade com que antes combatera a ditadura. Foi deputado à Assembleia Constituinte e, depois, em várias legislaturas, até 2015. Foi vice-presidente da Assembleia da República entre 1995 e 2009. Integrou o Conselho de Estado. Em 2024, o Partido Socialista, ao qual esteve ligado durante décadas, elegeu-o presidente honorário — um gesto que sublinha não apenas a sua importância histórica, mas também a sua permanência afectiva no imaginário da esquerda democrática portuguesa.

Se a biografia política de Manuel Alegre é notável, a sua obra literária é o que verdadeiramente o justifica e perpetua. Ele estreou-se tardiamente, em termos editoriais, mas com um impacto imediato. Praça da Canção (1965) e O Canto e as Armas (1967) são livros que nasceram no exílio e circularam em Portugal de forma clandestina, apreendidos pela censura, copiados à mão, emprestados entre amigos que arriscavam a prisão para ler versos. A razão desse fascínio é simples: ninguém, até então, tinha conseguido unir de forma tão orgânica a beleza poética e a urgência política. Os poemas de Manuel Alegre não eram panfletos disfarçados de poesia. Eram poesia verdadeira, com métrica, imagem, musicalidade e emoção — e, ao mesmo tempo, eram actos de insubmissão.

A sua obra não se fixou, porém, apenas na resistência. Ao longo das décadas, Manuel Alegre escreveu romances, ensaios, memórias e uma vasta produção poética que inclui títulos como Alma (2012), O Homem do País Azul (2015), Cão como Nós (2017) e Atlas (2020). Recebeu o Prémio Pessoa em 1999 e, em 2017, o Prémio Camões, a mais alta distinção da língua portuguesa. O júri do Camões, ao atribuir-lhe o prémio, destacou “uma obra que, no plano da criação poética e da reflexão cívica, se mantém fiel aos valores da liberdade e da dignidade humana”. Palavras que, à força de serem justas, parecem quase insuficientes.

O que há de único na escrita de Manuel Alegre é a sua capacidade de falar de Portugal sem provincialismo, do amor sem pieguice, da dor sem vitimização, da esperança sem ingenuidade. Ele é um poeta da pátria, sim, mas de uma pátria crítica, interrogada, amada como se ama uma pessoa real — com todas as suas falhas e grandezas. Por isso os seus versos continuam a ser lidos e citados, mesmo por quem não partilha das suas opções políticas. A literatura, quando é verdadeira, transcende as filiações partidárias. E a de Manuel Alegre é verdadeira.

O PEN Clube Português, hoje Associação PEN Portugal, foi fundado em 1978, quatro anos depois do 25 de Abril. Manuel Alegre foi um dos seus sócios fundadores. Esta informação, que consta do convite, confere à homenagem uma dimensão simbólica especial: a casa da liberdade literária presta tributo a um homem que ajudou a construí-la. O PEN, herdeiro da tradição internacional que remonta aos anos 1920, tem como princípio fundamental a defesa da liberdade de expressão e a recusa de qualquer forma de censura. Ao escolher Manuel Alegre para esta celebração, a associação não está apenas a distinguir um escritor consagrado. Está a reafirmar o seu próprio compromisso com os valores que deram sentido à sua existência.

A sessão de 23 de abril, com a participação de José Carlos Vasconcelos, académico e ensaísta de mérito reconhecido, promete uma reflexão aprofundada sobre a obra do poeta. Os momentos de leitura, que não terão nomes divulgados no convite mas que a imprensa provavelmente especificará, transformarão o Palácio Galveias numa câmara de eco da palavra alegriana. E a música de Luísa Amaro, concertista que tem explorado a fronteira entre a tradição erudita e a canção de intervenção, trará um elemento que Manuel Alegre sempre prezou: a oralidade, o canto, a respiração partilhada da poesia.

Esta homenagem não é, portanto, um acto interno do mundo literário. É um acontecimento público que convida Lisboa a parar, nem que seja por uma noite, para ouvir e recordar. Numa época em que a cultura é tantas vezes tratada como entretenimento descartável, celebrar Manuel Alegre com esta solenidade e com este rigor é um gesto de resistência civil.

Portugal em 2026 é um país diferente daquele em que Manuel Alegre nasceu. Viveu uma ditadura de quase cinco décadas, uma revolução, a construção democrática, a entrada na União Europeia, décadas de crescimento e de crise, e agora enfrenta os desafios de um mundo instável. Em momentos de viragem ou de incerteza, há sempre quem pergunte: para que serve a poesia? Para que serve a literatura? A resposta, que Manuel Alegre tem dado ao longo de toda a sua vida, é clara: a literatura serve para lembrar quem somos, de onde viemos, e o que não queremos voltar a ser.

Homenagear Manuel Alegre hoje é homenagear a memória democrática portuguesa. É lembrar que a liberdade não caiu do céu em 1974, mas foi conquistada por homens e mulheres que arriscaram a prisão, o exílio e a vida. É lembrar que a palavra pode ser mais forte do que as armas, e que um poema pode ter a mesma eficácia simbólica de uma batalha. É, também, um aviso contra o esquecimento. As novas gerações, que não viveram o salazarismo, correm o risco de naturalizar a liberdade como um dado adquirido. Manuel Alegre, com a sua obra e com a sua presença ainda activa, é uma barreira contra essa naturalização. Ele lembra-nos que a liberdade exige vigilância, memória e participação.

Há, por fim, uma razão mais íntima e talvez mais importante para esta homenagem. Manuel Alegre é um homem de 90 anos (completará essa idade a 12 de maio de 2026). O tempo, que a todos alcança, começou a pesar-lhe nos movimentos, mas não na lucidez. Quem o ouve falar hoje, em entrevistas ou em aparições públicas, reconhece a mesma clareza de pensamento, a mesma paixão pela língua, a mesma indignação diante da injustiça. Homenageá-lo agora, enquanto ele pode ouvir e sentir, é um acto de justiça e de gratidão. Não se espera pela morte dos grandes para lhes prestar tributo. Presta-se-lhes tributo em vida, com a generosidade que eles próprios praticaram.

Na noite de 23 de abril de 2026, no Palácio Galveias, quando as vozes se levantarem para ler os poemas de Manuel Alegre e a música de Luísa Amaro preencher o salão, algo mais do que uma cerimónia estará a acontecer. Estará a acontecer a confirmação de que a literatura portuguesa produziu, no século XX, uma das suas figuras mais completas: poeta, romancista, memorialista, ensaísta, cidadão. Estará a acontecer o reencontro de Portugal com uma parte de si mesmo que não pode ser delegada a livros de história — a parte que sente, que canta, que resiste.

Manuel Alegre escreveu, há muitos anos, um verso que se tornou quase um emblema geracional: “A verdade é mais forte do que as algemas”. A sua vida inteira foi uma demonstração dessa verdade. A sua obra, um monumento a ela. A homenagem do PEN Portugal é, no fundo, uma homenagem a essa ideia simples e fundadora: de que a palavra, quando é livre, quando é bela e quando é verdadeira, pode atravessar muralhas, vencer o medo e construir futuro.

Que o Palácio Galveias, naquela noite, esteja cheio. Que os poemas sejam ouvidos em silêncio e aplaudidos com emoção. Que a música de Luísa Amaro encontre nos versos de Manuel Alegre a sua continuação natural. E que Portugal, ao olhar para este homem de quase 90 anos, recorde que a liberdade tem rosto, tem voz e tem nome. E que esse nome, na literatura e na vida, é Manuel Alegre.

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