Minha Deusa.Por Flávio Chaves
Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc – A madrugada ainda vive em mim.
Não como memória. Memória seria coisa morta, arquivo do passado. O que sinto é presença contínua, como se o tempo daquela noite tivesse se recusado a passar. Fecho os olhos e ainda sinto o peso do seu riso no escuro, a alteração do ar quando você suspirou meu nome, a eletricidade exata do momento em que nossas mãos decidiram, juntas, que a distância entre nós era um insulto intolerável.
Sete dias. Conto cada um deles como quem conta moedas preciosas, não pela quantidade, mas pelo valor do que virá. Você, aqui. Em minha casa. Em meu espaço. Na minha vida, com a naturalidade de quem sempre pertenceu.
Já antecipo sua chegada com todos os sentidos.
Os olhos. Como serão esses primeiros segundos? Aquele brilho particular que você tem quando me vê, misto de desafio e entrega, de finalmente e ainda não. A voz, mais grave do que de dia, carregada de sono e de promessas. O perfume, não o da loja, mas o seu, aquele que fica nos lençóis depois que você parte e que eu me recuso a lavar.
Mas é o toque que me destrói de antecipação. Aquele abraço demorado, onde nossos corpos se reconhecem através das roupas, pressionando, recordando, provocando. Sua respiração no meu pescoço. Seu corpo se acomodando junto ao meu com aquela entrega confiante que me desarma. Minhas mãos na sua cintura, sentindo a curva que já aprendi a reconhecer no escuro. O momento, sempre demorado, sempre breve, em que decidimos, sem palavras, que a sala de estar é lugar insuportável, que a cozinha é distante demais, que só existe a subida da escada e o que ela promete.
O que vivemos naquela madrugada foi iniciação.
Não falo apenas do corpo, embora meu corpo grite sua falta com uma honestidade que me surpreende. Falo da cumplicidade que construímos entre risadas e confissões. Da coragem que você teve de se mostrar, não apenas nua, mas verdadeira. Da minha entrega em ser testemunha, abrigo, combustível para o seu fogo.
Você me disse coisas que nunca dissera. Eu lhe mostrei partes de mim que não sabia existirem. E no meio disso tudo, entre o sério e o irônico, entre o profundo e o profano, encontramos um idioma que é só nosso. Um código de olhares, de respirações alteradas, de mãos que sabem exatamente onde encontrar o arrepio escondido.
Estou tomado por uma expectativa que não tem nome.
Não é apenas desejo, embora o desejo me consuma de formas que me fazem rir de mim mesmo, homem maduro, perdido em fantasias como adolescente. É algo mais denso, mais perigoso, mais verdadeiro. É a certeza de que, quando você estiver aqui, não haverá lugar para timidez. Apenas para a verdade brutal do que sentimos.
Quero suas mãos nas minhas, não como carinho, mas como âncora. Quero seu riso abafado contra meu ombro quando a proximidade se torna insuportável. Quero seus olhos se fechando e se abrindo, procurando os meus, confirmando que estamos juntos nessa queda. Quero o silêncio depois, o nosso silêncio, carregado, alterado, quase sagrado.
Você me perguntou, naquela madrugada, o que eu sentia quando você se entregava.
Deixe que eu tente responder agora, com a calma que não tive então.
Sinto responsabilidade de estar à altura da sua entrega. Sinto gratidão por ser o escolhido para testemunhar sua vulnerabilidade. Sinto uma fúria contida, aquela que nasce da certeza absoluta de que sei exatamente como tocar você, como aproximar, como afastar, como fazer o tempo parar no momento exato do seu prazer. E sinto, acima de tudo, pertencimento: o de quem encontrou, depois de tantos anos, o outro lado da conversa que sempre quis ter.
Venha. Venha logo.
Deixe que eu desfaça essa distância com a intensidade do meu desejo contido. Deixe que eu prove que tudo o que vivemos foi apenas prelúdio, a abertura de um livro cuja história principal exige tempo, atenção e a coragem de se perder completamente na narrativa.
Prometo-lhe noites, não apenas uma. Prometo-lhe risadas, daquelas que vêm do estômago, das suas confissões mais inesperadas. Prometo-lhe entrega, a minha, completa, sem reservas, sem armaduras. E prometo-lhe manhãs, aquelas em que acordamos lentamente, ainda entrelaçados, e o mundo exterior parece pecado menor comparado à preguiça de nos separarmos.
Estou aqui, contando as horas. Meu corpo é seu, antecipando o seu. Minha mente está entre seus pensamentos, provocando, prometendo. Minha alma, sim, minha alma, está ajoelhada diante da sua coragem de se entregar assim, com tanta verdade, com tanto fogo.
Venha me buscar onde eu estou: perdido em você.
Com a fúria do meu desejo e a ternura da minha admiração,
Eu
P.S. Deixe a camisola preta na mala. Ou não. A decisão é sua, e eu ganho dos dois jeitos
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