Despedir-se de um amor é seguir sobrevivendo, apenas. Por Flávio Chaves

Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc  –  Depois que ela parte, o mundo não desaba como nos dramas que fingimos entender quando ainda tínhamos o corpo quente de alguém ao lado, ele apenas muda de densidade, como se o ar ficasse mais pesado e a luz, sem avisar, começasse a bater em ângulos errados dentro da casa, e então a primeira mentira se instala com a naturalidade de uma poeira antiga, a mentira de que a conta a pagar se chama solidão, como se a solidão fosse esse quarto vazio que a gente aponta com o dedo e diz, aqui falta alguém, aqui ecoa um nome, aqui a cama tem um lado inútil. Mas a solidão, quando é apenas ausência, ainda conserva um tipo de presença, porque o vazio é uma forma, e toda forma ainda conversa com a vida. O que vem depois, o que realmente vem, não é a falta de companhia, é a condenação de sobreviver com o coração funcionando como um aparelho doméstico que ninguém mais olha, um motor discreto que faz barulho, mas não celebra nada.

Amar, enquanto existe, não é apenas ter alguém, é ter uma espécie de tradução do mundo, é como se cada coisa, do copo na mesa ao ruído de um ônibus na esquina, ganhasse legenda, ganhasse sentido, ganhasse uma razão secreta para acontecer, e quando ela vai embora, o que desaparece não é só o rosto, é a legenda, é a língua em que a realidade era dita. A vida continua, claro, ela continua com a crueldade educada de sempre, os compromissos, as chaves, os horários, a conta no fim do mês, as mensagens automáticas, e nós continuamos também, com a mesma cortesia dos condenados que ainda sabem sorrir, mas existe uma diferença íntima, terrível e quase invisível, como a diferença entre um corpo morno e um corpo febril, entre uma respiração que sustenta e uma respiração que apenas prova que o peito não parou. A verdadeira conta é esta, a vida passa a ser uma cidade em que você reconhece as ruas, mas perdeu o mapa interior, e cada esquina é apenas uma repetição sem promessa.

A ausência do amor é uma casa sem janelas, e não porque falte paisagem, mas porque falta a passagem da luz que nos ensinava a acreditar que havia manhãs. Você acende lâmpadas, você troca as cortinas, você arruma os móveis, você varre o chão, e nada disso abre o mundo, porque janela não é um buraco na parede, janela é uma permissão, é a forma do olhar, é o gesto de atravessar com os olhos aquilo que o corpo não alcança. Sem ela, sem o amor que ela carregava como quem carrega um fósforo aceso no escuro, a casa vira um lugar inteiro e, ainda assim, incompleto, como se o teto estivesse no mesmo lugar, mas o céu tivesse sido confiscado. Você mora, mas não habita, você se movimenta, mas não se expande, e o que era lar vira apenas estrutura, e estrutura é um nome elegante para prisão.

A ausência do amor é um mar sem sal, e não porque a água deixe de ser vasta, mas porque perde o gosto de origem, perde a memória mineral que fazia do mar algo vivo e antigo, algo que morde os lábios e deixa marca. Um mar sem sal continua ondulando, continua batendo nas pedras, continua fazendo barulho para parecer grandioso, mas não cura, não arde, não conserva, não batiza ninguém. Assim fica a vida depois, vasta como sempre, cheia de acontecimentos como ondas, cheia de ruídos como espumas, e no entanto insossa, incapaz de ferir de verdade, incapaz de sarar de verdade, incapaz de guardar qualquer coisa. A gente olha para essa água e pensa, ainda há mar, e se engana, porque o que chamávamos de mar era também o sal, era o risco, era a ardência, era a promessa de que o corpo podia ser atravessado por algo mais forte do que ele.

A ausência do amor é um relógio que marca horas, mas não marca tempo, e isso é o que mais enlouquece, porque as horas obedecem, passam, empurram o calendário, exigem que você esteja de pé, exigem que você responda, exigem que você produza, mas o tempo, o tempo verdadeiro, que é aquele que nos transforma, que nos amadurece, que nos dá história, esse tempo se recusa, como se uma parte da vida tivesse sido congelada no momento exato da partida, e tudo depois fosse apenas uma sequência de movimentos sem travessia. O relógio faz seu trabalho com a pontualidade de um carrasco, e você aprende a viver de tarefas, aprende a se salvar com rotinas, aprende a fingir que avançou porque já é outro mês, já é outro ano, mas por dentro você permanece no mesmo lugar, naquele instante em que a porta fechou, naquele segundo em que a voz dela não voltou, e percebe, com uma lucidez que dói, que existe uma diferença brutal entre passar e acontecer.

A ausência do amor é um corpo que respira, mas não pulsa. O peito sobe e desce, os pulmões cumprem seu ofício, o sangue circula como um funcionário fiel, e ainda assim falta aquele impacto secreto que faz do coração mais do que uma bomba, falta o espanto, falta a urgência, falta a alegria que assusta, falta até a dor que dá sentido, porque a dor do amor era uma prova de incêndio, e agora o que resta é uma cinza fria, um silêncio organizado. Você come, você dorme, você conversa, você faz planos, e tudo isso é uma espécie de fisiologia moral, um manual de sobrevivência que você segue sem acreditar, como alguém que repete orações sem fé apenas para não enlouquecer. E então entende, com vergonha e verdade, que a maior tragédia não foi ela ter ido embora, foi ela ter levado com ela a capacidade de sentir que você estava vivo.

Há quem confunda esse estado com serenidade, há quem olhe de fora e pense que você amadureceu, que está mais calmo, que aceitou, e você até pode concordar, porque é mais fácil chamar de maturidade aquilo que, na verdade, é um apagamento lento. Você continua aqui, você não morre, e talvez esse seja o castigo mais sofisticado, continuar aqui como uma vela que não apaga, mas também não ilumina, continuar aqui como música sem som, como livro sem leitor, como noite sem estrelas. Viver sem amor não é morrer, porque morrer ao menos encerra, e encerra com dignidade, mas viver sem amor é permanecer em uma espécie de intervalo, um território em que a alma não grita nem canta, apenas cumpre, apenas suporta, apenas atravessa os dias como quem atravessa um corredor longo de hospital, branco, limpo, interminável, onde nada acontece além do próprio caminhar.

E é aí que a conta se revela inteira, não é a falta do outro na cama, nem o silêncio na sala, nem os domingos que parecem maiores, é a sensação de que você foi devolvido ao mundo sem os sentidos completos, como se estivesse condenado a ver sem cor, a ouvir sem música, a tocar sem pele. A partida dela transforma o cotidiano em uma sequência de provas de resistência, e você vai passando, porque o ser humano tem esse talento assustador para seguir, mas seguir não é viver, é apenas continuar. No fim, quando a noite desce e ninguém mais pede nada de você, sobra a pergunta que não é dramática, é apenas verdadeira, e talvez seja a pergunta que decide tudo: se eu existo, por que não sinto que vivo. Porque existir é ocupar espaço e cumprir horas, é respirar, é pagar contas, é responder ao mundo, mas viver é ser atravessado por sentido, é pulsar por dentro, é ter janelas na casa, sal no mar, tempo no relógio, coração no corpo. E quando o amor vai embora, o que fica não é a morte, é esse estado silencioso em que a alma, sem alarde, vai aprendendo a desaparecer.

Share this content:

Publicar comentário