A Fênix não nasce do palanque. Por Flávio Chaves
Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc – O Carnaval termina como terminam as grandes ilusões: sem anúncio, sem trombeta, quase em silêncio. A rua amanhece com uma espécie de verdade no chão: purpurina misturada ao pó, um resto de fita, um copo amassado. O cheiro agridoce do que foi e já passou. E, depois da última batida, vem a ressaca que não é só do corpo. É da cidade.
A Quarta-feira de Cinzas, quando despida do moralismo, é isso: o instante em que a fantasia perde o domínio do olhar. O barulho cessa, a luz baixa, e aquilo que estava encoberto pelo brilho volta a existir. Cinzas, aqui, não são sermão. São acerto de contas. O dia seguinte é o dia em que o espetáculo deixa de ser argumento e o essencial volta a cobrar o seu lugar.
Festa é cultura, tradição, identidade, economia. Mas, na mão de certas gestões, vira método. Não se administra a realidade; administra-se a atenção. Não se entrega o básico; entrega-se a sensação. Não se enfrenta o problema; coreografa-se o anúncio.
E quando o calendário oferece uma vitrine, a tentação é grande: transformar palco em escudo. O povo entretido tem menos tempo de perguntar. O cidadão cansado de lutar aceita o alívio de esquecer. O espetáculo vira uma anestesia social com trilha sonora.
Só que este ano a cidade deu uma resposta que nenhum marqueteiro planeja: a água. Choveu, acumulou, travou. Onde a rua deveria ser avenida de alegria, virou prova de que o chão não dá conta. Drenagem é uma palavra pouco fotogênica, não rende vídeo emotivo, não dança no trio. Mas, quando falha, é ela que dirige o desfile: o povo não vai às ruas porque a rua não foi preparada para o povo. A festa, que costuma cobrir rachaduras, acabou revelando uma. Sem querer, o Carnaval fez o que muitos discursos evitam: mostrou o bastidor.
E é aí que mora a pergunta que incomoda mais do que qualquer bateria: quanto custa o brilho quando o básico vive no improviso? Não falo apenas do valor carimbado em planilhas. Falo do custo político de trocar prioridade por vitrine; do custo moral de vender encenação como cuidado; do custo social de sempre faltar o invisível, enquanto sobra o que dá foto.
Repare no vocabulário do encantamento. Ele não é inocente. “Legado”, “investimento cultural”, “economia girando”, “o povo merece alegria”. Palavras bonitas são o perfume preferido da má administração. Porque cabem no post, cabem no palanque, cabem no vídeo com trilha emotiva. E, sobretudo, evitam o detalhe que desmancha a poesia: o critério, o contrato, a transparência, o resultado.
O truque é antigo e eficiente: pega-se algo que o povo ama, cola-se a marca da gestão, e vende-se a imagem de afeto público. Ao mesmo tempo, rebaixa-se qualquer cobrança à categoria de “amargura”. Como se perguntar fosse torcer contra. Como se fiscalizar fosse odiar cultura. Como se exigir prioridade fosse crime de mau humor.
Mas as cinzas têm uma virtude cruel: elas não aplaudem. Elas ficam. E, quando ficam, obrigam a cidade a encarar o que o confete tenta esconder.
Aí entra a metáfora da Fênix, sem açúcar e sem cartaz motivacional. A chance de renascimento positivo vindo de quem passou o mandato inteiro ludibriando o povo com brilho e frase pronta é pequena, porque o método depende do contrário do renascer: depende do esquecimento, da distração, da repetição do show.
Se alguma coisa boa pode emergir depois desse pão e circo, é mais provável que venha de baixo para cima: do povo que acorda no dia seguinte e decide trocar transe por exame. Do cidadão que, em vez de pedir mais luz, começa a pedir chão. Chão que não alaga. Chão que sustenta. Chão que não vira lago no primeiro temporal.
Que a Quarta-feira de Cinzas seja, então, um tipo de auditoria íntima e pública. Uma temporada de memória. Um tempo de perguntas simples, porém perigosas para quem vive de encenação: o que foi prometido virou o quê? O que foi anunciado apareceu onde? O que era prioridade virou cenário?
Porque o poder sempre apostou na mesma coisa: passado o brilho, ninguém lembra do preço. Passada a música, ninguém cobra o silêncio. Passada a festa, volta tudo ao normal, e o “normal” é a fila, o buraco, a água acumulada, o improviso.
A Quarta-feira de Cinzas é a chance de quebrar essa aposta. E se a Fênix for possível, ela não nasce de palanque nem de propaganda. Ela nasce quando a cidade entende que alegria não substitui dignidade e que nenhum espetáculo, por mais bonito, vale mais do que o básico feito com decência.
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