GAZETA PERNAMBUCANA – EDITORIAL – Avanço brasileiro na medula

A pesquisadora brasileira Tatiana Coelho de Sampaio

Por décadas, uma lesão na medula espinhal significou, para a maioria dos pacientes, um caminho de sequelas permanentes, com tratamento centrado em estabilização da coluna e reabilitação. Um estudo conduzido no Brasil reacendeu a esperança de mudança nesse cenário. A pesquisadora Tatiana Coelho de Sampaio, professora doutora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, lidera uma investigação de cerca de 25 anos que resultou na polilaminina, um composto experimental baseado na laminina, proteína associada à matriz extracelular e obtida a partir de placenta doada.

A proposta do método é estimular a reorganização do tecido nervoso. A polilaminina é aplicada diretamente no local da lesão, durante procedimento cirúrgico, buscando criar um ambiente biológico mais favorável à regeneração e à reconexão de circuitos neurais. Relatos iniciais, repercutidos por veículos de comunicação, apontam recuperação parcial de movimentos em alguns casos, com melhora mais expressiva em situações específicas, sempre associada à reabilitação.

Apesar do impacto da notícia, especialistas e publicações da área de saúde ressaltam que ainda é cedo para falar em cura. Até aqui, não há comprovação científica definitiva de eficácia em estudos clínicos amplos e controlados. Existem relatos de melhora importante divulgados publicamente, mas o reconhecimento de cura exige validação com amostras maiores, critérios padronizados e acompanhamento.

O passo mais decisivo no caminho regulatório veio em janeiro de 2026, quando a Agência Nacional de Vigilância Sanitária autorizou um estudo clínico de fase 1 para avaliar a segurança da polilaminina em humanos. O protocolo prevê um grupo pequeno de pacientes com lesões agudas completas na medula torácica, em janela curta após o trauma, com indicação cirúrgica. Essa etapa é considerada inicial e antecede pesquisas maiores voltadas a medir eficácia com precisão.

Enquanto a ciência avança com cautela, o tema ganha relevância humana e social: se confirmada em etapas futuras, a terapia pode significar mais autonomia, menos sequelas e um novo horizonte para pessoas que hoje convivem com limitações severas. Até lá, a polilaminina segue como uma promessa concreta, mas ainda experimental, da medicina regenerativa brasileira.

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