Maysa: Quarenta e sete invernos depois, o canto ainda arde. Por Flávio Chaves

MAYSA: A VOZ QUE NÃO MORRE

Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc  – Hoje é 22 de janeiro.
E nesta data cravada a ferro e fogo no calendário da emoção brasileira, completam-se 47 invernos desde que Maysa nos deixou. Ou melhor: desde que sua presença física se dissolveu no tempo. Porque sua voz, essa não se cala. Nunca se calou. Ela continua habitando o país como um fantasma luminoso, uma chama que se recusa a apagar, mesmo sob o sopro gélido dos anos.

Maysa não foi apenas uma cantora. Ela foi um abalo sísmico na sensibilidade nacional. Uma mulher que incendiou o palco com a própria alma. Que cantava como quem implora socorro, como quem atravessa a madrugada com os olhos cheios de mar. Sua voz não era apenas som — era confissão, era febre, era ferida exposta.

Nascida Maysa Figueira Monjardim, em 1936, no conforto burguês da elite carioca, parecia fadada ao destino das porcelanas intocáveis. Mas ela preferiu quebrar. Rompeu as molduras, fugiu dos contornos, fez da vida um risco permanente. Onde esperavam delicadeza, ela ofereceu intensidade. Onde queriam silêncio, ela entregou grito. Maysa não se encaixava. Transbordava.

Gravou seu primeiro disco ainda nos anos 1950 e, rapidamente, virou um vendaval. Reinventou o samba-canção, deslizou pelo bolero com os pés descalços da emoção, antecipou a melancolia sofisticada da bossa nova. Mas onde cantava, deixava algo além da melodia: deixava um rastro de verdade bruta, um vestígio de dor bela.

Sua voz era um mar em ressaca. Grave, densa, com sal e com sombra. Não era uma voz decorativa. Era uma voz que cortava, que estremecia, que desafiava. Maysa não se importava em soar bonita. Queria soar real. Mesmo que isso lhe custasse o sossego, a reputação, a acolhida da crítica. Ela preferia a franqueza à aceitação. Era artista demais para caber nas vitrines da conveniência.

Pagou caro. Foi chamada de rebelde, instável, trágica. Sofreu os açoites da imprensa e o isolamento dos salões. Mas nunca recuou. Viveu na contramão do roteiro que lhe escreveram. Fez de sua vida uma partitura dissonante, onde cada nota era escrita com sangue.

Maysa viveu como uma chama exposta ao vento. E, por isso, queimava mais intensamente. Seus amores eram incêndios. Seus silêncios, tempestades. Cada canção era um bilhete jogado ao mar. E nós, ouvintes, seguimos recolhendo essas garrafas com as mãos trêmulas da memória.

Em 22 de janeiro de 1977, seu corpo foi tragado por um acidente na Ponte Rio–Niterói. Tinha apenas 40 anos, mas já havia vivido mil. A notícia atravessou o Brasil como um trovão. Mas o silêncio que se seguiu durou pouco. Porque a matéria se desfez, mas a voz iniciou sua travessia para o reino dos mitos.

Quarenta e sete anos depois, Maysa continua. Não como lembrança, mas como presença. Seu canto atravessa gerações, resiste à erosão do tempo, reaparece na sensibilidade de novos artistas, nas lágrimas que ainda escorrem ao som de “Meu Mundo Caiu”.

Lembrar Maysa não é apenas reviver uma época. É acender uma vela num mundo que insiste em se apagar. É recordar que a arte verdadeira não morre. Que há mulheres que, mesmo feridas, se erguem em forma de canto. Que há vozes que não apenas embalam, mas revelam.

Ela nos ensinou que cantar é se despir diante da plateia e deixar que vejam as cicatrizes. Que interpretar é ferir-se um pouco a cada nota. Que a beleza, muitas vezes, habita na imperfeição sincera, e não na técnica imaculada.

Por tudo isso, hoje, não escrevemos um epitáfio, mas um louvor.
Não celebramos a ausência, mas a permanência.

Maysa não morreu. Ela apenas se espalhou.
Virou memória. Música. Mito.
E, como todo mito, continua viva onde importa: no coração dos que sentem demais.

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