A fogueira que a chuva não apaga. Por Flávio Chaves
Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc – Quando junho se aproxima do coração do Nordeste, não é apenas o calendário que muda de página, nem somente a cidade que se veste de bandeirolas, milho verde, sanfona e clarão de fogueira; é a própria memória do povo que se levanta da cadeira antiga onde estava sentada, sacode a poeira do tempo, abre a porta da infância e chama cada um de nós pelo nome, como se dissesse, com aquela voz mansa das coisas eternas, que nenhuma modernidade será capaz de apagar completamente o cheiro do terreiro molhado, o gosto da canjica feita com paciência, o barulho dos passos no chão de barro e a alegria simples de uma família reunida ao redor do fogo, não para fugir da noite, mas para lembrar que até a escuridão precisa respeitar a luz quando ela nasce da alma de um povo.
O São João, para nós, nunca foi apenas uma festa marcada no programa oficial das cidades, nem um ajuntamento colorido para fotografia de rede social; o São João é uma espécie de pátria sentimental do nordestino, um território íntimo onde cabem os vivos e os que já partiram, os amores que ficaram pelo caminho, as promessas feitas aos santos, os meninos correndo entre fogos, as mães preocupadas, os pais calados olhando a brasa, os avós com os olhos cheios de passado e essa multidão invisível de lembranças que aparece toda vez que uma sanfona puxa o primeiro acorde e o peito da gente, sem pedir licença à razão, começa a dançar por dentro.
Mesmo quando a chuva cai sobre as ruas, sobre os arraiais, sobre os telhados antigos e sobre as ladeiras onde o povo insiste em caminhar, existe uma fogueira que ela não consegue apagar, porque não foi acesa com graveto, querosene ou papel velho, mas com fé, saudade, resistência e pertencimento; é uma chama funda, guardada no peito dos que aprenderam desde cedo que a vida pode ser dura, mas não precisa ser seca, que o sofrimento pode visitar a casa, mas não tem o direito de expulsar a esperança, e que o Nordeste, tantas vezes ferido pela desigualdade e esquecido pelos discursos de ocasião, continua sendo esse milagre humano que transforma escassez em partilha, tristeza em cantoria, chão rachado em poesia e noite fria em encontro.
Talvez seja por isso que junho fale tão profundamente conosco: porque ele devolve ao povo aquilo que o mundo apressado tenta roubar todos os dias, que é o direito de sentir devagar, de lembrar sem vergonha, de celebrar sem luxo, de abraçar sem pressa e de reconhecer, no rosto iluminado pela fogueira, a beleza de uma existência que não precisa ser perfeita para ser sagrada; e quando a sanfona chora, o triângulo responde e a zabumba marca o compasso, não é somente a música que se espalha pelo ar, é uma escritura antiga sendo lida outra vez, uma carta de amor escrita pelo Nordeste para seus filhos, dizendo que ninguém é pobre quando ainda guarda uma lembrança bonita, uma fé acesa e uma mesa onde sempre cabe mais um.
A chuva pode molhar a festa, pode apressar os passos, pode apagar algumas brasas no meio do terreiro, pode fazer o povo correr para debaixo dos toldos e das marquises, mas não consegue vencer aquilo que junho desperta, porque a verdadeira fogueira do São João arde numa dimensão que a água não alcança; ela queima no nome dos nossos antepassados, no riso das crianças, na voz dos cantadores, no perfume do milho cozinhando, no vestido de chita rodando no salão, na oração silenciosa de quem olha para o céu e agradece, mesmo sem ter recebido tudo o que pediu, porque sabe que a vida, quando é vivida com dignidade e ternura, já é uma forma de milagre.
E assim seguimos, entre o clarão e a chuva, entre a saudade e a esperança, entre o passado que nos chama e o futuro que nos cobra coragem, carregando dentro do peito essa chama nordestina que não se curva ao tempo, não se rende à tristeza e não aceita ser apagada por nenhuma tempestade; porque o São João passa, as bandeiras se recolhem, a música silencia, a cinza esfria no chão, mas alguma coisa permanece acesa em nós, como uma pequena estrela doméstica, humilde e teimosa, lembrando que um povo que ainda sabe celebrar suas raízes jamais estará completamente perdido.
Esse é o fogo que a chuva não apaga.
E é nele que o Nordeste se aquece, se reconhece e se eterniza.
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